De Portugal ter sido eliminado pela Espanha no Mundial de futebol, das ‘Fíf(i)as’ desta vida, dos influenciadores que pensam que ainda jogam à bola falarei para a semana, hoje quero apenas falar-vos de Cabo Verde e das lições que deu ao Mundo.
Aprendemos com eles ao vê-los deixar a sua marca num mundial de gente rica e mimada. Logo após o jogo, frente à poderosa Argentina, o presidente da FIFA reconheceu que sofreu pela “Selecção das Pampas” enquanto acompanhava o jogo e deixou “um abraço a todos na Argentina e felicidades! Porque o coração esta noite…”. Só depois de o dizer, percebeu o que havia dito, e então recuou e acrescentou que é neutro: “Embora nós, neutros… estávamos com os dois.”
Esta tirada infeliz mostra o que é o futebol nos nossos dias, tal como os troféus de ‘melhor em campo’ que raramente são entregues a quem verdadeiramente os mereceu, porque “outros valores se levantam” num território de tubarões brancos. Os brancos são os reis dos mares, mas os azuis são os que verdadeiramente fizeram história e chegaram longe quando falamos de superação, entrega, coragem, paixão, humildade, sacrifício e saber estar, armas que Cabo Verde levou a este Mundial e não estrelas milionárias.
Lutaram por cada bola como se fosse a última. Caíram de pé, com honra, dignidade e o respeito do mundo inteiro. Ao invés de muitos meninos mimados que se esquecem o que é envergar a camisola da selecção do seu país, os jogadores de Cabo Verde inspiram-nos a cada bola trocada.
Cabo Verde deu uma lição ao mundo. Como pode um país de 500 mil habitantes, na sua primeira passagem por Mundiais, sair sem uma derrota nos 90 minutos dos quatro jogos realizados?
Pequenos no mapa, mas enormes resistentes, repletos de garra, fé, união, autênticos irmãos que deixaram tudo em campo sem nunca perder a dignidade. No final do jogo com a Argentina, Vozinha percorreu o relvado a levantar do chão os seus companheiros de equipa, porque as lágrimas só podiam ser de alegria por tudo o que deram ao futebol nessa noite.
Cabo Verde fez história e deu-nos ensinamentos para a vida. Há derrotas que doem, mas que engrandecem a alma de um povo com a honra intacta que mostrou ao mundo que o autodenominado “desporto-rei” pode ser identidade, coragem, carácter.
Cabo Verde fez-nos vibrar e acreditar que há tubarões azuis que resistem e que se tornam gigantes nas memórias e no legado que deixam para além de um mundial que alguém há-de vencer. Sobreviveu, mesmo sendo um tubarão azul num mundo de tubarões brancos.
