A APPACDM de Santarém celebra 54 anos de actividade num momento em que consolida reconhecimento público, mas enfrenta uma das fases mais exigentes da sua história. A pressão sobre as respostas residenciais, o envelhecimento dos utentes, a crescente complexidade clínica e a insuficiência de financiamento público colocam novos desafios a uma instituição que acompanha pessoas com deficiência intelectual desde a infância até à idade adulta e, em muitos casos, até à velhice. Em entrevista ao Correio do Ribatejo, o presidente da Direcção, Luís Amaral, faz um balanço de mais de três décadas de envolvimento directo na associação, sublinha a credibilidade conquistada junto da comunidade e admite que a maior angústia continua a ser não conseguir dar resposta a todas as famílias. Entre a necessidade urgente de investimento em novas residências e a aposta na inclusão activa — através da cultura, da escola e da empregabilidade — a APPACDM reafirma uma missão que, mais do que assistência, pretende dignidade, participação e presença plena na sociedade.

 

A APPACDM de Santarém celebra 54 anos de serviço à comunidade. Que leitura faz deste percurso e que momentos considera estruturantes na consolidação da instituição?

Estes 54 anos representam um percurso de afirmação progressiva, construído com esforço e persistência. A APPACDM não nasceu neste espaço. Começou noutra localização e, dois ou três anos depois, conseguiu instalar-se na Quinta de Nossa Senhora do Rosário, no Vale de Santarém. Essa mudança foi um marco importante, porque permitiu consolidar condições físicas e estruturais para responder a uma procura que, desde cedo, se revelou significativa.

Ao longo destas décadas assistimos a um aumento muito expressivo da identificação e sinalização de pessoas com deficiência intelectual. A procura por respostas adequadas cresceu de forma contínua e, muitas vezes, a um ritmo que ultrapassa a nossa capacidade instalada. O percurso da instituição tem sido, essencialmente, o de procurar acompanhar essa necessidade da comunidade.

Se houve crescimento, afirmação e reconhecimento, também houve — e há — uma dimensão que não posso deixar de referir: a angústia de não conseguirmos responder a todos os pedidos. Quando um pai ou uma mãe, já envelhecidos, nos procuram porque o filho frequenta a instituição há décadas e precisam agora de acolhimento residencial permanente, e nós não temos vaga, esse é o momento mais difícil. É aí que sentimos o limite das nossas capacidades.

Recentemente estive numa reunião da Comissão de Segurança Social e Inclusão da Assembleia da República, juntamente com representantes de outras APPACDM do país, precisamente para levar esta preocupação ao poder central. Fomos, de certa forma, porta-vozes de muitas instituições que enfrentam a mesma realidade: listas de espera significativas e famílias em situação de grande fragilidade.

Apesar disso, há algo que considero uma das maiores conquistas destes 54 anos: a credibilidade. A APPACDM de Santarém conquistou respeito na comunidade. Sentimos que as pessoas e as entidades, públicas e privadas, valorizam o nosso trabalho. Esse reconhecimento é uma recompensa moral muito importante e é também o que nos dá força para continuar.

O percurso da instituição tem sido feito de crescimento sustentado, compromisso com a missão e permanente adaptação às necessidades da comunidade. E será esse o caminho que continuaremos a trilhar.

 

Quando olha para a APPACDM de hoje, em termos de dimensão, de respostas sociais e de impacto regional, o que mais o orgulha enquanto presidente da Direção?

O que mais me orgulha é perceber que a instituição ultrapassou as suas próprias fronteiras físicas. Hoje, quando alguém me aborda na rua, não é a minha pessoa que está em causa, mas aquilo que a APPACDM representa. As pessoas associam-nos a um trabalho concreto, visível e reconhecido na comunidade.

É frequente ouvirmos comentários como: “Tivemos o vosso coro na Santa Casa da Misericórdia a animar os idosos” ou “Os jovens da APPACDM estiveram numa escola a participar numa actividade cultural”. Estes episódios são, para nós, muito significativos. Demonstram que a instituição não está fechada sobre si própria. Está presente na vida da cidade.

