A Escola Superior de Saúde de Santarém assinala 53 anos num momento de viragem na sua história. Depois de mais de cinco décadas com a Enfermagem como eixo fundador e identitário, a instituição prepara a abertura da licenciatura em Fisioterapia no ano lectivo de 2026/2027, dando o primeiro passo para deixar de ser uma escola monodisciplinar e afirmar-se como uma escola de saúde em sentido mais amplo. O novo curso, desenvolvido em consórcio com os Politécnicos de Viseu e de Viana do Castelo, surge associado a um modelo pedagógico inovador: flexibilidade curricular, contacto com redes internacionais por via das universidades europeias que estas instituições de ensino superior integram, possibilidade de mobilidade entre algumas das unidades curriculares das três escolas e ligação às necessidades concretas dos territórios.

Mas a licenciatura em Fisioterapia é apenas uma das faces de um ciclo de transformação mais vasto. A ESSS está a atravessar uma fase marcada pelo alargamento das instalações com a criação de um Laboratório de Ensino e Inovação Experimental em Saúde, incrementando a sua capacidade de investigação multidisciplinar através do Polo RISE-Health IPSantarém. O alargamento da oferta formativa assinala-se também pela aposta em pós-graduações e cursos curtos de formação (microcredenciais) focalizados em temas específicos frequentemente para desenvolvimento de competências internas aos docentes e/ou a profissionais de saúde de instituições parceiras e outras. A ESSS integra também um consórcio que apresentou uma proposta de doutoramento em Saúde e Cuidado Integrado, enquadrado num contexto estratégico nacional e internacional valorizando a integração de cuidados de saúde como fundamental perante os atuais indicadores de saúde e epidemiológicos. Tudo isto acontece num contexto em que o ensino superior enfrenta desafios exigentes, da quebra demográfica às dificuldades de habitação estudantil, da sustentabilidade financeira à necessidade de reter docentes qualificados.

Em entrevista ao Correio do Ribatejo, a directora da Escola, Hélia Dias, fala de crescimento, de transição e de reconstrução da identidade institucional. Reconhece os constrangimentos de uma escola que cresceu mais depressa do que o espaço físico permitia, sublinhando a urgência da conclusão das obras e assume a ambição de consolidar uma instituição capaz de formar, investigar e prestar serviços à comunidade. Aos 53 anos, a ESSS está a abrir um novo ciclo sem perder a matriz que a tornou reconhecida e respeitada: uma escola de proximidade, centrada nas pessoas e comprometida com as necessidades de saúde da região.

A Escola Superior de Saúde de Santarém assinala este ano 53 anos num momento particularmente simbólico, marcado pela aprovação da licenciatura em Fisioterapia. Que significado tem este passo para a história da Escola e para o seu posicionamento no ensino superior em saúde?

A Escola Superior de Saúde de Santarém assinala 53 anos de história, de compromisso com a comunidade e de qualidade na formação, tendo tido, ao longo deste percurso, uma missão muito centrada na área da Enfermagem. A grande ambição era romper com a monodisciplinaridade e criar uma licenciatura noutra área das Ciências da Saúde. A Fisioterapia permite dar esse passo.

É uma licenciatura em consórcio com as Escolas Superiores de Saúde dos Institutos Politécnicos de Viseu e de Viana do Castelo, e que, desde a fase de concepção até ao momento actual, em que se prepara a sua abertura em Setembro, que traz inovação, novas metodologias de ensino-aprendizagem e uma ligação muito clara às necessidades do mercado de trabalho.

O curso sustenta-se em diagnósticos regionais das zonas de implantação das três escolas e nas grandes necessidades que existem na área da Fisioterapia. Fala-se de uma profissão ligada a todo o ciclo de vida, mas particularmente relevante no acompanhamento das doenças crónicas e do envelhecimento da população. Pretende-se contribuir para um envelhecimento mais activo, mais saudável e para uma nova visão dos cuidados de saúde.

Para a ESSS, esta licenciatura não é apenas mais uma oferta formativa. É um passo de crescimento e de transformação. Obriga a criar novas condições, a abrir procedimentos concursais para docentes da área da Fisioterapia e a fazer um investimento muito significativo em equipamentos e materiais na área da Fisioterapia.

