Foto ilustrativa
Foto ilustrativa

Muito se fala, por estes dias, da violação do segredo de justiça. Fala-se com indignação solene, ar grave e dedo em riste. A propósito das escutas que vieram a público, com honras de manchete, onde surge, lateralmente, o então Primeiro-Ministro António Costa, todos exigem culpados, cabeças e responsabilidades. Diz-se, em uníssono, que isto é inadmissível num Estado de Direito. E todos, rigorosamente todos, têm opinião – do comentador residente ao candidato a Belém.

Debatem-se minúcias técnicas, subtilezas jurídicas, a admissibilidade das escutas, a sua pertinência, a sua permanência no processo. Tudo muito sério, muito douto. As escutas, recorde-se, estão na lei, exigem despacho judicial, obedecem a regras apertadas de proporcionalidade. No papel, tudo perfeito. Aqui chegados, impõe-se a pergunta singela: como é que isto sai cá para fora?

A resposta é simples e desconfortável: sai porque passa por demasiadas mãos. E por demasiadas vidas.

Começa nos técnicos que operacionalizam as escutas – competentes, credenciados, com passwords robustas e acessos hierarquizados. Passa pelos funcionários judiciais, com perfis de utilizador, firewalls vigilantes e termos de confidencialidade. Circula pelos magistrados do Ministério Público, pelos juízes, peritos e assessores. Tudo muito seguro, dir-se-ia. Em teoria.

E chega, inevitavelmente, aos advogados dos arguidos, aos seus escritórios, computadores, pen drives, pastas partilhadas e nuvens digitais onde tudo fica guardado… e potencialmente reproduzido. Com intenção ou por mero descuido, também por aqui o segredo pode escorregar.

Depois, o segredo emancipa-se do edifício da justiça e entra na esfera doméstica: o portátil em casa, o processo aberto na mesa da sala, o ficheiro ao lado do jantar. Surgem os filhos curiosos, os cônjuges atentos, os familiares orgulhosos de saber “uma coisa que ainda não deu nas notícias”.

Some-se o técnico de informática chamado a horas impróprias. Junte-se o hacker, esse artista moderno da intrusão. E, por fim, acrescente-se o ingrediente decisivo: a irresistível curiosidade portuguesa, esse impulso quase constitucional de querer saber tudo primeiro – e guardar segredos apenas até ao primeiro café.

Assim se constrói a ruína do segredo de justiça: com cuidados técnicos exemplares e fragilidades humanas ainda mais exemplares. Não por conspiração, mas por pequenas vaidades e tentações quotidianas. O problema não é só jurídico. É humano.

Por isso, quando voltarmos a proclamar, com pose solene, que o segredo de justiça é sagrado, talvez valha a pena lembrar que ele atravessa corredores, sistemas blindados, casas, escritórios, telemóveis e consciências. E que, nesse percurso, raramente resiste à velha tentação nacional: saber primeiro, contar depois, indignar-se no fim.

Leia também...

Exploração dos Sentidos de Pertença…Por Pedro Carvalho

No conflito em curso no leste da Ucrânia, desde a anexação da Crimeia em 2014, o presidente russo Vladimir Putin tem habilmente manipulado o…

Antropocentrismo…Por Pedro Carvalho

A propósito do terramoto ocorrido em Marrocos, o Presidente do Brasil afirmou que o fenómeno “não tem muita explicação a não ser a mudança…

Ser patriota…Por Pedro Carvalho

O patriotismo não é apenas o hasteamento de bandeiras ou os hinos vibrantes em eventos oficiais, consistindo sobretudo num vínculo profundo que se forma…

Clubismos… por Pedro Carvalho

Não me lembro de torcer com mais fervor por um clube, como pelo Futebol Clube do Porto na final da Taça dos Clubes Campeões…