Foto ilustrativa

O pároco de Abrantes acusado de burla disse hoje, em tribunal, que desconhecia a falsificação de inscrições de utentes para obtenção de apoios do Estado, mas o técnico que responsabilizou por esses actos reafirmou ter recebido ordens expressas suas.

O padre, que preside ao Centro Social Interparoquial de Abrantes (CSIA), e o antigo técnico, que foi coordenador do Projecto Homem, para tratamento e reinserção de toxicodependentes, começaram hoje a ser julgados no Tribunal Judicial de Santarém pela prática, em coautoria, de um crime de burla tributária, de um crime de burla qualificada e de um crime de falsificação, todos na forma continuada.

No depoimento inicial, o pároco declarou não se “rever” no processo, elencando as inúmeras actividades que desenvolve e a impossibilidade de tudo controlar não só no CSIA – instituição que, além do Projecto Homem, tem várias outras valências de apoio a idosos e a crianças -, como também nas duas paróquias em que presta serviço, pelo que fez da “confiança” a “base” da sua vida.

Contudo, o antigo técnico da instituição, que, depois da sua demissão, em Julho de 2012, denunciou as alegadas inscrições fraudulentas de utentes para que o CSIA recebesse sempre os “apoios máximos” do Estado, confessou ter praticado os actos que constam da acusação do Ministério Público, mas assegurou tê-lo feito obedecendo a ordens do presidente do CSIA e director técnico do projecto, que queria “a casa cheia”.

No seu depoimento inicial, o antigo técnico afirmou que o padre “controlava tudo, tinha interferência em tudo” e que o Projecto Homem, que, no início, “entusiasmou” todos, acabou por se “tornar numa máquina de fazer dinheiro”.

O presidente do CSIA assegurou que se “limitava a assinar” as listagens que lhe eram apresentadas, não tendo forma de confirmar se os utentes que nelas constavam estavam ou não na instituição.

Acrescentou que, apesar de a instituição ter devolvido a verba reclamada pelo Ministério da Solidariedade e Segurança Social (perto de 150 mil euros), ainda hoje “não acredita” que o caso tivesse “a dimensão” que lhe foi atribuída, lamentando que não lhe tenham sido facultados os dados concretos para fazer a sua verificação.

O antigo técnico declarou estar arrependido, tanto por ter participado na falsificação como por não ter feito a denúncia mais cedo, justificando a sua actuação com a preocupação de assegurar o seu posto de trabalho e os dos outros membros da equipa.

Segundo disse, não ganhou nada com esse procedimento, tendo sim “a vida destruída”.

Este arguido confirmou ter inscrito nas listas a enviar para o Ministério da Saúde, relativas ao Centro Terapêutico, pessoas que estavam presas, que já tinham abandonado o projecto, que eram alcoólicas, sofriam de doenças do foro mental ou eram simplesmente sem-abrigo e foram registadas como toxicodependentes.

Quanto aos processos relativos aos três apartamentos de reinserção, comparticipados pelo Ministério da Solidariedade e Segurança Social, afirmou terem sido elaborados pela secretária do pároco, com o conhecimento deste.

O seu advogado afirmou que “faltam arguidos neste processo”, já que o antigo técnico não terá sido o único a elaborar as listagens de utentes.

Uma das intervenções deste mandatário levou a juíza a interromper a audiência “para acalmar os ânimos”, pedindo “serenidade” e “respeito” pelo Tribunal.

A próxima audiência está marcada para o próximo dia 30.

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