Vítor Serrão é um dos grandes desbravadores da História da Arte em Portugal, disciplina que começou a ganhar força no País a partir dos anos 1970. Devido ao seu esforço metódico e militante, a ele se deve muito, ou quase tudo, do que existe estudado e inventariado neste campo.

Filho de Joaquim Veríssimo Serrão, mentor da Academia Portuguesa de História, Vítor Serrão nasceu no meio de livros, e foi aí que foi notando que as suas páginas só apresentavam os grandes monumentos e obras. O património que via nas igrejas e museus era ignorado. Foi aí que o seu caminho começou a ser traçado: havia todo um património extraordinário “desconhecido e ignorado” em Portugal por estudar.

Um caminho que o levou a Coimbra, onde se doutorou, depois a Lisboa, onde é professor Catedrático da Faculdade de Letras, e que agora é de retorno às origens, a Santarém, à casa que foi do seu pai. A sua ‘Ítaca’.

O Historiador de Arte Vítor Serrão, nome maior da histografia nacional, está de regresso a Santarém – a sua ‘Ítaca’ – como lhe chama, à ‘Casa dos Pinheiros’, na zona de Salmeirim, outrora pertença do seu pai, Joaquim Veríssimo Serrão.

É aqui que decidiu ancorar, trazendo na bagagem numa biblioteca de mais de 20 mil volumes, triados do apartamento de Lisboa, onde morava anteriormente. Uma parte da colecção foi doada ao Arquivo Ephemera, de Pacheco Pereira, e já devidamente catalogada. Outra, está agora nas estantes de bibliotecas públicas: Vítor Serrão largou alguma da sua bagagem para fazer a viagem de regresso mais leve.

“Tentei escolher a biblioteca, aproveitei o momento desta mudança para uma triagem… dei muitos livros a bibliotecas públicas, outras à Ephemera, obras que não eram nem de arte nem de património.

Tentei ficar apenas com a minha ferramenta de trabalho, História de Arte em Portugal, Europa e no Mundo. O restauro, teoria da estética, património e a literatura, alguma, é o que tenho aqui”, diz, em conversa com o Correio do Ribatejo.

“Quero, no fundo, que esta biblioteca tenha um papel de utilidade pública. Qualquer investigador que queira trabalhar um monumento, um aspecto específico da arquitectura, história de arte, restauro, artes decorativas, pode contactar e pedir para consultar as obras”, disse.

É neste lugar “cheio de memorias” do trabalho do seu pai, de certa forma “um retorno à origem”, que Vítor Serrão passa pela espuma dos dias e adensa a sua própria obra e labor: “estou aqui desde Agosto e já aqui escrevi, já reuni com alunos… estou a habituar-me novamente à casa, que tem um pomar e um jardim. Há aqui um tempo de trabalho, de maturidade”, refere, confessando: “o meu lado escalabitano nunca foi interrompido”.

Nesta continuidade temporal, tem acompanhado, agora geograficamente mais de perto, o que se passa na região em termos de recuperação de património, em particular da Capela Dourada, da Misericórdia de Santarém e, mais recentemente, da Igreja de Salvaterra de Magos, propriedade da Santa Casa local.

Sobre este interesse e recuperação de património, que esteve durante anos ao abandono e que foi agora devolvido à fruição, o historiador é peremptório: “evidentemente que é uma prioridade fundamental e ficamos contentes quando verificamos que, a nível público e privado, há trabalho de qualidade a ser feito”.

Em Salvaterra, a chamada “cheia do século”, destruiu grande parte da fachada norte e danificou severamente as 37 pinturas do templo, valendo, na altura, o altruísmo da população que conseguiu salvar as magníficas obras de arte que esta continha no seu interior.

Agora, após 43 anos de abandono, o templo, assim como as obras que estavam no seu interior, foram integralmente recuperadas.

“Trata-se de uma intervenção que é merecedora do maior elogio, prova de que existem boas práticas neste sector” considera o historiador Vítor Serrão, que acompanhou de perto todo este processo e, para quem, a “consciência micro-histórica subjacente aos trabalhos de conservação e restauro e de investigação arquivística foram coroados de sucesso”.

“Tudo isto prova que o património cultural tem ‘pés para andar’, é muito mais importante do que imaginamos, e há gente que está preocupada com ele”, afirma o especialista que, ao longo da sua carreira, tem-se batido por um olhar mais fino e atento sobre o património artístico.

Vítor Serrão nasceu no meio de livros, e foi aí que foi notando que as suas páginas só apresentavam os grandes monumentos e obras. O património que via nas igrejas e museus, que o avô lhe mostrava, amiúde, era ignorado e, por vezes, maltratado. Foi aí que o seu caminho começou a ser traçado: havia todo um património extraordinário “desconhecido e ignorado” em Portugal por estudar.