Está-se muito expectante e com muita vontade de concretizar este novo ciclo. A nova licenciatura tem uma enorme relevância para a Escola, mas também para o Politécnico de Santarém e para o seu plano estratégico até 2030. É um passo fundamental para esse crescimento e para a afirmação de uma verdadeira escola de saúde.

A nova licenciatura em Fisioterapia nasce de uma parceria com os Politécnicos de Viseu e de Viana do Castelo. Que vantagens concretas traz este modelo em consórcio para os estudantes?

Numa perspetiva pessoal, traz muitas vantagens. Desde logo, porque esta licenciatura nasce de uma realidade comum: Santarém, Viseu e Viana do Castelo eram as três únicas escolas superiores de saúde do país que continuavam a ter apenas uma licenciatura, na área da Enfermagem. Até agora, todas as tentativas de criar uma nova licenciatura noutra área das Ciências da Saúde não tinham sido concretizadas.

Este consórcio fortaleceu-se, pois permitiu construir um projecto comum entre três instituições que estão geograficamente distantes, mas que têm relações de proximidade, trabalho conjunto e interesses complementares. A licenciatura abre todos os anos nas três escolas e resulta dessa vontade partilhada de crescer numa nova área científica.

Para os estudantes, este modelo traz uma grande mais-valia: permite contacto com professores de diferentes instituições, com áreas de especialização distintas e com recursos diferenciados. Além disso, beneficia das redes de universidades europeias em que cada instituição está integrada. No caso do Politécnico de Santarém, como se sabe, comos promotores de uma universidade europeia, e essa dimensão internacional acrescenta valor à licenciatura.

Há também especificidades regionais que podem enriquecer muito a formação. São contextos diferentes, mas complementares. E é isso que se quer trazer para esta nova licenciatura: uma formação que não fique fechada numa única escola, num único território ou numa única visão da Fisioterapia.

O modelo pedagógico anunciado para a licenciatura em Fisioterapia aposta na flexibilidade curricular, na mobilidade internacional e no contacto com o inglês em algumas unidades curriculares. Que tipo de profissional pretendem formar?

Pretende-se formar um profissional que seja, diria, disruptivo face ao modelo tradicional. Quando se fala de flexibilidade curricular, o estudante terá a possibilidade de frequentar unidades curriculares de opção dentro do leque do consórcio, o que significa que um estudante de Santarém poderá fazer uma unidade curricular em Viana do Castelo, ou o contrário.

Esta abertura é, desde logo, uma inovação, porque o estudante não fica fechado à escola onde está matriculado. O próprio modelo pedagógico prevê também que todos tenham uma experiência obrigatória de mobilidade internacional, seja ela presencial ou virtual. Hoje, os recursos digitais permitem um acesso mais alargado, como contacto com projectos internacionais e participação em sessões asseguradas por docentes das universidades europeias.

Há a intenção de que os estudantes contactem com realidades académicas e profissionais de outros países. A dimensão do inglês entra aqui também como uma ferramenta importante. Não será uma licenciatura em inglês, mas o modelo permite que algumas unidades curriculares possam ser leccionadas nessa língua, em função do perfil dos estudantes, e que haja um forte apelo à leitura e à escrita em inglês, nomeadamente através da disseminação do conhecimento. Não se quer uma formação fechada sobre si própria. 

Ao nível laboratorial, ao momento, está-se numa fase já muito avançada de aquisição de equipamentos e materiais. É também fundamental, que os estudantes tenham também contacto com outras realidades, integradas nas especificidades de cada unidade curricular.

Acresce ainda que as escolas do consórcio têm unidades de investigação na área das Ciências da Saúde, com projectos distintos entre si, muitos deles com uma forte componente internacional. Espera-se que os estudantes possam também contactar com esses projectos, porque a investigação deve estar integrada na formação desde cedo.

A Escola está a atravessar um processo de ampliação, com novos laboratórios de simulação clínica. Em que ponto está esse projecto e de que forma responde também à criação da nova licenciatura?

