O TRD, edifício classificado como Imóvel de Interesse Público (IIP), é uma obra prima da arquitetura modernista e da Arte Deco. Para além desse atributo, trata-se de uma sala com uma forte presença na memória dos escalabitanos.

A sua notável fachada com o jogo de átrios que se sobrepõem e que lhe estão adstritos, são absolutamente notáveis. Por tudo isto, defendo que deverá continuar a ter uma função ligada às artes de palco. Porém, isso não significa mantê-lo como sala de espetáculos. O que proponho para o edifício do TRD é um Centro de Artes de Palco, com espaço com três valências: Ensino Artístico, Criação Artística e Produção artística.

ESPAÇO DE ENSINO ARTÍSTICO ARTICULADO – Academia de Artes

Considerando com o cientista António Damásio, diretor do Instituto do Cérebro e da Criatividade da Universidade da Califórnia, que o teatro, a dança, a literatura, a poesia e outras artes criam emoções inesquecíveis e a sua aprendizagem é muito importante na criatividade, essencial no desenvolvimento de capacidades ligadas à inovação. 

No mundo atual, as aptidões cognitivas desenvolvem-se muito mais rapidamente do que as capacidades emocionais e estas últimas são essenciais para a formação de cidadãos. Não podemos ignorar que as crianças afetadas nos seus sistemas emocionais não vão conseguir apreender convenções sociais em adultos, pelo que a sociedade não deve subalternizar ao plano cognitivo o plano emocional. 

A importância do ensino artístico na formação dos cidadãos é reconhecida pela própria UNESCO que recomenda que este deve ser colocado ao mesmo nível de importância das ciências exatas como a matemática e os conhecimentos tecnológicos.

Assim, considero fundamental concretizar no edifício do Teatro Rosa Damasceno, um espaço de ensino artístico articulado, centrada nas artes da Dança e do Teatro. [O ensino articulado, é uma modalidade do sistema público em Portugal que permite aos alunos conjugar o ensino regular (5.º ao 9.º ano) com o ensino artístico especializado. Os estudantes frequentam a escola normal e uma academia ou conservatório em simultâneo, com um horário integrado e financiado pelo Estado.

Cumprindo este desiderato, dá-se também resposta a proposta apresentada pelo Círculo Cultural Scalabitano, instituição com mais de 70 anos de ensino da dança e mais de 50 de ensino de teatro.

ESPAÇO DE CRIAÇÃO (Residência) ARTÍSTICA 

As principais atividades a desenvolver nesta dimensão, serão (I) um programa de acolhimento de artistas em residência artística, com incidência nas chamadas artes performativas contemporâneas, (II) promoção do pensamento crítico, (III) apoio á criação artística emergente, (IV) programação especial para escolas, (V) desenvolvimento de projetos artísticos comunitários, além de outras atividades de formação e /ou investigação artística.

Neste contexto, poderão ocorrer ensaios, ensaios públicos, conversas, debates, antestreias, entre outros. 

De registar ainda, a importância que este espaço terá no desenvolvimento de projetos centrados na programação do Teatro Municipal, nas suas diferentes vertentes.

ESPAÇO DE APOIO À PRODUÇÂO ARTÍSTICA LOCAL CONSOLIDADA

Em Santarém existem três companhias profissionais de teatro. O centro Dramático Bernardo Santareno, que já foi companhia residente no Teatro Sá da Bandeira, situação que teve que ser interrompida, sendo na altura assumido pelo município uma solução de sede que depois ficou inviabilizada e as duas companhias de teatro de Rua / Circo: Mundo Incógnito (Human’Arte) e Marsuppianee.

A conjugação destas três dimensões irá potenciar o estabelecimento de um ambiente criativo de que todos poderão beneficiar: as crianças / jovens, os artistas em residência e as companhias de teatro da cidade. 

Para a concretização deste projeto, o programa deverá incluir em três pisos uma Black Box com uma bancada retrátil com cerca de 30/40 lugares (piso térreo), a construção de um conjunto de salas de trabalho, com base na dimensão indicativa de 120m2 e a instalação de 3 apartamentos, um em cada piso, com capacidade para acolher em quartos duplos, cerca de 10 artistas em cada um. A escadaria e o jogo de átrios pré-existente, farão a ligação entre estes espaços.

NOTA FINAL

Antes de qualquer intervenção, há que garantir a consolidação da barreira e a consolidação, reabilitação e acesso à “Albergaria de São Martinho”, monumento pré-cristão, classificado (IIP), localizado no topo da encosta e praticamente desconhecido da cidade. 

Para além disto, importa ter em atenção que:

  • O projeto cumpre uma função essencial e distintiva para a educação / formação das nossas crianças e jovens;
  • A adaptação estrutural a fazer no edifício será minimalista e o equipamento necessário (luz, som e audiovisual) também, pelo que o investimento no Centro de Artes será bastante contido e oportunamente o Município anunciou tê-lo garantido com fundos comunitários;
  • Os custos de funcionamento são bastante contidos, dado que a dimensão mais impactante (ensino artístico) é autossustentável;
  • Desta forma garante-se diariamente, uma presença significativa de pessoas no Centro Histórico e não apenas nos dias dos espetáculos;
  • A necessidade de acréscimo de estacionamento é bastante contida, cabendo na “capacidade de carga” da zona envolvente, não causando problema acrescido para os moradores;
  • Uma possível articulação com o edifício à sua direita (antigo Banco de Portugal), permitirá, com vantagem, acolher a Incubadora de Artes, atualmente na Escola do Salvador.
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