“O que tem havido é uma miopia e uma perspectiva de automenoridade da História e da História de arte, e da postura arrogante dos agentes da cultura, de uma maneira geral, que tendem a minorar tudo o que não é aparentemente grande. E tendem a diminuir tudo o que não é o mosteiro da Batalha, ou o Convento de Cristo de Tomar ou a Torre de Belém… tudo o resto é pobre, menor, anacrónico. Esta é uma perspectiva errada que muita gente tem difundido e que permite a falta de inventário, a ruína, o abandono, tudo aquilo que tem depauperado o país. O que me espanta é como o país ainda é tão rico. O Ribatejo, então, é extremamente rico, e tem que haver um olhar democrático, plural e aberto, a que eu chamo micro-história de arte. Que não é propriamente uma disciplina para reabilitar o menos importante, antes tenta ter um olhar em globalidade para as franjas, incluindo as periferias, e também as continuidades”, explica.

Na perspectiva de Vítor Serrão, continua a subsistir a ideia errada que a história de arte “é feita por compartimentos estanques: o Românico, o Gótico, o Renascimento, o Barroco… quando, efectivamente, aquilo que torna Portugal tão rico, e as linhas de prolongamento estético que tornam a arte em Portugal tão rica, tão diferente, daquela que existe na restante Europa é precisamente esta miscigenação e que é capaz de incluir e integrar as componentes vernáculas, como ocorreu na India e no Japão, na costa Africana e Marrocos, no tempo do Imperio”, exemplifica.

Questionado sobre o caso concreto de Santarém, que assiste actualmente a obras de recuperação do núcleo museológico da Igreja de São João de Alporão e colocou em marcha a construção do Museu de Abril e dos Valores Universais, na ex-Escola Prática de Cavalaria, Vítor Serrão defende que este território deve assumir um

papel de maior relevo.

“Inevitavelmente, é uma Capital de Distrito. Olhamos para Abrantes, por exemplo, que foi galardoada na área da museologia com um trabalho de alta qualidade do meu colega Fernando António Batista Pereira, e o que me parece é que existe uma lacuna enorme em Santarém a este nível. A Igreja Católica cumpriu uma parte, e foi premiada com isto [com o Museu Diocesano, no Largo do Seminário], mas falta o resto. A Capital do Gótico não tem um lugar que permita ao público ver a tumulária, a escultura, a lapidária medieval, românica, gótica e manuelina e isso tem que existir”, afirmou, acrescentando: “E dói na alma ver que muito deste património foi parar a Lisboa, ao Carmo, e anda por aí, espalhado”.

“A grande lacuna é a Capital do Gótico não ter um chamariz que atraia público, que permita um diálogo mais demorado com a tumulária tão rica e tão importante da cidade”, completou, elogiando o acordo recentemente firmado entre a Câmara Municipal, a Santa Casa da Misericórdia de Santarém, a Diocese de Santarém e o Instituto Superior de Gestão e Administração (ISLA) de Santarém que permite que os monumentos de Santarém passassem a estar abertos ao público todos os dias.

“Fiquei contente de ver que já algo foi feito e ver os monumentos abertos, alguns, é um caminho que tem que ter futuro”, comentou o Historiador que se prepara para lançar uma obra pioneira – mais uma – em colaboração com o antropólogo Aurélio Lopes, que olha para a arte na perspectiva da antropologia.

“A obra de arte é, em primeiro lugar, um marco antropológico porque envolve gente, homens, mulheres, que criaram, que viram, que fruíram, amaram, destruíram, que comungaram. É nesta perspectiva estética, ética e antropológica que o livro é construído”, avançou.

“O autor da obra de arte carrega memória, evidentemente, o tempo dilui-a, a utilidade que a obra teve quando foi feita já não é a mesma que tem agora. Mas há uma disponibilidade que decorre da qualidade da obra: quanto melhor ela é maior o campo de debate que promove. É aí que temos que trabalhar: eu defendo uma história de arte não apenas quantitativa, documental ou meramente preocupada com a biografia. Preocupa-me é que a obra de arte recupere uma parte da memória, para a podermos ver hoje, com a luz e o enfoque que foi tendo ao longo da vida que ela percorreu até agora; desde o momento em que foi criada por alguém com uma determinada finalidade”, transmitiu ao Correio do Ribatejo.

É também em Santarém que foi instalado o Centro de Investigação Joaquim Veríssimo Serrão (CIJVS), instituição erguida sobre os alicerces do imenso trabalho do seu pai, que fez questão de colocar à disposição de investigadores, mas também de curiosos e interessados pela história, os milhares de ficheiros que constituíram as “alfaias” da investigação desenvolvida ao longo de uma vida, bem como os 40 mil livros, 90 caixas de manuscritos, entre os quais a correspondência que trocou com Marcello Caetano, condecorações, telas, que legou em 2009 à câmara municipal de santarém, cidade onde nasceu.

