Aurélio Lopes – Antropólogo

Embora, de alguma forma, me pareça estranho, o facto é que o meu conhecimento pessoal com o Prof. Veríssimo Serrão não é, afinal, muito antigo Em grande parte, remonta a 1999, ano em que as comemorações nacionais do 25 de Abril foram realizadas em Santarém.

Nessa altura, a Câmara escalabitana recebeu a incumbência de ser anfitriã dos respetivos festejos.

E nesse contexto, num ato de “infinita” lucidez, resolve (nem mais nem menos) que convidar o Prof. Veríssimo Serrão para ser, digamos assim, a referência institucional das respetivas comemorações.
Falta de tato, claro. Não quero acreditar noutras razões.

Pois, como era sobejamente sabido, o Prof. Veríssimo Serrão, por motivos que lhe assistem, sempre esteve, de uma forma clara e perfeitamente assumida, contra a 25 de Abril.

O que é que se pretendia? Que abjurasse automática e imediatamente, daquilo que eram afinal os seu princípios e valores, norteadores de um entendimento do mundo que concordemos ou não, é legítimo e natural?. Ou que fingisse que acreditava e concordava com o acontecimento celebrado; num repulsivo exercício de hipocrisia?

Naturalmente, recusou o convite, enviando uma carta à Câmara a explicar as suas razões. Carta que (passada a efeméride), há de chegar a reunião do executivo sendo, as razões aduzidas, alvo de acintosas e violentas críticas.
Eis assim, como por milagre, aquele que há algumas semanas atrás era tido como a personalidade de maior relevo do concelho e lídimo representante do mesmo nas respetivas comemorações, convertido, agora, na ovelha negra da família escalabitana de tão elevados valores democráticos.
Lembro-me de isso me ter escandalizado (num tempo em que ainda me escandalizava) com toda esta situação. E, face ao atroador silêncio público (muitos, inclusive, provavelmente com medo de serem acusados de reacionários) resolvi expressar, num artigo de opinião, publicado no C. R. , a minha opinião sobre o assunto.

Afinal, se o 25 de Abril foi feito para alguma coisa, não foi com certeza, para que os outros conquistassem a liberdade de pensar como nós!
Mas, apenas, para que conquistassem a liberdade de pensar.

Tudo isto foi para o Prof Veríssimo Serrão (na altura, já idoso) muito doloroso. Algo que a carta manuscrita que, na altura me enviou, bem exemplificava.

Lembro-me de um homem cujas ideias não estavam em conformidade com as expressões políticas maioritárias na época (o que nem sempre, convenhamos, é negativo) sentindo-se desamparado, só e injustiçado.
Cujos amigos (alguns deles, pelo menos), se afastaram sub-repticiamente. À espera, com certeza, que o pó assentasse.

Esta homenagem do Correio do Ribatejo poderá, assim, constituir uma oportunidade de desagravo (embora já não percebida por quem de direito) e um preito de reconhecimento por parte das forças vivas de Santarém (ou, pelo menos, de parte delas), a uma das suas maiores figuras de sempre.

Alguém que tendo virtudes e defeitos como todos nós, alcançou os mais elevados méritos nacionais e internacionais enquanto historiador e investigador e manteve sempre, por Santarém, uma inequívoca e manifesta devoção.

Pelo vistos, nem sempre devidamente correspondida.

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