Com mais de 30 anos de experiência nos mercados financeiros, Fernando Abreu criou o Crashopolis, um jogo de tabuleiro desenvolvido pela FabLab de Torres Novas para ensinar literacia financeira em Portugal. 

Em entrevista ao Correio do Ribatejo, o autor explica como este simulador responde às lacunas existentes ao nível de conhecimentos financeiros e ajuda escolas e famílias a compreender a economia real de forma prática.   

Como surgiu a ideia do Crashopolis e porquê usar jogo de tabuleiro para ensinar literacia financeira?

O Crashopolis nasceu da experiência acumulada ao longo de mais de 30 anos nos mercados financeiros. 

Ao longo desse percurso, no contacto com directores financeiros, administradores de grandes empresas, muitas delas cotadas em bolsa, e também com investidores, fui identificando lacunas claras ao nível da literacia financeira. Percebi que muitos problemas resultavam não da falta de capacidade, mas da falta de contacto com ferramentas de compreensão prática.

O Crashopolis surgiu precisamente dessa convergência: por um lado, a experiência profissional nos mercados; por outro, a convicção de que se aprende melhor quando se participa activamente.

Foi um desafio simplificar conceitos complexos, como indicadores económicos e mercado de capitais, para que fossem acessíveis a quem não tem conhecimentos prévios na área?

Sim, esse foi um dos grandes desafios do Crashopolis: tornar acessíveis conceitos naturalmente complexos, como mercado de capitais, indicadores económicos, IPO, mercado secundário ou OPA, sem os desvirtuar. 

A solução passou por uma abordagem progressiva. O jogo foi concebido para que os jogadores entrem gradualmente na lógica dos mercados.

O Crashopolis integra 20 empresas, mas também 20 produtos financeiros, incluindo instrumentos como ETF, obrigações, futuros sobre commodities, produtos de risco mais elevado e até activos digitais, como a bitcoin. 

No fundo, o desafio foi encontrar um equilíbrio entre rigor e clareza: criar um jogo que não parecesse uma aula teórica, mas que permitisse ao jogador aprender de forma envolvente, progressiva e muito próxima do funcionamento real do mundo financeiro.

O jogo recorda jogos clássicos de tabuleiro como o Monopólio, mas focado na dinâmica do mercado moderno. Qual a principal diferença na mentalidade e comportamento que um jogador deve ter neste jogo, comparativamente aos jogos tradicionais?

O Crashopolis pode, à primeira vista, recordar alguns jogos clássicos de tabuleiro, mas a mentalidade que exige do jogador é bastante diferente. Nos jogos tradicionais, muitas vezes a lógica passa por acumular património de forma relativamente linear e esperar que o tempo jogue a favor do jogador. No Crashopolis, essa abordagem não chega.

Aqui, o jogador tem de pensar mais como um participante real dos mercados: interpretar informação, avaliar risco, diversificar, decidir quando entrar, quando sair e como reagir a mudanças no contexto económico. Não basta comprar e manter; é preciso perceber que o mercado é dinâmico, que há ciclos, volatilidade, indicadores que influenciam o comportamento dos activos e diferentes perfis de risco entre produtos financeiros.

Essa é, talvez, a principal diferença: no Crashopolis, a vitória depende menos da simples acumulação e mais da capacidade de adaptação, leitura estratégica e gestão do risco. 

O jogo foi desenvolvido com o apoio do FabLab de Torres Novas. Quão importante foi este espaço para o seu desenvolvimento e criação física?

O apoio do FabLab de Torres Novas foi muito importante, não apenas pela componente técnica, mas também pela possibilidade de transformar uma ideia num objecto real. Um projecto como o Crashopolis não vive só do conceito; precisa de passar pela experimentação, pelo protótipo, pelos ajustes físicos e pelo teste de soluções concretas. Nesse aspecto, o FabLab teve um papel relevante.

No caso do Crashopolis, esse apoio foi fundamental porque ajudou a aproximar o projecto da sua versão final, permitindo trabalhar não apenas a dimensão conceptual e pedagógica, mas também a componente prática e física do jogo. 

Como tem sido a recepção do jogo em ambientes educativos e qual o feedback mais surpreendente que recebeu de pessoas que o jogaram?

A recepção tem sido globalmente muito positiva, sobretudo pela vertente pedagógica do projecto. Em ambientes educativos, o Crashopolis tende a ser bem recebido porque apresenta a literacia financeira de uma forma diferente da abordagem tradicional: mais prática, mais participativa e mais próxima da realidade. Essa dimensão tem despertado interesse, porque mostra que é possível aprender conceitos exigentes através de uma experiência envolvente.

De uma forma geral, aquilo que mais se destaca no feedback é precisamente a surpresa pela capacidade do jogo em combinar aprendizagem com dinâmica de jogo. Muitas pessoas partem para a experiência com alguma expectativa de complexidade excessiva, por se tratar de temas ligados aos mercados financeiros, e acabam por descobrir um formato acessível, progressivo e estimulante. 

Existem planos para uma versão digital ou expansões que abordem novos temas?

O Crashopolis já nasce, de certa forma, com uma vocação híbrida. Existe uma componente física, através do tabuleiro, mas também uma dimensão de simulação que permite utilizar o jogo não apenas para jogar, mas também em apresentações e contextos de demonstração pedagógica.

Nessa perspectiva, faz todo o sentido admitir, mais à frente, quer desenvolvimentos digitais, quer possíveis expansões que abordem novos temas, novas dinâmicas de mercado ou novos contextos de literacia financeira. 

 

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