Restaurantes de Santarém prontos para abrir portas

O Governo autorizou a reabertura de cafés e restaurantes no dia 18 de Maio, com lotação de 50 por cento, adoptando regras de segurança sanitária e distanciamento social, no âmbito do plano de desconfinamento. Neste momento, o negócio alimenta-se do ‘take-away’ e das entregas ao domicílio, mas os empresários assumem que querem voltar a receber clientes nos seus restaurantes e prometem “determinação e garra” para não deixarem “cair” a restauração de Santarém.

A uma semana de os restaurantes abrirem novamente portas, a empresa municipal Viver Santarém promoveu, na segunda-feira, 11 de Maio, pelas 21h30, a conferência ‘Restauração, como existir e resistir?’.

A conferência, enquadrada no Programa de Celebrações dos 40 Anos do Festival Nacional de Gastronomia (FNG), colocou em diálogo diversas perspectivas sobre os problemas e desafios causados pela pandemia da Covid-19 no sector da restauração em Santarém.

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Logo no início deste debate, João Teixeira Leite, presidente do Conselho de Administração da Viver Santarém, fez questão de referir que, apesar das circunstâncias, o concelho pretende continuar a reforçar “a estratégia da afirmação da Capitalidade de Santarém em torno deste importante património, que é a Gastronomia”.

Segundo referiu, as várias iniciativas que estavam programadas no âmbito dos 40 Anos FNG, vão estender-se até 2021, desafiando os restaurantes a terem “um papel activo” nesta efeméride: “todos temos de estar juntos e empenhados para enfrentar os desafios”, apelou.

Para o debate foram convidados quatro oradores: os chefs Rodrigo Castelo e Rodrigo Torgal, o empresário Manuel Vargas e o causídico Ramiro Matos, que abordou algumas questões legais que agora são impostas aos restaurantes, neste “novo normal”.

Moderado pelo director do Jornal Correio do Ribatejo, João Paulo Narciso, neste encontro, realizado através da plataforma Zoom e difundida nas redes sociais, todos deixaram garantias que os espaços estão prontos a receber os clientes “com a máxima segurança”.

Neste momento, o negócio alimenta-se do ‘take-away’ e das entregas ao domicílio, mas os empresários assumem que querem voltar a receber clientes e prometem “determinação e garra” para não deixarem “cair” a restauração de Santarém.

“Espero os clientes de braços abertos e um sorriso no rosto”, afirmou Rodrigo Castelo, dono da Taberna Ó Balcão, mostrando-se convicto que esta crise poderá gerar “novas oportunidades”, uma ideia partilhada pelos outros conferencistas.

Momentos difíceis
Foi de “de coração apertado” e sem saber como iria ser o futuro, que Manuel Vargas, proprietário do restaurante ‘OH! Vargas’, na Portela das Padeiras, decidiu, logo a 14 de Março, encerrar as portas.

“E a um sábado, à hora de almoço. Tinha seis refeições servidas. Fui dar com uma funcionária a chorar na casa de banho…. E foi assim, de um momento para o outro: decidi fechar”, relatou o responsável, que colocou à frente de tudo a saúde dos seus funcionários, mandando-os para casa.

O mesmo passo foi dado por Rodrigo Castelo, da ‘Taberna Ó Balcão’: “foi uma decisão tomada em equipa e depois de ouvir outros restaurantes de Santarém”, disse, acrescentando: “era impensável continuar aberto. A questão financeira nem se colocou”, recordou.

Já Rodrigo Torgal, proprietário do restaurante “O Torgal”, na Ribeira de Santarém, fechou portas a 19 de Março (Dia do Pai) para as voltar a abrir na terça-feira seguinte em regime de ‘take-away’.

Conseguiu manter a casa a trabalhar e todos os postos de trabalho: “foi uma óptima decisão”, assume o empresário que, ao contrário dos seus dois outros colegas não precisou de recorrer ao mecanismo de lay-off.

Segundo afirmou, no próximo dia 18, não pensa voltar a abrir portas, mantendo-se a trabalhar em ‘take-away’ e realizando entregas ao domicílio: “prefiro não colocar ninguém em risco. Tenho um espaço pequeno e as exigências das autoridades de saúde são muitas e requerem um investimento grande, sem que existam apoios”, apontou.

Apoios insuficientes
Para voltarem a abrir portas na próxima segunda-feira, os restaurantes vão ter de cumprir uma série de normas: fazer reserva, usar máscara, evitar buffets e ementas que andem de mão em mão, garantir o distanciamento físico entre os clientes e desinfecções regulares são algumas das regras que devem ser mantidas para evitar a propagação do novo coronavírus.

