Considera-se muitas vezes que a História da Arte portuguesa da Idade Moderna se distingue das suas congéneres internacionais por cânones diferenciadores muito particulares. Penso que se trata de uma muito justa constatação. Um dos mais marcantes aspectos desse cânone é a capacidade que os nossos artistas dos séculos XVI, XVII e XVIII de criar efeitos cenográficos nos espaços construídos, fossem eles sacros ou civis, mesmo quando os recursos utilizados se revelam frágeis, as técnicas rudimentares e os materiais singelos. Se no nosso património de então nunca se encontra a pompa, por exemplo, das cortes barrocas de Roma, de Madrid, de Viena, de Praga ou de Versailles, o que existe sempre nas obras portuguesas é uma forma de decoração ‘sui generis’ que afirma a nossa ardência vernacular e é, muitas vezes, absolutamente original.

O equipamento ornamental dos acervos artísticas que enchem os nossos espaços em ‘estilo chão’ durante as épocas em que o Maneirismo e o Barroco foram estilos dominantes ilustra esse talento inato da arte feita em espaços portugueses (na metrópole e nos territórios imperiais de África, Índia e Brasil) em tirar partido dos meios, dos processos e das influências exteriores, gerando resultados ornamentais visualmente poderosos. 

Nesses séculos, em condições geralmente de depauperamento das clientelas periféricas, artes como a Escaiola (fingimento marmóreo da ‘Entarsia’) e a imitação do Embrechado e do Esgrafito juntaram-se à Talha, ao Azulejo, à Chinoiserie, ao Fresco e ao Brutesco e ofereceram-se como armas de engenhosas decorações artísticas. Vemos por todo o país e nos espaços de influência portuguesa a associação dessas várias artes simuladas criando singulares cenografias de fingimento. E mesmo quando os recursos escasseiam, o que é frequente, algumas dessas decorações revelam-se pequenas obras-primas do nosso talento de decorar. 

Finalmente, a História da Arte portuguesa começa a despertar com maior atenção para tais manifestações decorativas durante tanto tempo tão esquecidas ou menorizadas pelo gosto dominante. Começa a ser revalorizado este uso livre de técnicas e materiais (reais e fictícios) como elemento relevante da inovação decorativa, em ambientes eruditos e em esferas de produção regionais, e tal é fruto de novas abordagens devidas a historiadores de arte mais atentos à produção tanto erudita como não-erudita, como José Meco e Rosário Salema de Carvalho na azulejaria, Maria João Pereira Coutinho na ‘entarsia’, Sílvia Ferreira na talha dourada ou António Filipe Pimentel no caso da ‘chinoiserie’, entre outros.

Em recente visita à igreja matriz de São Vicente do Paúl, uma das freguesias rurais do concelho santareno, deparei-me com alguns casos singularíssimos de fingimentos barrocos. Apesar de serem obras de arte provinciais, assumem uma qualidade decorativa deveras apreciável. Embora fosse patente a modéstia de recursos das irmandades sedeadas nessa paróquia durante a primeira metade do século XVIII, tal não impediu os seus responsáveis de olhar com admiração para as grandes obras que se faziam então na vila Santarém e de chamar artistas capazes de as replicar. No caso, foram as extraordinárias ‘entarsias’ (mármores embutidos) da igreja do Colégio dos jesuítas (antigo Seminário Patriarcal e hoje Sé de Santarém) e as ‘chinoiseries’ das novas capelas da igreja do Hospital de Jesus Cristo (antigo mosteiro franciscano do Sítio). 

Ambas essas notabilíssimas decorações foram imitadas nas decorações feitas na igreja de São Vicente do Paul, num evidente esforço de actualização de referenciais estéticos e de exacta referenciação dos bons modelos eruditos visíveis em Santarém! Eram «citações» ao vivo e, como tal, perceptíveis pela comunidade da aldeia e pelos seus visitantes, tornando-se memórias palpáveis e, mais ainda, sobreviventes.

A igreja de São Vicente do Paúl é um monumento muito interessante. Tem origens medievais, mas nada resta já dessas primícias, salvo a estrutura de base da torre e a boa imagem de pedra quinhentista do padroeiro, exposta num dos altares colaterais. Em 1574, o templo pertencia ao Padroado Real e integrava o território da Diocese da Guarda. Na primeira metade do século XVII, sofreu grandes reformas, sendo a igreja reerguida em ‘estilo chão’ e revestida de azulejos de padronagem. Passado um século, em pleno novo-riquismo da era de D. João V, recebe um conjunto de retábulos de ‘Estilo Nacional’ para decorarem a capela-mor e os altares colaterais e, ainda, a nave. Estas obras chegaram aos nossos dias. 

