O discurso de Ano Novo do Presidente da República, já com o tom crepuscular de quem se despede, deixou-me uma sensação curiosa: a de estar a ouvir menos um programa para o futuro e mais um espelho antigo colocado diante de nós. Marcelo Rebelo de Sousa falou com esperança, como sempre, mas convocando uma sucessão de traços nacionais tão abundantes quanto contraditórios, como se Portugal fosse um retrato a várias tintas, impossível de reduzir a uma só cor.
E foi inevitável lembrar Eça de Queiroz. Não apenas o Eça citado, mas o Eça cúmplice e irónico que parece sussurrar: “não tentem corrigir o humano – observem-no”. A bondade imensa e a trapalhada constante, a generosidade e o exagero, a honra quase pueril e a imaginação que roça a mentira – não é apenas um retrato português. É um retrato humano.
Desde sempre houve quem sonhasse com o “Homem novo”: puro, racional, regenerado. A Revolução Francesa prometeu-o, o comunismo perseguiu-o, e ambos tropeçaram na mesma evidência: o ser humano não se deixa refazer como uma máquina. Cada tentativa de apagar o “Homem velho” acabou por gerar algo pior – um homem amputado em nome da perfeição.
O “Homem velho”, esse, é complexo. Carrega inveja e generosidade, medo e esperança, mesquinhez e heroísmo súbito. Por isso reconhecemo-nos em textos com dois mil anos: mudam os cenários, não muda a substância.
A “antiguidade de raça” de que falava Eça não é biológica, é moral: a persistência do humano, com os seus vícios reincidentes e virtudes teimosas.
Talvez por isso as recentes eleições presidenciais soem como prolongamento desse discurso. A vitória de António José Seguro na primeira volta, com cerca de inesperados 31%, e a passagem de André Ventura à segunda volta não desenham um país coerente, mas um país inteiro – feito de moderação e protesto, de confiança nas instituições e impaciência com elas.
Não somos um projeto por acabar, nem uma utopia à espera de engenheiros sociais. Somos isto: um povo de contrastes, entusiasmos breves e perseveranças longas, de melancolia e esperança em milagres.
Talvez tenha sido isso que o Presidente quis dizer. Que não precisamos de um “Homem novo”, apenas de sermos a melhor versão possível do “Homem velho” que sempre fomos: multifacetados, contraditórios, imperfeitos. Portugueses, sim – mas antes disso, humanos.
E talvez seja essa, no fundo, a nossa forma mais honesta de estar na História: avançar sem ilusões de pureza, tropeçando muitas vezes, escolhendo mal algumas outras, mas continuando a escolher. Entre a prudência e o sobressalto, entre o medo e a esperança, vamos escrevendo um país possível, nunca perfeito, mas reconhecível. Um país feito por homens velhos, com almas cansadas e vontades novas, que ainda acreditam – apesar de tudo – que vale a pena continuar a tentar.
