A Semana da Ascensão’26 arrancou no sábado, 9 de Maio, na Chamusca, debaixo de chuva, mas nem o tempo instável retirou força ao ambiente de festa, tradição e orgulho ribatejano que marcou a inauguração do maior certame do concelho. Entre música, discursos institucionais e homenagens, o presidente da Câmara da Chamusca, Nuno Mira, aproveitou a cerimónia para deixar um recado claro ao Governo: o concelho continua à espera das acessibilidades rodoviárias prometidas há vários anos, essenciais para responder aos impactos provocados pelo tráfego pesado associado ao Ecoparque do Relvão.
A inauguração oficial decorreu perante dezenas de convidados, autarcas, representantes institucionais, associações e população, dando início a nove dias de programação que cruzam música, gastronomia, tradição, folclore, desporto, mostra empresarial e festa brava, num certame que continua a afirmar-se como um dos maiores eventos populares do Ribatejo.
Na sua intervenção, Nuno Mira recordou que a Chamusca assumiu “com responsabilidade” a instalação de uma infraestrutura de relevância nacional, lembrando que o Ecoparque do Relvão integra as duas únicas unidades de tratamento de resíduos perigosos existentes no país. “Esta responsabilidade nacional não pode continuar a ser suportada apenas pela população da Chamusca”, afirmou o autarca, alertando para os “graves constrangimentos à circulação rodoviária” dentro das localidades e nos acessos ao concelho.
Segundo o presidente da Câmara, o aumento significativo do tráfego pesado tem afectado “a qualidade de vida da população, a segurança rodoviária e a atractividade do território para novos investimentos”, defendendo que o concelho não está a pedir “privilégios”, mas sim “justiça, respeito e compromisso”. “O concelho da Chamusca continuará a cumprir o seu papel com responsabilidade, mas o Governo também tem que cumprir a sua palavra para com os chamusquenses”, reivindicou.
Mas a intervenção do autarca não se centrou apenas nas reivindicações políticas. Nuno Mira procurou também sublinhar a dimensão identitária da Ascensão, descrevendo-a como “a maior semana do ano” para os chamusquenses e “a celebração daquilo que somos enquanto comunidade, da nossa história, das nossas raízes e da forte ligação à cultura ribatejana”. Ao longo do discurso, destacou o papel das freguesias, associações, IPSS, empresários e forças vivas do concelho na construção de um certame que classificou como “muito mais do que um evento festivo”. “É um encontro de gerações, um reencontro de famílias e amigos, o orgulho de pertencermos a uma terra com identidade, alma e um património cultural que importa preservar e valorizar”, afirmou.
A cerimónia ficou igualmente marcada pela evocação emocionada a Sérgio Carrinho, antigo presidente da Câmara da Chamusca, falecido no ano passado, que Nuno Mira descreveu como “grande impulsionador da Semana da Ascensão”. O actual presidente recordou o antigo autarca como “um homem humilde, próximo das pessoas, dedicado à sua terra e comprometido com a população”, considerando que a sua visão ajudou a transformar o certame “numa referência maior do concelho e do Ribatejo”.
Também Pedro Beato, vice-presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, destacou a autenticidade cultural da festa e a força identitária do território ribatejano, defendendo que essa dimensão constitui um dos principais activos turísticos da região. “Estamos aqui no coração do Ribatejo, onde temos exactamente essa força e essa identidade”, afirmou, considerando a Ascensão um exemplo da autenticidade que os visitantes procuram nos territórios. O responsável garantiu ainda disponibilidade da entidade regional para continuar a colaborar com o município em áreas como a gastronomia, o rio Tejo e a valorização turística do território.
Além da vertente institucional, a edição deste ano da Semana da Ascensão apresenta algumas novidades, entre as quais o regresso da manga das largadas ao centro da vila, recuperando uma imagem tradicional profundamente associada à identidade da festa. O programa integra ainda três palcos distintos — Palco Ascensão, Palco Tradição e Palco da Juventude — numa aposta que procura cruzar diferentes públicos e gerações.
Em declarações aos jornalistas no final da inauguração, Nuno Mira admitiu sentir hoje uma responsabilidade diferente perante o evento. “Eu vinha à Ascensão como visitante. A preocupação era estar com os meus amigos e confraternizar. Hoje, a preocupação tem sido garantir que a festa tem todas as condições para acolher quem nos visita e também para que as pessoas da Chamusca se sintam dignificadas neste que é o maior evento do concelho”, afirmou. O autarca defendeu que a Ascensão “marca o concelho da Chamusca, mas também a região”, justificando a aposta num cartaz musical forte sem perder a ligação às tradições ribatejanas.
O presidente da Câmara mostrou-se ainda convicto de que a edição deste ano representa “um grande salto” face aos últimos anos, destacando o reforço das actividades ligadas à tauromaquia e a aposta numa programação dirigida também aos mais jovens. “Creio que temos uma das maiores Ascensões dos últimos anos”, afirmou.
A Semana da Ascensão entra agora nos dias tradicionalmente mais concorridos do certame. Esta quinta-feira, 14 de Maio, feriado municipal, volta a realizar-se a tradicional Apanha da Espiga, seguida da Entrada de Toiros e da Corrida de Toiros na centenária Praça de Toiros da Chamusca, um dos momentos mais emblemáticos da festa. Em palco actuará Raquel Tavares, enquanto o fim-de-semana de encerramento reserva ainda os concertos dos Némanus, na sexta-feira, e de José Cid, no sábado, num regresso particularmente simbólico do músico natural da Chamusca à maior festa do concelho.