Está em curso a criação de um Laboratório de Ensino e Inovação Experimental em Saúde, uma obra há muito desejada pela Escola. Neste momento, a Escola está francamente subdimensionada, não apenas em relação ao número de estudantes, mas também face às necessidades laboratoriais que a oferta formativa exige.

Este laboratório vem no momento certo, porque responde ao crescimento que a Escola tem registado nos últimos anos, desde os cursos técnicos superiores profissionais às licenciaturas, mestrados e pós-graduações. 

O projecto foi pensado para, no futuro, poder vir a ser acreditado como centro de simulação. Para isso, além da obra física, teve já um desenho aprovado, elaborado por uma empresa especializada na concepção deste tipo de laboratórios. Estão previstos vários espaços dentro de uma grande área laboratorial, com inovação, realidade virtual, cenários imersivos e práticas simuladas em ambiente controlado.

Será, no futuro, um espaço altamente tecnológico e funcional, dedicado à aprendizagem prática e à simulação, não apenas na dimensão procedimental mas também na relacional. Contrariamente à expectativa inicial, a obra ainda não está concluída. Espera-se que possa terminar com a maior brevidade, porque o esforço que se tem feito para rentabilizar ao máximo o espaço actual já não permite soluções alternativas.

Continua-se a querer oferecer formação de qualidade, mas a conclusão desta obra é imperativa para a concretização plena deste compromisso. As obras são sempre processos morosos e, numa intervenção desta dimensão, trazem constrangimentos significativos à comunidade académica, até porque a Escola nunca deixou de funcionar. Ainda assim, este é um investimento essencial para consolidar o crescimento da ESSS e preparar a próxima etapa.

Para além da nova licenciatura, a Escola tem também outros projectos em desenvolvimento. Há novas áreas de formação em preparação?

Nesta lógica de acompanhar todo o ciclo evolutivo da oferta formativa que uma instituição pode desenvolver, submeteu-se este ano a proposta de criação de um doutoramento em Saúde e Cuidado Integrado, em consórcio com o Instituto Politécnico de Viseu (entidade proponente) e a Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa.

Trata-se de mais um passo importante na consolidação da oferta formativa, acompanhando todos os ciclos de estudos.

Este projecto responde também àquilo que se pretende dar como contributo para a região. Se a Escola tiver essa possibilidade, pode ajudar a fixar e a reter talento. Quando se fala de talento, não falamos apenas da enfermagem ou da fisioterapia, mas também da medicina, da farmácia, das tecnologias da saúde, dos técnicos de diagnóstico e terapêutica e de outras áreas das Ciências da Saúde ou áreas afins.

Neste momento, o objectivo não é necessariamente formar mais, porque atingiu-se o limite da capacidade de formação. O que se quer é contribuir para criar condições para que quem venha trabalhar para Santarém, seja no sector público ou no privado, possa encontrar aqui uma via profissional sólida e possibilidades de desenvolvimento académico e científico.

A Escola tem excelentes parcerias com entidades da região, públicas e privadas, a que se junta o facto de acolher em Santarém um Polo da maior unidade de investigação do país na área das ciências da saúde, o RISE-Health. Este facto, permite contribuir para a construção de um verdadeiro cluster da saúde, que integre formação, investigação e prática clínica com as entidades parceiras da região.

Numa área tão exigente como a saúde, a formação contínua dos profissionais é também uma necessidade permanente. Que resposta tem procurado dar a ESSS neste domínio?

Tem-se feito, ao longo deste ano, e continuar-se-á a fazer, um grande investimento em pós-graduações em áreas diversas, não dirigidas apenas a enfermeiros, mas a diferentes públicos da área da saúde.

Esta é uma dimensão muito importante da missão da Escola, porque os profissionais de saúde precisam de actualizar competências ao longo de toda a vida profissional. As transformações nos cuidados, a inovação tecnológica, os novos modelos de organização dos serviços e as próprias necessidades das populações exigem respostas formativas flexíveis, actualizadas e ajustadas aos contextos reais de trabalho.

Destaca-se a oferta de curtos de curta duração (microcredenciais) dirigida a públicos diversos. O número de formações realizadas durante o último ano foi muito considerável e mostra que existe procura por percursos mais curtos, especializados e orientados para necessidades concretas.

