A Escola Superior de Desporto de Rio Maior assinala hoje, dia 05 de Dezembro, os seus 25 anos.

Uma data marcante que o director da Escola, Luís Cid, quer assinalar realçando aquilo que realmente importa: “as pessoas”.

Nesta entrevista ao Correio do Ribatejo, o responsável dá a conhecer a mais jovem escola do IPSantarém, os projectos em que está envolvida e perspectiva o futuro.

Como analisa os resultados do concurso nacional de acesso deste ano? São resultados que o deixam satisfeito?

Pessoalmente, são resultados que me deixam muito satisfeito. Não só pelos excelentes resultados obtidos, mas também pela evidência clara de consolidação da procura, que se verifica há alguns anos a esta parte.

Nas nossas cinco Licenciaturas, tivemos 100% de colocações (na realidade são 102%, pois colocámos mais estudantes do que as vagas por causa dos empates), com classificações médias de entrada a rondar os 13 valores, mais concretamente entre os 12,5 e os 13,8.

Só na 1ª Fase do Concurso nacional de Acesso, que é aquela que normalmente serve de barómetro, tivemos 990 candidatos, para 266 vagas. Estes números notáveis de procura, em média, representam quatro vezes mais do que a oferta (que oscila entre 2,7 e 5,9 entre os diversos cursos).

Tudo somado, entre o nosso Curso TeSP (que este ano abriu pela primeira vez uma turma na Ericeira, fruto de um Consórcio estabelecido entre o IPSantarém-ESDRM, o Município de Mafra e o Ericeira Surf Clube), as nossas cinco Licenciaturas e os nossos dois Mestrados (incluindo também os estudantes dos concursos especiais locais), foram mais de 400 estudantes que passaram a pertencer à família ESDRM, a “sentir” o que é o #SOUDESPORTO, e a “viver” a Cidade de Rio Maior, juntando-se assim a todos os outros. No ano lectivo de 2019/2020 passámos pela primeira vez a barreira dos 1000 estudantes, mas no presente ano lectivo já temos esse número consolidado perto dos 1100 estudantes.

Quais os principais desafios que a Escola enfrenta?

Na minha opinião, a nossa Escola tem vários desafios pela frente. Uns no imediato e outros a médio prazo. Para além da Residência de Estudantes e das alterações estatutárias (quer ao nível de Escola, quer ao nível do Politécnico) que estão a ser implementadas, gostaria de destacar apenas três: Outorgar o grau de Doutor. A ESDRM tem esta ambição pois consegue cumprir os requisitos definidos no Regime Jurídico dos graus e diplomas do ensino superior (Decreto- Lei n.º 65/2018, de 19 de Agosto), pois cerca de 75% dos nossos docentes de carreira são doutorados, com uma produção científica assinalável, que na sua grande maioria estão afiliados em centros de investigação da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), incluindo na área das Ciências do Desporto, com a classificação de “Muito Bom”. Por isso, é legitima esta aspiração, embora estejamos dependentes da alteração da Lei de Bases do Sistema Educativo e do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior, iniciativa que está no parlamento para discussão, através do projecto de Valorização do ensino politécnico nacional e internacionalmente, que pretende retirar a limitação legal que impede os politécnicos de outorgar o grau de doutor.

Assim haja coragem política para o fazer; Outro dos desafios é a expansão da nossa oferta formativa – em especial a pós-graduada, complementar à já existente, desenvolvendo cursos em áreas emergentes, nomeadamente, na área das novas tecnologias aplicadas ao desporto e ao exercício físico, concretizando “namoros” antigos com a Escola de Gestão e Tecnologia de Santarém e outros parceiros públicos e privados; também na área do desporto e actividade física para pessoas com deficiência, aproveitando as excelentes relações que temos com os nosso parceiros institucionais nesta área (e.g., Comité Paralímpico de Portugal, Instituto Nacional de Reabilitação, Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência, Associação Nacional de Desporto

para Pessoas com Deficiência Visual, e outras); assim como na área dos desportos náuticos, em especial na área do surfing, potenciando as ligações ao desporto de natureza e ao turismo activo, fazendo uso da nossa localização geográfica privilegiada junto ao mar, fortalecendo as ligações com os nossos parceiros de Peniche, Ericeira e Nazaré; e por último na área da gestão do desporto, cuja proposta de Mestrado (2º Ciclo) foi recentemente submetida à Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES);

Por fim, destaco a falta de corpo docente próprio (professores de carreira) – sendo este um dos nossos maiores desafios e que se divide em dois aspectos: a necessidade de aumentar o corpo docente próprio; e as progressões na carreira. Apesar de estarem em curso concursos públicos para a categoria de professores adjuntos, que vêm colmatar necessidades imediatas, o crescimento do número de alunos, não tem sido acompanhado pelo crescimento do número de docentes.

