Natural do Vale de Santarém, Fátima d’Oliveira encontrou nas palavras uma forma de resistência, de catarse e de afirmação. Autora de Manta de Retalhos, livro de contos publicado pela Cordel D’Prata e em destaque na próxima Feira do Livro de Lisboa, recusa que a ataxia de Friedreich a defina, embora reconheça o peso do estigma que ainda recai sobre quem vive com deficiência. Nesta entrevista, fala das origens, da escrita como território íntimo e da necessidade de uma sociedade verdadeiramente acessível, onde todos possam “aparecer, participar e não cair no esquecimento”.
Nasceu no Vale de Santarém e é a partir desse lugar, físico e afectivo, que também se apresenta ao mundo. Que peso têm as suas origens naquilo que escreve?
As nossas origens e a nossa história influenciam-nos sempre, de uma forma ou de outra — para o bem e para o mal. Aquilo que somos, os lugares de onde vimos e as experiências que acumulamos acabam sempre por encontrar caminho para a escrita.
Diz que é com palavras que constrói os seus sonhos e desenha os seus pesadelos. A escrita começou por ser uma necessidade íntima, uma forma de resistência, ou nasceu sobretudo do prazer de contar histórias?
Costumo dizer que, para mim, escrever funciona, antes de mais, como uma catarse. Também pode ser visto como um mecanismo de defesa, uma espécie de armadura contra o mundo. Mas a escrita nasceu, sobretudo, do prazer de contar histórias.
Manta de Retalhos é o seu novo livro e chega agora aos leitores através da Cordel D’Prata. Que história quis contar nesta obra e que “retalhos” pessoais, emocionais ou ficcionais lhe deram origem?
Manta de Retalhos é um livro de contos. Todos os textos que o compõem — esses “retalhos” — têm, de alguma forma, algo de mim e da minha história. Naturalmente, há contos em que essa ligação é mais evidente. O primeiro, “À noite todos os gatos são pardos”, é um bom exemplo disso. Quem o ler perceberá exactamente porquê.
A Fátima afirma que tem ataxia de Friedreich, mas também sublinha que tenta não deixar que essa condição a defina. Como se encontra esse equilíbrio entre assumir a realidade da doença e recusar que ela seja a medida da sua identidade?
Não tem sido fácil. Nada fácil. Quando olham para mim, a primeira coisa que vêem é a cadeira de rodas. E, para muita gente, isso continua a ser sinónimo de incapacidade total, física e cognitiva. Torna-se muito difícil ultrapassar esse estigma.
Esse equilíbrio passa por assumir a realidade da doença, mas também por recusar que ela seja tudo aquilo que sou. O problema é que esse caminho só será verdadeiramente possível quando existirem condições reais de acessibilidade, para que todos, sem excepção, possam aparecer, participar e não cair no esquecimento.
O livro vai estar em destaque na Feira do Livro de Lisboa, um dos grandes encontros nacionais entre autores, editores e leitores. Que significado tem para si ver a sua escrita chegar a esse espaço?
O significado é enorme. Chegar a uma plataforma como a Feira do Livro de Lisboa, com toda a exposição que representa, faz-me sentir uma mistura de emoções: felicidade, orgulho, humildade, gratidão e até alguma sensação de pequenez perante a dimensão do momento. Estarei eternamente agradecida à editora Cordel D’Prata por acreditar em mim e no meu trabalho.
Um título para o livro da sua vida?
Os cães ladram e a caravana passa.
Viagem?
Gostava muito de ir a Viena, na Áustria.
Música?
É mais fácil dizer o que não aprecio: heavy metal, thrash metal e géneros semelhantes.
Quais os seus hobbies preferidos?
Escrever, claro, ler, ouvir música e ver televisão.
Se pudesse alterar um facto da história qual escolheria?
Mais do que alterar um facto concreto, gostava de apagar da história os movimentos racistas, xenófobos, machistas, autoritários e extremistas, bem como os seus promotores. Todos aqueles que se julgam donos da razão e não admitem quem pensa de forma diferente.
Se um dia tivesse de entrar num filme, que género preferiria?
Comédia. Para dramas, já basta a vida.
O que mais aprecia nas pessoas?
Frontalidade, empatia, tolerância e humanismo.
O que mais detesta nelas?
Hipocrisia, falsidade, arrogância e prepotência.