“Foi um trabalho altamente meritório, de ter recolhido um espólio que foi doado pelo meu pai, e que é formidável. O ter tratado e facultado à leitura foi a primeira etapa, mas, agora, tem que haver uma nova para que este trabalho prévio de catalogar 40 mil livros, reunir os documentos, tenha outra utilidade, que é o alargamento aos investigadores da história contemporânea, e essa é uma etapa que vai chegar agora”, revelou.

“E era o objectivo do meu pai: transformar a biblioteca não em pura letra morta, mas em algo dinâmico e capaz de forjar novas histórias, e esse é também o objectivo que eu gostaria de ter” disse ao nosso jornal Vítor Serrão que gosta de se definir como um “Patrimonialista militante”.

“Acredito que o património é a grande batalha dos tempos, principalmente destes, que são terríveis, os que estamos a viver, pela loucura, pela desmemória, pelo egoísmo, pela tirania. Os focos de guerra, que estão a renascer, um pouco por todo o mundo, a extrema direita a ganhar terreno onde menos imaginávamos, são sinais preocupantes. Quando vemos o descalabro da vivência democrática, que nós defendemos, quando vemos as utopias a desvanecerem… tudo isto não deixa de ser inquietante”, reflectiu.

“Neste campo”, prosseguiu, “há questões fundamentais: a primeira é, desde logo, a ecológica, defender o planeta em que vivemos. O planeta tem memória e respira. Depois, a batalha do património cultural, em que a arte, os monumentos, a criatividade erudita tem um enorme valor. E a perspectiva dialogal que podemos ter com um e com outro. Temos um inimigo terrível que é a desmemória, à qual o ultra-liberalismo acrescenta o lado da rapina que quer o lucro a todo o custo. Vivemos num dilema terrível: como defender um planeta, numa altura em que o tempo já conta e, ao mesmo tempo, como defender um planeta com memória e valores estéticos, éticos e patrimoniais?”, questiona.

E neste ciclo que se fecha, em termos de projectos futuros, um dos temas que pretende aprofundar, e deverá dar origem a um livro, é o tempo da estadia de Francisco de Holanda em Santarém, após voltar de Roma.

“Gostava de escrever um ensaio sobre o ambiente cultural que então era vivido na vila ribatejana: um período de prestígio da cultura escalabitana que está hoje muito esquecido mas em que as artes e letras tiveram um grande desenvolvimento: arquitectura, escultura, pintura, poesia, teatro, teoria estética, etc. A velha Scalabis deve ter conhecido nesses anos 1540-1560 a sua idade de ouro! Ora Holanda (lembro- o porque é algo muito esquecido) acabou aqui o seu célebre tratado ‘Da Pintura Antigua’ e começou os desenhos do álbum ‘De Aetatibus Mundi Imagines’. E isso não será bem um pormenor da História…”, concluiu.

Ao longo da sua vida, Vítor Serrão, nascido em Toulouse (França) em Dezembro de 1952, tem-se movido por uma perpétua vontade de descobrir, de entender o que é o homem, a dignidade humana, e pelo combate às tiranias.

Referência maior no campo da História da Arte em Portugal, é doutorado pela Universidade de Coimbra, professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e coordenador do Instituto de História da Arte e da sua Revista Artis. Especializou-se no estudo da pintura portuguesa renascentista, maneirista e barroca, bem como em Teoria da Arte e no campo da salvaguarda do Património.

É autor de uma numerosa bibliografia nestes domínios. É também membro da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais e do Conselho Redatorial do Archivo Español de Arte. No âmbito da sua obra recebeu o Prémio Nacional José de Figueiredo da Academia Nacional de Belas-Artes pelo livro “O Maneirismo e o Estatuto Social dos Pintores Portugueses”, o Prémio APOM pelo melhor catálogo de 1995, com a publicação “A Pintura Maneirista em Portugal – arte no tempo de Camões”, e o Prémio Nacional Gulbenkian de História de Arte pela obra “Josefa de Óbidos e o Tempo Barroco”.

Tem-se dedicado, como historiador de arte, a estudos de temas da Idade Moderna, redignificando o património artístico português e o campo teórico e metodológico da disciplina na análise da produção a partir de visões globalizantes, atento às mecânicas do mecenato, ao estatuto social dos artistas e aos programas iconológicos dos conjuntos e obras. Especial interesse tem manifestado por “períodos escuros” da arte portuguesa, como sejam o Maneirismo e o Proto-Barroco, a que dedicou longas pesquisas.

FILIPE MENDES

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