Apesar de todas as nossas necessidades de contratação (professores convidados) estarem satisfeitas, somos uma das Escolas que tem dos maiores rácios de estudantes por docente de carreira (29.6), pelo que temos uma tremenda exposição ao risco pela necessidade elevada de contratação externa (cerca de 22 ETIs). Ora esta situação, cria enormes dificuldades de preparação dos anos lectivos e de sustentação de todas as tarefas que temos de fazer para dar respostas aos desafios internos e externos. Pois por muito que se envolvam os docentes convidados, contratados a tempo parcial, não são a solução, pois como é compreensível tem outras actividades profissionais a dar resposta e não se podem dedicar mais à Escola do que aquilo que fazem. Por outro lado, relativamente às questões de progressão na carreira, não estamos a aproveitar bem as oportunidades que se tem apresentado recentemente. Nos últimos três anos, o Governo permitiu a realização de concursos internos de progressão para docentes, mas até à data apenas tivemos a abertura de um concurso. Poderão dizer que a ESDRM já tem 10 professores coordenadores e 1 coordenador principal, mas também não nos podemos esquecer que tem 29 professores doutorados e 7 professores com título de especialista, bem como, que a percentagem de professores coordenadores face ao número total de docentes de carreira (25%), ainda está muito aquém da percentagem estipulada na Lei (50%). Também sabemos que a condição financeira do Politécnico não é a melhor, mas estes concursos são uma excelente oportunidade para colmatar estas fragilidades, cujo impacto financeiro é pouco significativo.

Quais as grandes forças da escola superior de desporto?

A oferta formativa especializada em diversas áreas do desporto e da actividade física, o corpo docente altamente qualificado e especializado, e o contexto onde estamos inseridos.

Temos uma oferta formativa únicas no contexto do Ensino Superior, que abrangem diversas áreas: Actividade Física e Estilos de Vida Saudáveis; Desporto, Condição Física e Saúde; Desporto de Natureza e Turismo Activo; Gestão das Organizações Desportivas; Treino Desportivo. Temos ainda um Curso Técnico Superior Profissional em Surfing no Treino e na Animação Turística, bem como, Mestrados em Actividade Física e Saúde, e em Treino Desportivo.

O nosso corpo docente, composto por 37 docentes de carreira (em exercício), altamente especializado e qualificado, 29 dos quais são doutorados e 7 com o título de especialista, ou seja, 97% dos nossos docentes de carreira são doutorados ou especialistas (apenas 1 não o é doutorado ou especialista).

Sendo ainda relevante, que 73% dos docentes são membros integrados em Centro de Investigação da FCT com a classificação de “Bom” ou “Muito Bom”.

Grande parte do sucesso da ESDRM deve-se não só aos seus parceiros institucionais, que muito têm contribuído para o desenvolvimento e a afirmação do nosso projecto educativo, mas também ao contexto onde está inserida, no qual reside um dos maiores clusters do Desporto a nível Nacional, com condições únicas, e que tem um enorme potencial estratégico, não só pelas características da própria Cidade de Rio Maior e da sua localização geográfica, mas sobretudo por concentrar um conjunto de instalações desportivas, que fazem da Cidade de Rio Maior a verdadeira Cidade do Desporto, e que se reflecte também no nosso slogan: O Ensino do Desporto, numa Cidade do Desporto.

Como é que a Escola se posiciona ao nível da internacionalização e captação de alunos internacionais?

Temos feito o nosso percurso nesse sentido, mas ainda existe um caminho a percorrer.

Nos últimos anos consolidámos a turma Erasmus que nos permite ter uma oferta formativa (30 ECTS) especifica só para estudantes Erasmus, quer no 1º Semestre (Winter Semester), quer no 2º Semestre (Spring Semester).

Em média temos cerca de 30 alunos ERASMUS todos os anos. Mas temos de tomar outras medidas para podermos ter mais estudantes internacionais, efectivos, fora da europa, em especial dos países do PALOP.

