A pintura acompanha Diogo Amaro desde a infância, embora durante muito tempo tenha procurado afastar-se de um caminho que os professores já lhe apontavam. Antigo forcado e profundamente ligado ao mundo rural e tauromáquico, encontrou na criação artística uma forma de expressão, resistência e reencontro consigo próprio. Na exposição «Olhares», patente até 28 de Agosto na Biblioteca Municipal Marquesa de Cadaval, em Almeirim, apresenta obras onde o figurativo e o abstracto se cruzam e deixam ao visitante a liberdade de sentir e interpretar.
A exposição “Olhares”, patente em Almeirim, cruza o abstracto e o figurativo. O que procura transmitir através destas obras e o que espera que cada visitante encontre nelas?
Todas as obras foram criadas num momento preciso, quando fazia sentido para mim criá-las, independentemente da técnica ou do estilo. Espero que as pessoas possam desfrutar delas e emocionar-se, tal como eu desfrutei e me emocionei enquanto as criava.
Diz que a sua inspiração nasce do mundo, do ser humano e da «imensidão desconhecida». Como é que uma ideia, uma emoção ou uma imagem se transforma numa tela?
É um processo muito espontâneo, mas também pragmático. Tenho de pintar todos os dias. Quando coloco uma ideia na tela, consigo ver apenas o resultado final: a emoção que procuro naquela obra. Dizem que saber quando terminar é uma das partes mais difíceis. Eu termino quando olho para a pintura e sinto uma satisfação que vem de dentro. É difícil explicar estes sentimentos.
A tauromaquia está muito presente no seu percurso pessoal e no seu trabalho artístico. De que forma a experiência como forcado influenciou a maneira como pinta o movimento, a tensão, a coragem e o medo?
A tauromaquia é a arte das artes. Tive o privilégio de ser forcado e de viver tudo aquilo que essa vida nos proporciona. Foi uma experiência fundamental. Por vezes, quando estou a retratar uma pega ou um forcado, todas essas memórias vêm à flor da pele e consigo sentir aquilo que aquele homem estaria a sentir naquele preciso momento. É um privilégio. Sinto-me abençoado por isso.
A pintura ganhou uma nova dimensão na sua vida durante um período em que teve de interromper outras actividades por motivos de saúde. A arte foi, nessa altura, uma forma de resistência, de descoberta ou de recomeço?
Foi tudo isso. Durante muito tempo, nunca quis acreditar na arte nem levá-la verdadeiramente a sério. Desde a escola básica que os professores de Educação Visual diziam que eu tinha um traço diferente e que deveria seguir artes, mas fui sempre fugindo desse caminho.
Ao mesmo tempo, sempre que estava pior ou me sentia mais triste, tinha necessidade de pintar e desenhar. Há pouco tempo, esteve no meu ateliê um responsável ligado ao património artístico, aos monumentos e aos museus portugueses. Antes de sair, disse-me: «Diogo, por favor, nunca deixe de pintar». Lembro-me dessas palavras todos os dias. Ainda hoje me pergunto como foi possível alguém dizer-me aquilo.
Entre a tradição ligada ao mundo rural e tauromáquico e uma linguagem artística contemporânea, onde se situa hoje Diogo Amaro e que caminho gostaria de seguir no futuro?
Esse caminho está nas mãos de Deus Nosso Senhor. Peço que me dê coragem e saúde e que nunca me falte inspiração para continuar a criar.
Um título para o livro da sua vida?
“Entre aventuras e agruras”.
Uma obra de arte que gostaria de ter criado?
Neste momento, não tenho nenhuma em concreto. Quando crio, o processo é espontâneo.
Uma viagem que ainda quer fazer?
Jerusalém.
Uma música que o acompanha?
Depende do estado de espírito e do que estou a pintar. Ouço sobretudo fado e flamenco. Quando pinto Amália Rodrigues, por exemplo, tenho de estar a ouvi-la.
O que mais aprecia nas pessoas?
Honestidade, sinceridade e lealdade.
O que mais o inspira no mundo rural?
A simplicidade e a naturalidade com que as coisas acontecem.
Se não fosse pintor, o que gostaria de ser?
Algo que me permitisse criar.
Como gostaria de ser recordado?
Como alguém que teve sempre uma alma livre e lutou para construir o seu próprio caminho.

