A emblemática Praça “Palha Blanco”, em Vila Franca de Xira, carrega na sua memória jornadas de apoteose do toureio, pelo que é sempre esperado um sinal de vitalidade da Festa, mesmo quando parece que nem tudo vai bem no reino da tauromaquia nacional.
Vila Franca de Xira tem uma mística especial, apesar de nem sempre os aficionados vila-franquenses afluírem em massa ao seu belíssimo tauródromo, como era suposto que o fizessem. Não obstante, com mais ou com menos gente nas bancadas, o que acontece na arena de Vila Franca tem uma expressão notável.
Pela Feira de Outubro realizam-se sempre duas grandes corridas, sendo uma mista, que respeita a afición pelo toureio a pé, e outra à portuguesa, onde se exalta essa figura maior do Forcado.
Na impossibilidade de assistirmos à corrida mista deste domingo, tomamos de empréstimo, com a devida vénia, os comentários de Catarina Bexiga, pessoa que muito estimamos e responsável pela página no Facebook “Falar de Toiros” e chefe de redacção da revista “Novo Burladero”.
“Tarde de seriedade. Tarde de compromisso. Para mim, as duas palavras que melhor definem o que se sentiu, ontem [NR, dia 4 de Outubro], na centenária Palha Blanco. E quando assim acontece, todos ficamos a ganhar!
Para o Toureio a Cavalo saíram três grandes toiros (dois sorteados e um sobrero) de Murteira Grave. Três toiros diferentes, mas cada um deles com muitas virtudes. O primeiro teve mobilidade e cadência; o segundo empurrou e transmitiu (merecida a chamada à arena da ganadera); e o terceiro (sobrero), um outro exemplar oriundo da Galeana com muita qualidade. Dos dois Sommer d’Andrade resenhados, ambos com mais de 700 Kg, apenas se lidou um, que embora acompanhasse os cavalos, no momento do ferro esperava e atravessava-se ligeiramente.
Cientes de que estavam na Palha Blanco, Miguel Moura e Tristão Ribeiro Telles “não deixaram os seus créditos por mãos alheias”.
Em ambos do lote, Miguel Moura colocou em prática o mesmo conceito, mas foi com o primeiro toiro de Murteira Grave que conseguiu a sua melhor actuação. Montado no “Juventus”, os ferros resultaram correctos, mas careceram de impacto; e foi nos remates que mais empolgou, ladeando com cingimento, sempre com o toiro cozido ao cavalo junto ao estribo.
Com o de Sommer d’Andrade, Tristão não se sentiu confortável (e teve motivos para isso); mas o destino compensou-o com um grande toiro de Murteira Grave. Montado no “Formigo”, cresceu como toureiro, veio a mais, colocando disposição em tudo o que fez e terminando com dois ferros de muito mérito.
Tarde de superação para os dois Grupos em praça. Pelos Amadores de Montemor-o-Novo pegaram Joel Santos, à segunda tentativa, e José Maria Cortes, à primeira com uma grande ajuda do Cabo António Pena Monteiro. Pelos Amadores de Vila Franca de Xira concretizaram Rodrigo Camilo, com uma grande ajuda do futuro Cabo Rodrigo Dotti, e Miguel Faria, apenas à terceira.
O matador de toiros Daniel Luque mostrou também na Palha Blanco o grande momento que atravessa. Com dois toiros exigentes de Falé Filipe, sobraram capacidades e argumentos para contornar as dificuldades de ambos do seu lote. Sobretudo, no último da tarde, quando poucos acreditavam na faena, Luque assumiu o seu estatuto, insistiu, ampliou as investidas do toiro, impôs-se, e mudou o rumo da história, colocando a Palha Blanco rendida a si.
Tardes assim, sem triunfalismos estéreis, mas de seriedade e compromisso, são tardes que fazem falta!