Nos últimos anos temos feito uma aposta clara na capacitação das pessoas com deficiência intelectual. Dar condições para que desenvolvam as suas capacidades — na música, no teatro, na dança, no desporto — é um dos eixos centrais do nosso trabalho. Não se trata apenas de ocupação; trata-se de reconhecer potencial e criar oportunidades para que esse potencial se manifeste.

Há pessoas que, pelas suas limitações, conseguem fazer pouco. Mas, fazendo tudo o que podem, fazem muito. O nosso dever é precisamente esse: criar o contexto para que cada um atinja a sua máxima capacidade. Quando vemos os nossos utentes a actuar em palco, a participar em eventos públicos, a interagir com naturalidade com outras pessoas, sentimos que estamos a cumprir a nossa missão.

Esse é, para mim, o maior motivo de orgulho: perceber que a APPACDM é hoje reconhecida não apenas como uma instituição de apoio, mas como um agente activo na vida cultural, social e comunitária da região. A inclusão faz-se assim, pela presença, pela participação e pela valorização das capacidades de cada pessoa.

 

A APPACDM começou por funcionar numa casa e hoje tem sede na Quinta de Nossa Senhora do Rosário, no Vale de Santarém, além de outras respostas descentralizadas. Que significado teve esta evolução física e estrutural para o crescimento da vossa missão?

A evolução física da APPACDM de Santarém nunca foi um fim em si mesma. Foi sempre consequência de necessidades concretas, claramente identificadas na comunidade, e da obrigação de responder à missão que nos orienta.

A nossa missão está bem definida: apoiar pessoas com deficiência intelectual, promover a sua dignidade, defender os seus direitos e apoiar as suas famílias, envolvendo o Estado nessa responsabilidade. Cada passo que demos em termos de crescimento estrutural teve como referência esse compromisso.

A mudança para a Quinta de Nossa Senhora do Rosário representou, na altura, um salto qualitativo importante. Permitiu-nos criar melhores condições de trabalho e de acolhimento, num espaço mais adequado às exigências da nossa actividade. Posteriormente, o crescimento para outras respostas — nomeadamente unidades residenciais no concelho e no Cartaxo — não foi um movimento expansivo descontextualizado, mas sim uma resposta directa a pedidos concretos das famílias.

Em alguns casos, esse crescimento aconteceu com algum atraso face às necessidades existentes. A pressão tem sido constante. Mas, sempre que avançámos, foi porque havia um diagnóstico claro da carência e a convicção de que estávamos a cumprir a nossa missão.

Hoje continuamos a ter projectos identificados. Dispomos, por exemplo, de uma antiga escola primária no Vale de Santarém, cedida pela Câmara Municipal, que poderá permitir o desenvolvimento de novas respostas. Temos capacidade técnica e projecto delineado. O que precisamos é de condições de financiamento que tornem possível essa concretização.

O crescimento estrutural da APPACDM é, portanto, inseparável do crescimento da responsabilidade que assumimos perante a comunidade. Não se trata de expandir por expandir, mas de garantir que cada espaço criado corresponde a uma necessidade real e a uma resposta consistente.

 

Como é que vive esta pressão das famílias e que soluções estão em cima da mesa para aumentar a capacidade de acolhimento residencial?

É talvez a dimensão mais difícil da nossa responsabilidade. E é difícil não apenas do ponto de vista institucional, mas também pessoal. Falo enquanto presidente da Direção, mas também enquanto pai de uma mulher com 45 anos que frequenta a APPACDM durante o dia. Sei, por experiência própria, o que significa pensar no futuro e não saber se haverá resposta quando ela for necessária.

Quando um pai ou uma mãe, já envelhecidos, nos procuram a pedir acolhimento residencial permanente para o filho, e nós não temos vaga, é uma situação profundamente angustiante. Dizer a uma família que o filho continuará apenas com apoio diurno, porque não existe capacidade de residência, é um dos momentos mais duros do nosso trabalho.