Esta aposta permite reforçar a ligação aos profissionais e às instituições de saúde, mas também afirmar a Escola como uma estrutura de formação ao longo da vida. A ESSS não é apenas uma escola que forma estudantes em ciclos formais de ensino, mas pretende-se de ser uma referência para os profissionais que já estão no terreno e que precisam de continuar a qualificar-se.

O ensino superior enfrenta hoje desafios transversais, desde a captação de estudantes à habitação e à sustentabilidade financeira das instituições. Como olha para estes desafios no contexto da Escola Superior de Saúde de Santarém?

Com alguma preocupação. Constata-se a nível nacional a entrada naquilo a que tem chamado do “inverno demográfico”, uma fase em que se registará a diminuição do número de estudantes candidatos ao ensino superior, como consequência da quebra da natalidade registada desde há cerca de 20 anos.

Isto obriga à captação de outros públicos, para além dos estudantes que terminam o ensino secundário e pretendem prosseguir estudos. Mas, para atrair mais estudantes, as regiões que os acolhem têm de ter condições, desde logo, habitação. O investimento que o Instituto tem vindo a fazer na requalificação das residências já existentes e na construção de uma nova residência nas instalações da antiga Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, é um bom sinal de que esta questão está a ser considerada.

Ainda assim, é preciso olhar para estes desafios com cautela. Não basta disponibilizar habitação. É necessário garantir boas instalações nas escolas, projectos formativos que motivem os estudantes e condições para que os docentes e não docentes possam construir percursos profissionais robustos.

São necessários professores academicamente qualificados e especializados. Nos últimos anos têm sido recrutados docentes que estão ainda a desenvolver esse percurso de qualificação, ao mesmo tempo que se aposentam professores altamente qualificados e especializados. Esta fase de transição tem de ser acompanhada com muito cuidado pela instituição, porque é necessário continuar a garantir os rácios exigidos para que os cursos possam funcionar, e esses critérios são cada vez mais exigentes.

Portanto, verifica-se uma fase de grande transição. Também o novo regime jurídico das instituições de ensino superior e o futuro modelo de financiamento obrigam a uma atenção muito particular. Reforça-se a necessidade de olhar para as pessoas — docentes e não docentes — para as suas condições de trabalho, progressão, motivação e permanência nas carreiras.

Ainda assim, o Instituto tem dado passos importantes para que este processo de transição seja sustentado e devidamente acompanhado.

Depois deste ciclo de transformação e crescimento, que Escola gostaria de deixar consolidada?

Este ciclo de gestão terminará sensivelmente dentro de um ano. E, sendo permitida a redundância, aquilo que mais se almeja será deixar uma escola de saúde com saúde.

Os últimos anos têm sido altamente desafiantes, o aumento da oferta formativa, a instalação de um Polo de investigação, o alargamento das instalações, o rejuvenescimento do corpo docente e não docente, e a introdução de novas metodologias e estratégias de ensino-aprendizagem. 

É claramente um processo grande de transição e de construção de uma nova identidade de Escola. Sempre que há alteração das pessoas, a identidade institucional reconstrói-se. E é isso que tem acontecido na ESSS: há uma identidade que se está a reconstruir, sem perder aquilo que se foi construindo ao longo destes 53 anos.

Esta reconstrução não pode ser dada como concluída, porque é evolutiva. Hoje, também no ensino superior, é evidente uma mobilidade docente que não era tão evidente há alguns anos. Um docente entra por concurso e, um ou dois anos depois, pode sair para outra escola. Quando está ainda numa fase de integração, sai e entra outra pessoa. Isso cria alguma instabilidade, mas é também reflexo do actual mercado de trabalho.

O que se quer é deixar uma Escola com um projecto sólido, que continue a ser uma referência e a ser reconhecido por todos. Uma Escola onde quem estuda, trabalha e vive se sinta integrado e se reveja no projecto institucional que tem vindo a ser desenvolvido e consolidado, sobretudo nos últimos anos.

Neste momento, o maior objectivo é a conclusão das obras. Essa é uma condição essencial para que se possa continuar a crescer e afirmar a ESSS como uma verdadeira escola de saúde, com futuro, com identidade e com capacidade de responder aos desafios da região e do país.

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