A Sala de Leitura Bernardo de Santareno vai ser palco, a partir do próximo dia 31 de Janeiro, de um encontro com grandes nomes da literatura lusófona, como José Eduardo Agualusa. O evento ‘Conversa com Escritores’ é a primeira iniciativa cultural pública da Elivulu, editora angolana que escolheu a cidade de Santarém para instalar a sua sede em Portugal. Em entrevista ao Correio do Ribatejo, Sedrick de Carvalho, um dos rostos por detrás do projecto editorial, revela a história da editora e os projectos culturais que tem em vista para dinamizar a cidade. 

No primeiro esquerdo do apartamento número cinco, localizado na rua Dr. Ginestal Machado, em Santarém, encontra-se a sede da Elivulu (que significa livro na língua Umbundo), editora angolana cuja representação em Portugal se encontra na cidade ribatejana. No meio de um labirinto de escritórios, Sedrick de Carvalho, coordenador editorial da Elivulu, recebe-nos com um sorriso, indicando-nos o seu pequeno espaço que serve de quartel-general ao selo editorial.

Entre estantes de livros e gadgets que o auxiliam na gestão e planificação do negócio, encontram-se novos projectos e ambições para o novo ano, com destaque para a iniciativa bimensal ‘Conversa com Escritores’, que iniciar-se-á no próximo dia 31 de Janeiro, na Sala de Leitura Bernardo de Santareno, levando grandes nomes da literatura lusófona a Santarém, como José Eduardo Agualusa (publicado pela Elivulu em Angola), Ana Paula Nunes e Clara Branca das Neves. 

“Apresentámos esta proposta à directora da Biblioteca Municipal de Santarém que imediatamente gostou da ideia e apoiou-nos, cedendo-nos a sala de leitura para realizarmos este evento”, conta Sedrick de Carvalho que revela que a editora teve como critérios de selecção “escritores que abordam África e que a literatura seja sobre África”. 

Com o objetivo de ser “um ponto de referência no calendário cultural da cidade”, o evento procura ser um elo de ligação entre autores e leitores, marcado pela interacção e pelo diálogo entre ambos. 

“Muitos leitores não têm a oportunidade de questionar os escritores, de conversar com eles e queremos promover esse contacto”, refere. 

Para além do ‘Conversas com Escritores’, existem mais projectos guardados na gaveta e que Sedrick de Carvalho espera que possam ver a luz do dia, como a realização de uma feira do livro na cidade scalabitana.

“Estamos numa fase muito embrionária, ainda estamos a reunir alguns passos para poder apresentar a ideia com alguma sustentação à Câmara”, revela. 

Fundada em Junho de 2019, a Elivulu surgiu da necessidade de apontar soluções às críticas feitas ao estado actual de Angola. 

“Porquê estar sempre a reclamar que não temos uma editora independente em Angola? Que não temos bons editores em Angola? Porquê não fazer e demonstrar como fazer melhor?”, questiona.

A partir de conversas com amigos, entre os quais o psicólogo clínico Nvunda Tonet, que faleceu no passado dia 20 de Janeiro, e que foi o primeiro autor publicado pela editora, a Elivulu deu os seus primeiros passos no mundo editorial. 

“Ele é o autor que nos depositou confiança à partida. E só depois é que outros também viram aqui um espaço para publicar”, relembra.

Sob o lema “Ler com liberdade!”, o selo editorial tem se dedicado à publicação de livros tidos como críticos do poder político vigente procurando, apesar de tudo, ser plural. 

“Temos livros de pessoas que não estão ligadas à literatura política, nomeadamente na área da psicologia e da ficção”, conta. 

No entanto, essa mesma independência e liberdade são condicionadas durante o processo editorial, através das impressões gráficas. 

“Quando há livros críticos ao poder político, as gráficas não aceitam publicar e fazer a sua impressão. Há momentos em que até fazem censura. Bloqueiam o livro e mandam-no para outra entidade que faz uma censura e determina se o livro será impresso ou não”, desvenda. 

Como forma de contornar esta questão, Sedrick de Carvalho decidiu abrir os horizontes da Elivulu, expandindo esta para Portugal. 

“Trabalhar em Portugal contorna sobretudo essa parte da impressão. Passámos a fazer impressão total aqui porque já não corremos o risco de ter as nossas edições censuradas”, afirma. 

Registada oficialmente desde Novembro de 2025 no país, o selo editorial vende os seus livros através do seu site online tendo, contudo, começado a colocar os seus títulos em algumas livrarias portuguesas. Um processo que não se tem revelado fácil. 

“As grandes redes livreiras têm alguma resistência em aceitar livros de pequenas editoras. Estamos numa lista de espera, da qual fazem parte outras editoras portuguesas, que não conseguem penetrar nestes grupos livreiros de maiores dimensões”, refere o coordenador editorial que sublinha ainda a dificuldade de a livraria estar presente nas grandes feiras do livro do país. 

“Temos alguma dificuldade porque o custo de participação é altíssimo. E para pequenas editoras, não há meios de custear uma participação, durante três, quatro semanas, sem falar ainda do custo da própria participação, da manutenção do espaço”, realça. 

No quartel-general da Elivulu, Sedrick de Carvalho vai realizando a edição e o envio das obras literárias, bem como tratando das questões administrativas, contactos com livrarias e negociações com livreiros e autores. A residir em Santarém desde 2017, o jornalista, escritor e coordenador editorial faz uma análise dos hábitos de leitura dos scalabitanos. 

“Eu frequento a Biblioteca Municipal e cada vez noto menos pessoas a fazer leituras. Outro elemento que também me faz perceber que há menos leitores são os eventos literários. Nestes eventos há pouca participação e isso é um reflexo que estamos a ler pouco, enquanto comunidade”, aponta Sedrick de Carvalho que identifica também a falta de hábitos de leitura na comunidade africana, a residir em Santarém. 

“Os países de origem não fomentam, nem promovem a leitura a partir da escola e das famílias”, refere, evidenciando também a “falta de capacidade para a aquisição de livros”. 

O coordenador editorial espera, no entanto, que os hábitos de leitura da comunidade possam mudar com a realização do ‘Conversa com Escritores’.

“Espero mesmo que seja uma forma de chegar à comunidade africana. Estamos a trazer escritores africanos e esperamos que haja aqui uma certa sintonia, no sentido de as pessoas poderem ver e ouvir alguém a falar sobre a sua realidade”, manifesta. 

O ano de 2026 parece que vai ocupar um lugar de destaque na história da Elivulu. Desde a expansão e registo em Portugal, passando pela realização dos seus primeiros eventos em solo nacional, os prognósticos são de crescimento online e físico. 

“Esperamos que a editora cresça e o reflexo desse crescimento será termos também uma livraria, um espaço físico modesto, onde se possa entrar”, revela Sedrick de Carvalho. 

Ambições literárias que têm como objectivo final fazer da Elivulu uma ponte entre países, culturas e realidades distintas. 

Ricardo Santos Pereira

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