Essa frustração, contudo, não nos paralisa. Pelo contrário, reforça a determinação de continuar a lutar por soluções. A realidade de Santarém não é isolada; acontece um pouco por todo o país. Em algumas regiões a pressão é menor, noutras é ainda maior. No nosso caso, a procura é elevada e a capacidade instalada é manifestamente insuficiente.

Temos terreno disponível, temos projecto aprovado e temos condições técnicas para crescer. Precisamos, sobretudo, de apoio público para concretizar esse investimento, tanto na área residencial como no reforço das actividades ocupacionais. O objectivo é claro: aumentar a capacidade de resposta às famílias que vivem numa situação de incerteza permanente.

Há ainda situações particularmente delicadas — jovens que perdem ambos os pais, irmãos que vivem longe ou no estrangeiro, contextos familiares que se desagregam. Nesses casos, recorremos frequentemente à articulação com a Segurança Social e com outras instituições parceiras para encontrar soluções de emergência. São respostas pontuais, muitas vezes conseguidas com autorizações excepcionais, mas não resolvem o problema estrutural.

A nossa prioridade para os próximos anos passa, inevitavelmente, por aliviar esta pressão. Precisamos de criar mais vagas residenciais para garantir estabilidade às pessoas com deficiência intelectual e tranquilidade às suas famílias. Enquanto isso não acontecer, esta continuará a ser a nossa maior angústia.

 

As respostas sociais tornaram-se mais complexas ao longo dos anos, com utentes a envelhecer e com maior dependência. Como é que a instituição se foi preparando para dar resposta a esta nova realidade?

Essa é uma realidade relativamente recente, mas com um impacto muito significativo. Felizmente, as pessoas com deficiência intelectual vivem hoje mais anos do que viviam há algumas décadas. Isso é um sinal de progresso, mas traz também novos desafios.

O envelhecimento dos nossos utentes implica, muitas vezes, um agravamento de patologias associadas e uma maior exigência ao nível dos cuidados de saúde. A APPACDM não é uma instituição de saúde, mas, em determinadas circunstâncias, quase parece. Somos confrontados com situações clínicas complexas que exigem formação específica dos colaboradores, reforço de equipas e articulação constante com os serviços públicos de saúde.

Temos investido na formação dos nossos profissionais para que possam lidar com esta evolução do perfil dos utentes. O esforço é considerável, sobretudo em termos de recursos humanos. Quanto maior a dependência, maior a necessidade de acompanhamento individualizado e permanente.

Há, contudo, uma dimensão que nos preocupa ainda mais: os utentes que vivem em casa com pais também eles envelhecidos. A fragilidade acumula-se. Temos pessoas com deficiência intelectual com saúde débil e, ao mesmo tempo, mães e pais já idosos, muitas vezes exaustos, que continuam a assumir sozinhos a responsabilidade diária. Quando surge uma emergência — doença súbita ou falecimento de um progenitor — a situação torna-se crítica.

Nesses casos, recorremos frequentemente à parceria com a Segurança Social e com outras instituições para encontrar soluções de emergência. Nem sempre é fácil. As estruturas residenciais estão, regra geral, completamente preenchidas. Ainda assim, através de uma articulação próxima e de autorizações excepcionais, temos conseguido resolver situações mais urgentes.

O envelhecimento trouxe, portanto, uma exigência acrescida em termos técnicos, humanos e financeiros. Mas trouxe também uma responsabilidade maior de planeamento. Precisamos de antecipar esta realidade e estruturar respostas que garantam dignidade, cuidados adequados e estabilidade às pessoas que acompanhamos ao longo de toda a vida.

 

A sustentabilidade financeira e os recursos humanos são dois pilares críticos no sector social. Que dificuldades concretas enfrenta hoje a APPACDM nestas áreas?

A sustentabilidade é, hoje, um dos maiores desafios estruturais da APPACDM, como é de muitas instituições do sector social. Os apoios públicos, nomeadamente através dos acordos com a Segurança Social, são essenciais, mas continuam aquém daquilo que seria necessário para cobrir a totalidade dos custos reais das respostas que prestamos.