“A pandemia afectou muitas empresas, mas as de restauração foram as mais afectadas”, considerou o advogado Ramiro Matos.

“Vivemos tempos ímpares. Uma legislação nova prevê sempre um período de adaptação. Neste caso, isso não vai acontecer. Os restaurantes vão ter que agir rápido”, disse.

Embora afirmando que muitas das medidas “fazem sentido”, o conhecido advogado de Santarém considera que os apoios aos quais os empresários podem recorrer “são escassos”.

“Têm de ser desenvolvidas linhas de apoio específicas para este sector, que é estratégico para o País”, defendeu Ramiro Matos, para quem o apoio do Governo se tem traduzido “apenas no lay-off” e no ‘convite’ ao endividamento, o que poderá levar à falência de inúmeras empresas do sector. “Não são linhas de crédito que resolvem o problema”, disse.

“O IVA na restauração deve baixar para a taxa mínima e não só até ao final deste ano”, sugeriu Ramiro Matos, dizendo que “a verdadeira ajuda pode e deve chegar agora” porque “daqui a seis meses pode ser tarde demais”.

Crise gera oportunidades e ondas solidárias
Durante o pico da crise pandémica, cerca de duas dezenas de restaurantes da cidade de Santarém juntaram-se para confeccionar gratuitamente as refeições diárias destinadas aos profissionais do Hospital Distrital de Santarém que trabalham na urgência reservada aos doentes com Covid-19.

O movimento solidário surgiu de forma espontânea, em que os restaurantes entraram numa escala rotativa em que, na data indicada, cada um confeciona as refeições destinadas a médicos, enfermeiros, auxiliares e outro pessoal de apoio.

A ideia partiu de João Correia, proprietário do “Dois Petiscos”, que criou um grupo no WhatsApp desafiando os restaurantes da cidade para este gesto solidário. A proposta rapidamente foi acolhida e, hoje, já participam neste grupo mais de 80 empresários da restauração: é nesta plataforma que partilham informação, trocam ideias e se ajudam mutuamente.

“É importante que se reforce a ideia de que um restaurante é um sítio seguro. Somos obrigados, desde sempre, a cumprir regras apertadas. E, por isso, para nós, vai ser fácil: teremos apenas que estar mais atentos e redobrar cuidados”, disse João Correia que se prepara para abrir, no próximo dia 21, um novo restaurante na cidade. Deixou uma mensagem de união a todos os empresários do sector da cidade e apelou a que o movimento que criou não esmoreça.

Rodrigo Torgal concorda e não quer que a dinâmica que se criou se perca: “temos todos que trabalhar para o mesmo, pôr as rivalidades de lado, procurar especializar cada casa”, afirmou.

É nesse sentido que os vários empresários querem tirar partido das suas especificidades: o restaurante ‘OH! Vargas’ quer rentabilizar ao máximo a sua esplanada exterior – com ampla capacidade – o restaurante ‘O Torgal’ quer reforçar o serviço de entregas e a ‘Taberna Ó Balcão’ pondera dois períodos específicos para reservas ao jantar, apostando nas novas tecnologias.

“Estou super motivado, apesar de alguns receios”, admite Rodrigo Castelo, referindo que o seu restaurante vai ter “uma disponibilidade maior para o cliente”.

“Agora posso estar mais focado na cozinha. O mundo estava muito acelerado e agora estamos a desacelerar”, disse, afirmando que “vai ser fácil ir a um restaurante”.

“As ementas vão estar à distância de um clique, no telemóvel do cliente, o pagamento pode ser feito por MBway e as reservas também terão essa facilidade”, desvendou o chef, que garante “a máxima segurança” para clientes e funcionários quando abrir portas.

“Vamos ter de nos reinventar, chamar mais clientes, inovar e, sobretudo, fazer melhor”, afirmou, por seu turno, Rodrigo Torgal.

Para Manuel Vargas – que tem a casa aberta há cerca de um ano – este vai ser um tempo de “corrigir algumas coisas”, repensar ementas e “trabalhar a fundo e de cabeça erguida”.

“O cliente é que vai ditar o rumo do negócio. A nossa parte, que é tornar os sítios seguros, vai ser feita. Agora, precisamos que as pessoas tenham confiança e venham visitar os nossos espaços”, concluiu.

Município pondera alargar isenção de taxas de esplanadas
O Município de Santarém já tem em vigor a medida de redução de taxas relativas à ocupação da via pública com esplanadas, mas pondera alargar o benefício.

Nesta altura, a Câmara Municipal concede um desconto de 100 por cento das taxas para espaços até 50 m2. No caso dos espaços com áreas superiores a 51 m2, o desconto é de 50 por cento.

