A Escola Superior de Educação de Santarém celebra 47 anos a 9 de Novembro, numa fase de crescimento da procura e de preparação de novos cursos. Em entrevista ao Correio do Ribatejo, a directora Ana Loureiro aponta a falta de salas e de docentes como obstáculos à expansão, anuncia novos mestrados para a formação de professores e defende uma escola próxima dos estudantes e da comunidade.
Que balanço faz dos 47 anos da Escola Superior de Educação de Santarém e do seu percurso?
Faço um balanço muito positivo, sobretudo de crescimento. Este ano voltámos a preencher praticamente todas as vagas dos nossos cursos. Sobraram algumas, mas, globalmente, tivemos uma procura muito significativa, desde os cursos técnicos superiores profissionais às restantes formações.
Estamos também a preparar novas ofertas formativas, sobretudo para responder aos desafios que se colocam à formação de professores. Penso que podemos orgulhar-nos do percurso que a Escola tem feito.
Cheguei à Escola em 2007. Embora não tenha acompanhado toda a sua história, já sinto que faço parte desta casa e tenho seguido com muito gosto a sua evolução.
Depois de quatro anos como subdirectora, o que pretende mudar e quais são os desafios mais urgentes?
Este será um mandato de continuidade. Tendo sido subdirectora no mandato anterior, não pretendo fazer nada radicalmente diferente. Temos muitos desafios decorrentes do crescimento da Escola. São, de certa forma, problemas bons, porque resultam do aumento da actividade.
Estamos a preparar novas formações, mas temos um problema significativo de espaços. À sexta-feira, por exemplo, não temos uma única sala livre. Isto dificulta muito a organização dos horários e das turmas. Além disso, já não temos apenas salas de aula tradicionais. Procuramos criar ambientes educativos inovadores, e muitas unidades curriculares exigem laboratórios, salas de informática ou espaços próprios para dinâmicas de grupo.
Precisamos de mais salas, equipadas para esses fins. Cada unidade curricular tem exigências distintas e nem sempre uma sala disponível serve para todas as aulas; esse é um dos grandes problemas quando tentamos organizar os horários. Precisamos de crescer, seja para cima, seja para os lados. Outra possibilidade seria repensar o campus, onde funcionam duas escolas, e criar mais espaços partilhados.
Há também o desafio do corpo docente. Alguns colegas reformam-se e não temos conseguido uma renovação equivalente dos quadros. Precisamos de substituir quem sai e reforçar as equipas. A acreditação dos cursos depende de um corpo docente estável e qualificado nas respectivas áreas científicas. É necessário investir em recursos físicos e humanos.
Como pode a ESES responder à falta de professores? Estão previstos novos cursos?
Temos actualmente três mestrados que conferem habilitação profissional para a docência, além de outros mestrados académicos, destinados nomeadamente a professores que já estão em exercício.
Estamos a preparar novas formações, que pretendemos submeter para acreditação em Dezembro. Entre elas estão mestrados nas áreas do ensino da Informática, do Português, da História e da Geografia, bem como do Inglês e do Português e Inglês. Em conjunto com a Escola Superior de Desporto, trabalhamos também na formação de professores de Educação Física. Esperamos que estas propostas sejam aprovadas. É uma resposta que procuramos dar às necessidades actuais do país em matéria de formação de novos professores.
As formações têm especificidades consoante os ciclos de ensino a que se destinam, mas há áreas comuns que procuramos articular para aproveitar melhor o corpo docente disponível.
Como prepara a Escola os estudantes para a inteligência artificial, sem perder a dimensão humana da educação?
Costumamos dizer que somos uma escola, mas também uma família. Há uma grande proximidade entre professores, estudantes e funcionários não docentes. Não temos hierarquias muito vincadas. Os estudantes sabem que podem procurar os professores ou a direcção. Somos uma escola de portas abertas. Um estudante sabe que pode vir ter connosco, expor uma dificuldade e ser ouvido; essa relação próxima é algo de que não queremos abdicar.
Ao mesmo tempo, procuramos integrar as tecnologias na sala de aula e actualizar os equipamentos. Estamos a substituir progressivamente os projectores por quadros interactivos ou, quando isso não é possível, por ecrãs tácteis, que oferecem outras possibilidades de trabalho. Trata-se não apenas de disponibilizar equipamentos, mas também de criar condições para formas diferentes de ensinar e aprender.
A inteligência artificial exige atenção, mas não a devemos ver como um inimigo. É um aliado, um complemento, desde que seja bem utilizado. Recordo-me de quando surgiu o Google: de repente, tínhamos acesso a um mundo novo de informação e, por vezes, até se escondia que recorríamos a essas pesquisas. Com a IA acontece algo semelhante. Sabemos que os estudantes a utilizam, embora nem sempre o assumam.