Na área da deficiência intelectual, a exigência ao nível dos recursos humanos é particularmente elevada. O envelhecimento dos utentes e a maior complexidade das situações obrigam-nos a reforçar permanentemente equipas. Falamos de técnicos superiores, psicólogos, terapeutas, auxiliares especializados, profissionais com formação específica. O custo com pessoal representa a maior fatia da nossa estrutura de despesas.

A APPACDM de Santarém conta actualmente com cerca de 140 colaboradores. E, mesmo assim, sentimos necessidade de reforçar a equipa com mais técnicos, precisamente para dar resposta ao perfil actual dos utentes. É uma realidade incontornável: quanto maior a dependência, maior a necessidade de acompanhamento individualizado.

Em termos de financiamento, aproximadamente metade do nosso orçamento é assegurada por apoio público directo. A outra metade depende da comparticipação das famílias e de receitas próprias. E aqui encontramos outro constrangimento: muitas das famílias das pessoas com deficiência intelectual têm recursos limitados. A comparticipação que lhes é solicitada, mesmo sendo calculada de acordo com as suas possibilidades, nem sempre é suficiente ou chega com regularidade para cobrir a diferença.

Perante este quadro, temos desenvolvido uma estratégia activa de procura de parcerias e candidaturas a programas de responsabilidade social. Contamos com o apoio da autarquia e de diversas entidades privadas e fundações que, dentro das suas possibilidades, contribuem para projectos específicos. Não se trata de montantes extraordinários, mas são ajudas importantes para equilibrar contas e concretizar investimentos pontuais.

Quero também sublinhar o impacto da consignação do IRS. Em 2025 registámos o valor mais elevado de sempre neste âmbito, o que demonstra confiança e reconhecimento da comunidade. Estamos já a preparar a próxima campanha, porque cada gesto de solidariedade conta para garantir a continuidade do nosso trabalho.

A sustentabilidade da APPACDM assenta, assim, num equilíbrio delicado entre financiamento público, esforço das famílias e apoio da comunidade. É um modelo que exige gestão rigorosa, planeamento constante e capacidade de mobilização permanente.

 

A inclusão é uma palavra central no discurso institucional. Na prática, como se concretiza essa inclusão, na escola, no trabalho, na cultura e na própria comunidade?

A inclusão não é um conceito abstracto para nós. Concretiza-se em actos diários e em presença efectiva na comunidade.

Temos procurado potenciar as capacidades individuais de cada pessoa nas mais diversas áreas — cultura, desporto, teatro, dança, música — e criar oportunidades para que se apresentem publicamente. Quando os nossos utentes sobem a palco, participam num espectáculo ou colaboram com outras instituições culturais, estão a afirmar-se como cidadãos com competências próprias.

Hoje já somos capazes de integrar espectáculos lado a lado com artistas ditos “normais”, sem qualquer complexo ou diferenciação. Isso é inclusão real. É quando a comunidade deixa de olhar para a deficiência como factor exclusivo e começa a reconhecer talento, empenho e dedicação.

No contexto escolar, a inclusão começa ainda mais cedo. A nossa equipa de intervenção precoce acompanha crianças em creches e jardins-de-infância. Os nossos técnicos trabalham nas escolas, apoiando alunos com necessidades educativas específicas. A convivência com outros alunos, a presença regular nos estabelecimentos de ensino e o acompanhamento técnico especializado são fundamentais para que a diferença seja encarada com naturalidade desde cedo.

Na área do trabalho, temos vindo a reforçar a aposta na empregabilidade. Dispomos de equipas dedicadas a essa área e desenvolvemos programas em articulação com o Instituto do Emprego e Formação Profissional. O objectivo é identificar tarefas e contextos laborais ajustados às capacidades de cada pessoa.