Esta estratégia deve ser alinhada com a estratégia do próprio Politécnico, que tem vindo a desenvolver protocolos com diversas instituições nesse sentido, especialmente do Brasil, incluindo na área do Desporto.

Por outro lado, a estratégia de internacionalização também deve passar pelo reforço das condições de apoio à investigação científica e participação em projectos de I&D com os nossos parceiros internacionais, em especial na captação de financiamento.

Recentemente foram garantidos 1,5 ME para a conclusão da residência de Estudantes por via do orçamento do Ministério da Ciência. O que significa para a Escola este projecto?

Significa a concretização de um sonho, pois hoje podemos afirmar, com toda a certeza, a Residência de Estudantes da ESDRM vai ser uma realidade a muito curto prazo.

Não havia melhor forma de celebrar os 25 Anos. Esta era a prenda que tanto desejámos – a aprovação de uma norma específica no OE2023, que transfere para o IPSantarém a verba de 1,5 milhões de euros para concluir a obra que já se encontra em construção e que permitirá ter uma capacidade de alojamento com 100 camas. Sem falar das possibilidades que se multiplicam para o nosso projecto educativo, que derivam do facto de termos esta infra-estrutura a funcionar.

Um dia havemos de escrever um livro sobre a história de Luta pela Residência Estudantes da ESDRM. Tem sido um processo demasiado longo, que já dura, de uma forma mais intensa e visível, desde 2015, com diversos avanços e recuos, que já fez correr muita tinta e foi motivo de muito debate público.

Mas neste momento prefiro focar a atenção naquilo que é mais importante: vamos ter uma residência de estudantes! Por isso, a ESDRM e os seus Estudantes, agradecem a todos os partidos que apoiaram esta iniciativa (apenas o IL se absteve), incluindo todos os deputados eleitos pelo distrito de Santarém, congratulando-se pela decisão tomada, que permitirá concluir a construção que se iniciou em Março do presente ano.

Apesar de ter sido uma luta intensa ao longo dos últimos anos e que teve o apoio de muitos, e mesmo correndo o risco de ser injusto, permitam-me que destaque aqueles que tiveram um papel decisivo, quer ao nível político – o ex-deputados António Filipe do PCP, Isaura Morais do PSD e Hugo Costa do PS; quer a nível interno – onde não poderia deixar de destacar os nossos alunos, que sempre estiveram presentes em todos os momentos em que foi preciso, destacando aqui a nossa Associação de Estudantes (actual e anteriores), através dos seus presidentes: Diana Silva, Francisco Cordeiro, Ricardo Abreu, João Rodrigues e Tiago Guilherme.

Gostaria ainda de realçar o envolvimento das estruturas administrativas da Escola e do Politécnico, em especial desde a anterior Direcção da ESDRM, da qual fiz parte com o Prof. João Moutão, que é actualmente o Presidente do Politécnico. A todos o nosso muito obrigado.

A autarquia também anunciou que o projecto de novas residências na cidade estará concluído em breve. Face à procura que a Escola tem registado, serão suficientes estas camas ou será necessário um outro investimento?

Todo o investimento público que se possa fazer em Rio Maior nesta área em concreto é pouco, seja por via do Orçamento de Estado, seja por via do Plano de Recuperação e Resiliência.

A ESDRM tem cerca de 1100 alunos, dos quais cerca de 80% são deslocados, e cerca de duas centenas são estudantes bolseiros com carências económicas. Estas infra-estruturas estão na primeira linha de apoio a esses estudantes, para evitar que abandonem os seus estudos e cumpram o seu sonho de estudar em Rio Maior.

Por essa razão, não posso deixar de felicitar, uma vez mais, a CMRM, nomeadamente o seu Presidente, Filipe Santana Dias, e toda a equipa do Município, que tornou possível que Rio Maior venha a ter mais uma residência de estudantes, com o financiamento conseguido através do PRR, para o projecto de requalificação dos edifícios da CMRM, que permitirá uma segunda residência de estudantes, no centro histórico da cidade, com a capacidade para mais 62 camas. Por isso, se tudo correr bem, e tenho a certeza de que assim será, em breve teremos 2 residências ao serviço dos nossos estudantes, numa capacidade total de 162 camas (incluindo as da residência da ESDRM), que tanta, mas tanta falta fazem.

Como perspectiva o futuro da Escola?

É uma pergunta de difícil resposta. Por exemplo, se me fizessem a mesma pergunta há quatro anos atrás, quando iniciámos o mandato, verificaríamos hoje que a minha resposta, não teria nada a ver com a realidade que se apresentou nos últimos quatro anos.