Eles precisam de perceber que podem usar estas ferramentas, mas não se limitar a copiar o que produzem. É preciso analisar a informação, identificar possíveis erros e confrontá-la com outras fontes. Falamos de literacia em IA, mas, no fundo, também de literacia da informação e do conhecimento.
Temos de trabalhar o pensamento crítico e a capacidade de análise, tanto com os estudantes como com os docentes. Os nossos professores estão atentos e abordam estas questões nas aulas. A Escola quer acompanhar esta evolução sem perder a proximidade humana que a caracteriza.
Que cursos têm mais procura e onde se concentram as dificuldades de captação de estudantes?
A Educação Social e a intervenção comunitária continuam a ser áreas fortes, com muita procura, tanto na licenciatura como no mestrado. São áreas em que a componente humana é fundamental. Apesar da evolução da tecnologia e da inteligência artificial, esperamos que essa dimensão continue a ser insubstituível.
As áreas ligadas ao digital também têm muita procura, designadamente a licenciatura em Produção Multimédia e o mestrado em Recursos Digitais, além das formações técnicas superiores profissionais nesta área. Temos as turmas preenchidas.
Talvez a área mais fragilizada seja a Educação Ambiental e o Turismo de Natureza, um curso em parceria com as escolas superiores Agrária e de Desporto. Fizemos este ano uma alteração profunda ao plano de estudos e já temos o primeiro ano a funcionar com essa nova estrutura. Ouvimos professores, estudantes e as entidades que recebem os alunos em estágio. Esperamos que a reformulação traga uma dinâmica diferente e reforce a procura. A Educação Ambiental é, neste momento, a nossa área mais frágil, mas acreditamos que as mudanças realizadas podem ajudar a fortalecer o curso.
Nas outras áreas não temos, para já, essa preocupação. A procura funciona por ciclos. Houve alturas em que a formação de professores tinha poucos candidatos; agora a procura é tanta que tivemos de aumentar as vagas. Temos de adaptar a oferta a estas mudanças.
Como avalia a ligação da Escola às instituições da região e de que forma a pretende reforçar?
Os nossos projectos, sejam ou não financiados, envolvem normalmente a comunidade. Procuramos parceiros nos agrupamentos de escolas e nas instituições ligadas às questões sociais. Os estudantes também recorrem muito às entidades locais para os seus estágios.
A excepção mais frequente são os estudantes de Design Digital e Produção Multimédia, que tendem a procurar estágios na zona de Lisboa e arredores. Nas restantes áreas, a ligação regional é muito forte. Trabalhamos com escolas, instituições sociais e outros parceiros que conhecem o território e com quem desenvolvemos actividades regulares. E funciona nos dois sentidos: a comunidade também nos procura para workshops, palestras, seminários e outras actividades.
Gostamos de manter essa abertura, porque sem a comunidade não funcionamos. Precisamos dos nossos parceiros regionais. Embora sejamos agora uma universidade politécnica, conservamos a ligação ao território que tradicionalmente distingue o ensino politécnico. É uma proximidade que, a meu ver, nos diferencia das grandes universidades e que importa preservar.
Quando terminar o mandato, em 2030, que Escola gostaria de deixar?
Quando apresentei a candidatura, insisti muito na necessidade de comunicarmos uns com os outros. Parece simples, mas, por vezes, essa capacidade perde-se. É importante partilharmos problemas, mas também aquilo que corre bem, e procurarmos soluções através do diálogo, antes de reagirmos de formas que criam situações desconfortáveis e não resolvem nada.
Gostava de deixar uma escola humana, onde a partilha, a comunicação e a interacção entre as pessoas se mantivessem e se fortalecessem. Quero que os estudantes terminem aqui o seu percurso com vontade de regressar. Já temos muitos que começam por um curso técnico superior profissional, passam pela licenciatura e voltam para fazer um mestrado. É um bom sinal, porque mostra que continuam a reconhecer valor na formação e na relação que construíram com a Escola.
Gostaria que estudantes, docentes e funcionários não docentes se sentissem em casa. Dizemos que a ESES é uma família e quero preservar essa dimensão. Não se trata de deixar uma marca física ou uma placa com o meu nome. Importa-me o relacionamento entre as pessoas e o seu bem-estar. Temos programas ligados ao sucesso académico e ao bem-estar que devemos continuar a acarinhar. No final dos quatro anos, gostaria de sentir que contribuí para que esta proximidade e esta atenção às pessoas fossem ainda mais fortes.