Nem todos podem cumprir um horário convencional das nove às cinco. Mas muitos podem desempenhar funções durante três ou quatro horas por dia, alguns dias por semana, em empresas e instituições da comunidade. Essa integração parcial tem um valor enorme. Permite que a pessoa saia da instituição, desenvolva competências, interaja em ambiente profissional e se sinta parte activa da sociedade.

É esse o princípio que nos orienta: estar na instituição não significa estar institucionalizado. Durante o período em que estão sob a nossa responsabilidade, procuramos que as pessoas circulem pela comunidade, participem em actividades externas e desenvolvam experiências diversificadas.

A inclusão faz-se assim, pela presença, pela participação e pela valorização das capacidades. Não se trata apenas de integrar fisicamente; trata-se de reconhecer que cada pessoa tem algo a oferecer.

 

Sente que existe hoje uma maior consciência pública e política da importância de instituições como a APPACDM?

Creio que sim. Temos assistido a uma evolução clara na forma como as entidades públicas e a sociedade em geral olham para instituições como a APPACDM.

Existe hoje uma maior consciência da importância do nosso papel no território. As autarquias, os serviços públicos e outros agentes institucionais acompanham com maior proximidade a nossa actividade e reconhecem o valor do trabalho que desenvolvemos.

Isso não significa que todas as necessidades estejam resolvidas ou que os apoios sejam sempre suficientes. Muitas vezes ajudam dentro das suas possibilidades e dos enquadramentos legais existentes. Mas sentimos abertura, diálogo e reconhecimento.

A possibilidade de concorrer a apoios municipais na área da cultura, do desporto ou da acção social, em igualdade com outras entidades, demonstra que somos vistos como parceiros legítimos da comunidade. Não procuramos privilégios; procuramos reconhecimento e condições justas para desenvolver o nosso trabalho.

Há hoje uma maior visibilidade pública das questões relacionadas com a deficiência intelectual. Isso resulta também de uma presença mais activa das instituições no espaço público. Temos de continuar a trabalhar essa relação com a comunidade, mantendo proximidade, transparência e capacidade de intervenção.

A credibilidade constrói-se diariamente. E sentimos que, ao longo destes anos, conseguimos consolidar essa confiança junto dos poderes públicos e da sociedade civil.

 

Ao longo de mais de três décadas ligado à instituição, que transformação mais profunda testemunhou na forma como a sociedade olha para a diferença?

A mudança mais evidente foi ao nível da aceitação. Hoje existe, de uma forma geral, uma atitude mais natural e mais respeitadora perante as pessoas com deficiência intelectual.

É verdade que, pontualmente, ainda ocorrem situações de segregação ou preconceito. Mas, comparando com o que acontecia há algumas décadas, o avanço é significativo. No meio escolar, no contexto empresarial e na própria convivência comunitária, sentimos uma maior abertura e compreensão.

Na área da empregabilidade, por exemplo, temos encontrado maior disponibilidade por parte de empresas para integrar pessoas com deficiência intelectual nas suas equipas. Esse é um sinal muito importante. Quando uma empresa abre portas, está a assumir que estas pessoas podem desempenhar funções e contribuir dentro das suas capacidades.

Também ao nível da comunidade escolar se nota uma evolução. As crianças e jovens crescem hoje num ambiente onde a diferença é mais visível e mais integrada. Isso contribui para que, no futuro, a aceitação seja ainda maior.

Parte desta transformação resulta do trabalho persistente das instituições. Estar presente, divulgar, participar activamente na vida da comunidade faz a diferença. Se não ocuparmos o nosso espaço, alguém o ocupará. E nós temos direito a esse espaço, não como favor, mas como reconhecimento da dignidade das pessoas que representamos.

O que procuramos é que a sociedade deixe de olhar apenas para a incapacidade e passe a valorizar a capacidade que existe. Toda a pessoa tem limitações, mas também tem potencial. Quando a comunidade aprende a reconhecer esse potencial, a inclusão torna-se mais natural.

Essa evolução não aconteceu por acaso. Foi fruto de persistência, de presença constante e de uma mudança cultural gradual. E é um processo que tem de continuar.