Olhar para o futuro nos dias que correm é um exercício difícil com um grau de complexidade elevado. Estamos a sair de um período pandémico que durou cerca de 2 anos, ao qual juntamos agora um conflito armado na Europa, com um desfecho imprevisível, não só do ponto de vista socioeconómico ou energético, provocando uma aceleração da especulação e inflação do custo de vida, mas sobretudo do ponto de vista humanitário, provocando um agravamento das condições de vida e acentuando assimetrias sociais, que irão atingir os mais desfavorecidos. Por isso, projectar o futuro nos dias de hoje só pode ter um foco: a protecção das pessoas, pois ninguém pode ficar para trás.

O futuro é incerto, cheio de desafios, internos e externos, mas é preciso manter a esperança e a confiança na nossa capacidade de trabalho e de resposta perante a adversidade.

Nós somos aquilo que somos por isso mesmo. A ESDRM tem uma história de sucesso baseada na luta permanente, de todas as pessoas que fazem parte desta Escola, para ultrapassar barreiras e vencer os desafios.

Estamos a completar as nossas “bodas de prata” e a ESDRM é uma referência a nível Nacional, da qual todos nós, nos podemos e devemos orgulhar!

Que balanço faz deste seu tempo na direcção da ESDRM?

No momento e local próprio iremos prestar contas daquilo que foi o nosso mandato, mas de uma forma sucinta posso resumir os 4 anos de mandato em quatro palavras sequenciais – uma por cada ano: esperança (pela expectativa de mudança), crise (pela grave situação financeira e administrativa interna), resiliência (pela situação pandémica que vivemos), apreensão (pela incerteza no futuro).

Apesar de ter sido um mandato singular, que decorreu sob circunstâncias ímpares na vida institucional e da própria humanidade, fazemos um balanço positivo e temos o forte sentimento de dever cumprido, pois conseguimos manter a ESDRM uma trajectória de crescimento, não só pelo aumento do número de estudantes (e de candidatos), mas também pela consolidação (e expansão) da oferta formativa, bem como, do envolvimento em redes e projecto de I&D, que nos permite afirmar no panorama nacional como a maior Escola de Desporto do Ensino Superior.

Por outro lado, apensar de ainda não estar concluída, ver a construção da Residência de Estudantes a crescer é uma das nossas maiores alegrias!

Por isso, mais do que falar daquilo que fizemos (ou não conseguimos fazer), prefiro agradecer a todos aqueles que contribuíram para o crescimento da nossa Escola. Foi para mim um privilégio e uma das maiores honras da minha vida, poder servir a ESDRM (e o Politécnico) nestes últimos anos, na qualidade de Director, a qual irei continuar a servir, com a mesma vontade e energia, enquanto docente e investigador.

Que mensagem quer deixar à Comunidade Académica nesta altura de mais um aniversário da Escola?

Sendo um ano especial, em que celebramos 25 Anos de História, gostaria de responder a esta questão realçando aquilo que realmente importa: as pessoas!

Pois são as pessoas que fizeram e fazem a nossa Escola, tal como ela é, desde o dia em que foi criada em 5 de Dezembro de 1997. Se os desafios da altura foram muitos, na actualidade em que vivemos, os desafios são mais do que muitos, pois os tempos são difíceis e estão a exigir o melhor de nós. Têm sido tempos muito complexos, que provocam muito desgaste, físico e mental, pelo tempo e energia que nos consomem e que temos de dedicar para resolver problemas e ultrapassar de forma criativa as adversidades, mas não nos podemos esquecer as relações humanas e aquilo que nos tem mantido unidos.

Sabendo o esforço, o empenho e a dedicação de todos, em torno da causa maior que é a Instituição, em que cada um de nós dá o melhor de si, por si próprio e pelos outros, gostaria de agradecer, do fundo do coração, a toda a comunidade académica, docentes, não docentes e estudantes, não só pela demonstração extraordinária de resiliência, mas sobretudo por responderem prontamente à chamada quando é preciso, numa clara demonstração daquilo que ser desporto (#SOUDESPORTO).

Por isso, no dia de 5 de Dezembro de 2022 é dia de celebrar o nosso XXV Aniversário com Harmonia e Fraternidade! Parabéns à ESDRM, parabéns ao Politécnico de Santarém, parabéns a Rio Maior!

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