A Associação Cultural Vale de Santarém – Identidade e Memória divulgou recentemente o seu plano de actividades públicas para 2026, que engloba diversas áreas culturais, desde a literatura ao teatro. Em entrevista ao ‘Correio do Ribatejo’, Manuel Sá, presidente da associação, revela as novidades do programa e transmite a paixão que tem pela vila. 

 

A Associação celebra este ano os 180 anos da obra ‘Viagens na Minha Terra’. Qual é a importância da passagem de Almeida Garrett pelo Vale de Santarém para a história da literatura nacional?

Almeida Garrett visitou algumas vezes o seu amigo Rebelo da Silva, na quinta deste, a Quinta do Desembargador, ou da Joaninha. Não só Garrett, mas também Alexandre Herculano e Bulhão Pato, entre outros, tinham na quinta o local ideal para as suas tertúlias e em cujo ambiente Garrett poderá ter-se inspirado para a parte do romance. O Vale de Santarém viu-se, enaltecido, de tal modo que enquanto o edifício da famosa quinta esteve de pé, muitos eram os portugueses e estrangeiros que vinham ao Vale e a procuravam, para verem e fotografarem o lugar.

 

Sente que o Vale de Santarém poderia ser um destino de turismo literário mais forte, à semelhança de outros locais ligados a grandes escritores portugueses?

Sim, temos vindo a encarar esse potencial. Além de Almeida Garrett e do seu amigo Rebelo da Silva, a Associação trouxe ao presente João António da Silva Nogueira, o poeta João d’Aldeia, natural do Vale de Santarém. Quisemos saber quem era o poeta, o que teria escrito, para além do que era conhecido.

Temos um caminho muito importante a percorrer neste âmbito, e posso acrescentar que, em 2026, outros dois nomes vamos juntar a este grupo de autores que são os poetas Manuel Andrade e Manuel de Freitas.

 

O plano de actividades para 2026 dá ênfase às artes cénicas, como o teatro infantil. Como é que se adapta o conceito de “memória” para crianças que estão agora a construir as suas primeiras recordações?

Estamos a preparar levar a formação teatral à Escola Básica do Vale, através do que chamamos “Clube do Teatro”, entendida como uma AEC – Actividade Extracurricular, que resulta da parceria com o Agrupamento Escola Alexandre Herculano e a EB do Vale, com a colaboração da Comissão de Pais.

Trata-se de uma actividade para explorar as potencialidades expressivas e comunicativas da criança, em situações de práticas dramáticas e permitir à criança a aquisição da linguagem elementar do teatro, em situações de criação e de fruição.

 

A peça sobre o maestro Wenceslau Pinto vai “viajar” até Oliveira do Hospital e Lisboa. Sente que a Associação está a começar a exportar a cultura da vila para fora da região?

Trata-se da terceira peça do nosso Grupo de Teatro, desde que iniciámos esta valência, em 2022, com “João d’Aldeia, o Poeta”. Seguiu-se a peça “Salgueiro Maia… Ele Ia de Santarém a Caminho de Lisboa”, no âmbito dos 50 anos do 25 d’Abril. Estas peças, com texto e encenação de José Ramos, foram apresentadas na nossa região, mas quanto à peça sobre o maestro Wenceslau Pinto justifica-se que, pela primeira vez, levemos o nosso trabalho a Nogueirinha, freguesia de Meruge, concelho de Oliveira do Hospital, porque foi aí que nasceu o maestro, em 1883. Porém, encaramos com agrado as possibilidades de levar o trabalho do Grupo de Teatro para lá da nossa região. Por exemplo, havendo convites ou em festivais de teatro.

 

O 2.º Dia do Associativismo volta ao Jardim Público da vila em Setembro. Que novidades são esperadas para esta nova edição?

Vamos ter, pela primeira vez, a evocação e homenagem a associativistas notáveis que a nossa história, neste âmbito, regista.

Outra novidade, é aquela em que pretendemos envolver as crianças da nossa Escola Básica e outras que queiram participar. Trata-se de pinturas murais, na manhã do dia 12 de Setembro, em que o tema é ‘O Associativismo’.

 

O ‘Ciclo das Tradições’ vai contar este ano com ‘O Dia da Espiga’ e ‘As Fogueiras dos Santos Populares’. A inserção destas duas actividades é uma forma de combater o esquecimento destes costumes junto dos mais novos?

Sem dúvida. Fazem parte da nossa história, enquanto comunidade. Pessoalmente, vivi estas tradições e outras quando era criança. Passavam de pais para filhos, dos mais velhos para os mais novos. No mínimo, queremos dar a conhecer, dar a viver, como aprendizagem do que houve. O porquê da tradição e como se praticava, e quando, no calendário anual.

 

O Manuel tem um amor profundo ao Vale de Santarém e que tem sido materializado desde a criação da Associação, em 2018. Como é que esse sentimento se traduz no trabalho diário de preservação da memória do Vale?

Entendo-o como uma missão. Os meus pais foram as pessoas que mais me ajudaram, quando criança, a conhecer e admirar o Vale de Santarém. Depois, foi a continuação dessa aprendizagem, por muitas vivências, inclusive o associativismo, dado que o meu pai foi muitas vezes membro dos órgãos sociais da Sociedade Recreativa Operária.

Depois de terminar a minha actividade profissional, fiz o que tinha prometido: regressar ao Vale, não para viver, mas para uma missão deste tipo. Em Setembro vou cumprir o último mandato, mas continuarei com muito para fazer, pelo meu Vale.

 

Para além da realização de eventos públicos, a associação continuará a realizar também trabalhos de pesquisa. Há algum tema histórico ou espólio de família no Vale que estejam particularmente empenhados em estudar este ano?

Sim. Ainda na fase de pró-Associação fizemos pesquisa sobre os homens do Vale de Santarém que estiveram na I Guerra Mundial, na Flandres. Essa pesquisa, em que já obtivemos elementos importantes, vai-nos dar informação, para conhecimento da nossa população e também para a homenagem que lhes devemos prestar. As fábricas e pequenos ofícios também estão nos nossos objectivos, em particular a Fábrica Avilima, cujo trabalho de pesquisa já foi iniciado e vai continuar este ano.

 

O Vale de Santarém ascendeu a vila em 1995, tendo passado 30 anos desde essa data honorífica. Como é que vê a evolução da localidade ao longo dos anos?

Houve melhorias em alguns domínios. O saneamento básico e a distribuição de água a toda a comunidade passaram a ser uma realidade. Outro benefício significativo foi a criação do jardim público, carecendo, no entanto, de regular manutenção. Identifico, porém, perdas de relevo: o Posto dos Correios, que, passou para a Junta, e a antiga Estação Zootécnica Nacional. No campo associativo, a maior perda foi a da extinção do Atlético Futebol Clube do Vale. Inquestionável é também a perda de unidades de pequenos negócios, sobretudo de lojas. O Vale não tem um pavilhão desportivo, biblioteca, auditório, núcleo museológico, lar, nem centro de dia comunitário. A nossa Associação continua sem instalações-sede. Há muito a melhorar.

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