 

Que desafios e metas gostaria de ver concretizados nos próximos anos, à medida que a APPACDM se aproxima das seis décadas de existência?

A prioridade é clara: precisamos de condições para investir. O investimento nas respostas sociais é, neste momento, a nossa meta central.

Em primeiro lugar, a área residencial. A pressão das famílias é enorme e não podemos continuar a viver permanentemente nesta angústia de não ter vaga para quem mais precisa. Temos projecto definido, terreno disponível e capacidade técnica para avançar. Falta-nos assegurar financiamento que permita concretizar esse crescimento.

Em paralelo, é fundamental reforçar a capacidade das actividades diárias. Cada ano que passa surgem jovens que terminam o percurso escolar e precisam de uma resposta estruturada. Se não aumentarmos essa capacidade, acumularemos uma nova lista de espera.

Hoje, as actividades diárias não são apenas ocupacionais no sentido tradicional. Evoluíram para um modelo mais aberto e flexível. Temos utentes que combinam permanência na instituição com actividades externas em empresas e organizações da comunidade. Esse modelo deve ser reforçado.

O objectivo é claro: evitar a ‘segregação’. Uma pessoa pode estar integrada numa instituição e, ao mesmo tempo, participar activamente na sociedade. Quanto mais conseguirmos diversificar experiências — trabalho parcial, desporto, cultura, lazer — maior será a qualidade de vida.

Queremos, portanto, crescer com responsabilidade, aumentar a capacidade residencial e consolidar um modelo de actividades abertas, ajustadas às características individuais de cada pessoa.

Se conseguirmos avançar nestas duas frentes — investimento residencial e reforço das respostas diárias — estaremos a dar um passo decisivo para garantir estabilidade às famílias e maior inclusão aos utentes.

 

Que mensagem gostaria de deixar à comunidade por ocasião dos 54 anos da APPACDM de Santarém?

A mensagem que gostaria de deixar é simples: que a comunidade continue a olhar para a APPACDM com o mesmo espírito de solidariedade que tem demonstrado ao longo dos anos.

Sentimos que existe respeito e consideração pelo nosso trabalho, e isso é fundamental. Mas mais importante ainda é que as pessoas com deficiência intelectual sejam vistas como parte integrante da sociedade — não como excepção, não como um problema, mas como cidadãos com dignidade própria.

Gostaria que continuassem a acolher-nos nas actividades culturais, nas iniciativas comunitárias, nas empresas e nas escolas. Quanto mais presença houver, mais natural será a inclusão.

Num plano mais alargado, é essencial que os poderes públicos mantenham atenção às necessidades destas pessoas e das suas famílias. Um filho com deficiência intelectual representa um desafio permanente para qualquer família. Exige união, resiliência, paciência e, muitas vezes, sacrifícios profundos. A responsabilidade não pode recair exclusivamente sobre essas famílias.

Há uma dimensão que importa sublinhar: as pessoas com deficiência intelectual não são, na maioria dos casos, cidadãos que tenham contribuído formalmente para o sistema. Dependem da família, da comunidade e do Estado ao longo da vida. Precisam, por isso, de instituições que sejam a sua voz e que defendam os seus direitos.

A APPACDM acompanha pessoas desde a infância até à idade adulta e, em muitos casos, até à velhice. Temos equipas de intervenção precoce que começam a trabalhar com crianças sinalizadas ainda na maternidade. Acompanhamos o percurso escolar, desenvolvemos planos individuais de intervenção, estruturamos respostas na vida adulta e apoiamos as famílias em todas as fases.

Cada pessoa tem um plano individual próprio, ajustado às suas características e objectivos. Não existem soluções uniformes. Trabalhamos caso a caso, percurso a percurso.

Se há algo que estes 54 anos demonstram é que esta é uma missão de continuidade. Precisamos da comunidade, do apoio público e da participação activa de todos para garantir que estas pessoas vivem com dignidade, respeito e integração plena. Esse é o compromisso que renovamos.

Filipe Mendes

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