A falta de documentação sobre encomendas e obras, por desaparecimento dos livros de despesa da igreja ou referências contratuais no notariado, impede de saber quem foram os artistas (os entalhadores, os carpinteiros, os pintores-douradores e os mestres de escaiola) envolvidos nessas campanhas setecentistas. Certo é que, nas ‘Memórias Paroquiais’ de 1758, o pároco de então, padre André Duarte, responde ao inquérito pombalino, destacando o altar-mor e os demais cinco altares (de São Vicente, Nossa Senhora do Rosário, Santo António, Menino Jesus, São Sebastião, e do Espírito Santo, este último ainda por dourar) destacando a qualidade da sua decoração ‘moderna’, razão de orgulho dos paroquianos.

A verdade é que, como se disse, os responsáveis pelas irmandades de São Vicente do Paúl no tempo de D. João V estavam bem informados sobre as novidades artísticas que se realizavam em Santarém. Era o caso, designadamente, dos notabilíssimos embutidos em mármores de cor que ornam a capela-mor da igreja do Colégio jesuítico de Nossa Senhora da Conceição, a actual Sé, feitos em 1713-1717 com risco do arquitecto-pedreiro genovês Carlos Baptista Garvo com colaboração de artífices genoveses e dos mestres artistas lisboetas António Pereira, Vicente Soares e Manuel Rodrigues. A historiadora de arte Maria João Pereira Coutinho estudou especialmente bem esta campanha barroca, a melhor do seu género a nível nacional. 

O impacto desta obra foi tal que inspirou o anónimo pintor que, por volta de 1730 ou 1740, decorou com fingimentos os altares colaterais desta igreja rural, o de São João Baptista à esquerda e o de São Vicente à direita, ambos com boa talha de ‘Estilo Nacional’ tardio, imitando com talento e saber o efeito do marmoreado do espaço do templo da Companhia de Jesus. 

O efeito desta decoração fingida, realizada à falta de meios para um verdadeiro revestimento de mármores polícromos, é absolutamente inesperado e de grande beleza. O património da Santarém rural continua a ser um surpreendente laboratório de boas surpresas artísticas!

Mas também as ‘chinoiseries’ que decoram vários altares da igreja do antigo Mosteiro de Jesus do Sítio em Santarém (a actual igreja do Hospital de Jesus Cristo, em fase de restauro), que datam de 1719-1726, foram a fonte inspiradora para a imitação de lacados chineses que vemos num dos altares da nave da igreja de São Vicente do Paul. Essas exóticas decorações ressurgem em ousado fingimento de xarão no altar de São Sebastião, cujo retábulo entalhado tem os intercolúnios pintados com imitação de ‘chinoiseries’. Ainda que estejam muito apagados, quer no desenho de figuras, pagodes, lótus e folhagem, e nos fundos de vermelhão do fingido de laca, tudo foi composto a fazer lembrar o efeito dos que decoram a referida igreja de Santarém e foram de certeza, no seu tempo, razão de surpresa para muitos visitantes. Apesar do ‘decorum’ da Contra-Reforma, sempre existiram margens de inovação na arte portuguesa, capaz de se reinventar a cada passo na busca de um microcosmo existencial que desse sentido ao seu destino de povo vagamundos…

E ainda dizem que as periferias mais ruralizadas não se sabiam actualizar em termos de arte, miscigenando culturas e reinterpretando a linguagem da mais ata erudição! Do que se trata mesmo, no exemplo dado pelos esquecidos altares da igreja de São Vicente do Paul, é da nossa proverbial incapacidade de querer ver, sentir, perceber e revalorizar… Tanto trabalho existe, pois, para um olhar mais  atento, usado para devolver aos roteiros artísticos do concelho, e não só, tantas boas obras esquecidas pelo desinteresse! 

O que se conclui destas invulgares decorações barrocas da ruralidade santarena é que existiu mesmo uma característica distintiva, comum aos nove séculos de arte portuguesa, que foi essa nossa capacidade de criar ousadias através dos ‘fingimentos‘, usando materiais pobres e singelezas vernáculas para atingir espacialidades inauditas.

Esse é o verdadeiro cânone da nossa capacidade artística, adaptada a múltiplas situações, épocas e geografias. Encontram-se essas boas práticas em irrepetíveis discursos estéticos que formam toda uma panóplia de soluções feitas de possibilidades e coerências vernáculas. 

Saber ver esse cânone, percebê-lo e valorizá-lo, implica sempre um olhar micro-artístico descomprometido. Ai de nós se o nosso riquíssimo Património (que o é) se reduzisse aos Jerónimos, às Mafras e Batalhas, e não fosse esta riqueza incomensurável e plural que se descobre todos os dias na dimensão da nossa ruralidade!

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