“A autarquia quer estar sempre do lado das soluções”, afirmou a vice-presidente da edilidade, Inês Barroso, considerando que “esta é a hora de reinventar”.

Nesse sentido, a responsável não descartou a possibilidade de aumentar ou criar novas áreas exteriores que compensem a redução da lotação no interior, devido à covid-19.

Dirigindo-se aos empresários de restauração, Inês Barroso afirmou: “é com o vosso esforço que, cada vez mais, podemos afirmar Santarém como a Capital Nacional da Gastronomia e estamos do vosso lado”.

‘Desconfinar’ com medidas apertadas
Os restaurantes e os cafés quando reabrirem esta segunda-feira devem privilegiar o uso das esplanadas e o serviço ‘‘take-away’’ e devem incentivar o agendamento prévio, segundo orientação da Direcção-Geral da Saúde (DGS) na qual esta estabelece as várias medidas que os estabelecimentos de restauração e bebidas devem adoptar quando reabrirem no dia 18 de Maio.
Entre as medidas a adoptar, a autoridade de saúde destaca a redução da capacidade máxima do estabelecimento, por forma a assegurar o distanciamento físico recomendado de dois metros entre as pessoas, privilegiando a utilização de áreas exteriores, como as esplanadas (sempre que possível) e o serviço ‘take-away’.

Segundo a DGS, “a disposição das mesas e das cadeiras deve garantir uma distância de, pelo menos, dois metros entre as pessoas, mas os coabitantes podem sentar-se frente a frente ou lado a lado, a uma distância inferior”.
As empresas devem impedir que os clientes modifiquem a orientação das mesas e das cadeiras, permitindo que os colaboradores o façam, mas sempre garantindo a distância necessária.

A DGS recomenda também que, sempre que possível e aplicável, seja promovido e incentivado o agendamento prévio para reserva de lugares.
Por outro lado, estão desaconselhados os lugares de pé, tal como as operações do tipo ‘self-service’, como ‘buffets’.

A limpeza e desinfecção dos espaços deve respeitar as orientações anteriormente emitidas pela DGS, sendo que os proprietários devem desinfectar, pelo menos seis vezes por dia, todas as zonas de contacto frequente (maçanetas de portas, torneiras de lavatórios, mesas, bancadas, cadeiras, corrimãos).

O mesmo deve ser feito com “os equipamentos críticos (tais como terminais de pagamento automático e ementas individuais”, após cada utilização.
A orientação estabelece também a necessidade de higienização das mãos com solução à base de álcool ou com água e sabão à entrada e à saída do estabelecimento por parte dos clientes, que devem respeitar a distância entre pessoas de, pelo menos, dois metros e cumprir as medidas de etiqueta respiratória.

Os clientes devem também considerar a utilização de máscara, excepto durante o período de refeição, evitar tocar em superfícies e objectos desnecessários e dar preferência ao pagamento electrónico.
O documento estabelece também os procedimentos a adoptar pelos colaboradores dos estabelecimentos de restauração e bebidas, nomeadamente a utilização de máscara durante o período de trabalho com múltiplas pessoas.

A DGS lembra que “os estabelecimentos de restauração e bebidas, pelas suas características, podem ser locais de transmissão da infecção por SARS-CoV-2, quer por contacto directo e/ou indirecto”.

Por isso, defende, as medidas adicionais “devem ser tomadas para assegurar a minimização da transmissão da doença nestes contextos”.
Para esta segunda-feira, dia 18, na segunda fase do plano de “desconfinamento”, está prevista a reabertura das escolas para os 11.º e 12.º anos (com uso de máscara obrigatório), das 10h00 às 17h00, das creches (será mantido o apoio à família até 01 de Junho para “as famílias ganharem confiança”) e dos equipamentos sociais na área da deficiência.

Em relação às creches foi ainda anunciada pelo Governo a realização de testes de rastreio à covid-19 a cerca de 29 mil trabalhadores de mais de 2.000 estabelecimentos, num programa promovido pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, em parceria com o Ministério da Saúde e laboratórios de instituições científicas e académicas certificados pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge e em articulação com o Ministério da Ciência, Tecnologia e do Ensino Superior.

Em relação ao comércio, está agendada a reabertura de lojas com porta aberta para a rua até 400m2 (uso obrigatório de máscara, funcionamento a partir das 10h00 e lotação de cinco pessoas por 100m2).

Esta nova fase de combate à covid-19 prevê o confinamento obrigatório para pessoas doentes e em vigilância activa, o dever geral de recolhimento domiciliário e o uso obrigatório de máscaras ou viseiras em transportes públicos, serviços de atendimento ao público, escolas e estabelecimentos comerciais.

Filipe Mendes

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