Decorreu nos Riachos, na última semana do mês de Julho e no princípio de Agosto, a Festa da Bênção do Gado, no cumprimento de uma tradição antiga que encontra as suas origens na lenda do Senhor Jesus dos Lavradores e que teve natural acolhimento numa comunidade tão intensamente relacionada com a actividade agrícola como é a riachense.

Conta a lenda que numa manhã de Maio, em tempos que remontam aos alvores da nacionalidade, andava um grupo de boieiros com as juntas de bois a lavrar as suas courelas nos campos do Espargal, perto dos Casais de Riachos, quando a certa altura os possantes animais, valorosos auxiliares e companheiros de trabalho dos lavradores riachenses daqueles tempos, ao passarem em determinado local ajoelhavam e, por mais aguilhoados que fossem, negavam-se a puxar o arado.

Curiosos com o comportamento dos animais, os lavradores constataram que a relha do arado empecilhara em qualquer coisa e, recorrendo a enxadas escavaram a terra onde os bois se detinham deparando-se com um túmulo em alvenaria. Pensando terem encontrado algum tesouro, os boieiros levantaram a laje de pedra e, para seu espanto, descobriram uma imagem de madeira. Uma imagem de Jesus Cristo crucificado. De joelhos no chão e mãos erguidas os homens gritaram: Milagre! O espanto deu lugar à fé!

A Imagem, que logo ficou a ser conhecida por Senhor Jesus dos Lavradores, foi cautelosamente retirada do túmulo, limpa e depois levada com grande devoção para o centro do disperso povoado, aonde de imediato acorreram, vindos de todos os casais, os lavradores e famílias que depressa souberam do milagroso achado.

Depois de carregada a Imagem num carro de bois, puxado pela mesma junta que a encontrara, os lavradores enfeitaram o carro com flores do campo e foram depositá-la na Igreja de Santiago, em Torres Novas, por ser então a sede da Freguesia eclesiástica e civil à qual os Casais de Riachos pertenciam.

O facto narrado na Lenda faz parte do imaginário riachense e determinou a fundação da Confraria dos Lavradores, a Festa da Bênção do Gado, a Procissão do Senhor Jesus dos Lavradores, a Irmandade do Menino Deus e a Procissão do Menino Deus, estruturas associativas comunitárias que jamais deixaram extinguir a memória e a devoção cristã. 

A Festa da Bênção do Gado trata-se de uma tradição rural cuja origem se perde na memória dos tempos e revela o traço matricial desta terra, das suas gentes e das suas raízes, realizando-se em honra de S. Silvestre, patrono dos lavradores, dos campos e protector dos animais. No início do século passado, a Festa ainda se realizava quase todos os anos, normalmente antes das colheitas de verão, tendo perdido a sua regularidade a partir da década de 1930, passando a realizar-se apenas em anos de excepção, para celebrar momentos significativos da terra ou quando se juntavam vontades à volta da Sociedade dos Cingeleiros, organização de socorros mútuos dos lavradores e criadores de gado riachenses, e esta entendia ser oportuna a sua realização. Tal aconteceu em 1937, aquando da inauguração da iluminação eléctrica e da Casa do Povo, passando depois a realizar-se mais vezes.

Tal como se realiza em diversas regiões do nosso país, a bênção do gado é uma tradição rural e religiosa em que é pedida a protecção divina para os animais de trabalho, unindo ritos sagrados, desfiles dos animais enfeitados e festas populares. No panteão cristão encontramos vários santos que são considerados protectores dos animais, embora destaquemos apenas alguns dos que são mais vezes referenciados como tal. São os casos de S. Francisco de Assis, São Lázaro, São Roque, Santa Gertrudes de Nivelles, Santo Antão e S. Silvestre. Estas festividades que encontram um grande acolhimento popular nas comunidades agrícolas, reconhecem o papel essencial do gado na agricultura tradicional e nas lides do campo e consagram a devoção religiosa com a identidade das respectivas comunidades.

A constante evolução económica, social e cultural de uma comunidade determina a alteração de costumes e de padrões de vida da respectiva população, pelo que o seu estudo nos permite compreender o fundamento dessas mesmas alterações, e, outrossim, conhecer os processos que lhes estão subjacentes.

A domesticação de animais pelo Homem constituiu um passo deveras significativo na evolução da espécie humana, pois a partir daí, em complementaridade com o início, ainda que incipiente, da agricultura, o Homem se sedentarizou, abandonando progressivamente a fase de caçador e recolector que caracterizava o anterior período de nomadismo.  

O Homem passou a ter o destino nas próprias mãos, pelo que cultivando as terras para daí extrair a base da sua alimentação, e domesticando os animais – uns para o ajudarem no trabalho das terras, outros que criava para a sua alimentação e, finalmente, alguns para lhes fazerem companhia – o seu padrão de vida alterou-se radicalmente, complexificando as práticas sociais a caminho do progresso e do desenvolvimento até aos nossos dias. 

A incerteza e as contrariedades imprevistas destas actividades, aliadas às dimensões espiritual e religiosa que, entretanto, também se desenvolveram no seio das comunidades, fez com que amiúde se invocasse a intercessão de alguma entidade sagrada em quem se tinha fé e devoção.

Como é sabido, a igreja cristã apropriou-se, ou aliou-se, a algumas festividades pagãs para engrandecimento do seu calendário religioso, sendo que em boa medida este tipo de manifestações persistiu envolto num misto religioso e profano, não sendo fácil definir onde acaba uma destas dimensões e onde começa a outra.

Actualmente a Festa é organizada pela Associação Cultural “Bênção do Gado”, para o efeito constituída, e tem mantido uma regularidade de quatro anos, incorporando as principais festividades tradicionais que cruzam com manifestações e eventos da contemporaneidade, cultivando o segredo da perenidade, assente na vivificação da tradição, o que leva ao envolvimento de toda a comunidade, quer ao nível da decoração das ruas e das próprias casas e na participação efusiva nos diversos momentos do programa festivo.

Após a mecanização da agricultura a utilização dos gados é muito reduzida, no entanto quem vive desta actividade não dispensa a sua participação na Festa, desfilando no Cortejo com as alfaias que no presente substituem os animais e, assim, se vai mantendo a espiritualidade da Festa.

Porém, o que é deveras assinalável é que as manifestações mais simbólicas da festividade, nomeadamente a Procissão e o Cortejo, são as que registam mais expressiva adesão e sentimento. Toda a comunidade participa ou assiste a estas manifestações que consagram a própria Festa da Bênção do Gado, num misto de evocação etnográfica e de práticas sociais contemporâneas, sendo apreciável a adesão da juventude, que cultua esta festividade. Voltaremos ao tema um dia destes, pois muito fica ainda por dizer.

 

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