O Dia Nacional da Água assinalou-se esta quinta-feira, 1 de Outubro, num momento em que a gestão dos recursos hídricos enfrenta desafios que vão muito além da disponibilidade de água. Alterações climáticas, períodos de seca mais prolongados, fenómenos extremos, envelhecimento das redes e necessidade de reduzir perdas obrigam a investimentos continuados, enquanto a preservação dos rios e a eficiência dos sistemas de saneamento dependem também dos comportamentos quotidianos. Na região, responsáveis pelas entidades gestoras alertam para uma realidade em que garantir água de qualidade passa tanto pela renovação das infra-estruturas como pela utilização responsável de um recurso que deixou de poder ser encarado como ilimitado.

O calendário ajuda a compreender o significado da data. O Dia Nacional da Água coincide, em Portugal, com o início do novo ano hidrológico, que decorre entre 1 de Outubro e 30 de Setembro. É um novo ciclo de avaliação das reservas superficiais e subterrâneas, da precipitação e da capacidade de recuperação das disponibilidades hídricas depois dos meses habitualmente mais secos.

Mas a discussão em torno da água deixou há muito de se resumir à quantidade que existe nos rios, albufeiras ou aquíferos.

Para Ramiro Matos, presidente do Conselho de Administração da Águas de Santarém, o País entrou num período em que a água já não pode ser encarada como “um bem abundante e garantido”. As alterações climáticas, a irregularidade da precipitação, a sucessão de períodos de seca e a ocorrência de fenómenos extremos colocam, sustenta, uma pressão crescente sobre os recursos disponíveis e sobre as infra-estruturas que garantem o abastecimento e o saneamento.

A questão ganha particular importância num País onde uma parte significativa das redes foi construída há várias décadas. Renovar condutas, modernizar estações de tratamento, aumentar a capacidade de armazenamento ou criar redundância nas origens de abastecimento passaram a integrar uma equação em que segurança hídrica e capacidade de investimento caminham lado a lado.

“Não basta captar, tratar e distribuir água com qualidade”, defende Ramiro Matos, acrescentando que é necessário garantir redes resilientes, reduzir perdas e preparar os sistemas “para uma realidade climática muito diferente daquela para que foram originalmente concebidos”.

Santarém prevê investir 6,6 milhões em 2026

No concelho de Santarém, esse esforço está já traduzido nos números de investimento da empresa municipal.

A Águas de Santarém prevê concluir 2026 com um investimento próximo dos 6,6 milhões de euros, mais do dobro do realizado no ano anterior e um dos maiores volumes dos últimos anos. Entre as intervenções em curso estão trabalhos nos sistemas de saneamento de Abitureiras e a reabilitação da Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) de Pernes.

Desde 2020, segundo os dados avançados por Ramiro Matos, foram aplicados cerca de 25 milhões de euros nas infra-estruturas de abastecimento de água e saneamento do concelho.

A redução das perdas é um dos indicadores apontados pela empresa. Em 2025, as perdas reais de água situaram-se abaixo dos 19%, enquanto a renovação das redes e a digitalização dos sistemas permanecem entre as prioridades.

Nos próximos anos, uma das intervenções de maior dimensão será a futura ETAR de Santarém, estimada em cerca de 13 milhões de euros.

O presidente da empresa municipal considera, contudo, que o volume de investimento necessário coloca outro desafio: encontrar um equilíbrio entre a renovação das infra-estruturas e a acessibilidade económica do serviço.

“A água deve continuar acessível a todos, mas o sector tem igualmente de gerar capacidade para conservar e renovar os activos que pertencem à comunidade”, afirma Ramiro Matos.

Na sua perspectiva, fundos comunitários, eficiência na gestão e uma política tarifária equilibrada terão de fazer parte da resposta. “Adiar investimento não o elimina: apenas o torna mais caro e aumenta o risco de falhas futuras”, acrescenta.

Da rede de abastecimento à rede de saneamento

Mas preservar a água não depende apenas das grandes infra-estruturas.

Na área servida pela Águas do Ribatejo, que abrange os municípios de Almeirim, Alpiarça, Benavente, Chamusca, Coruche, Salvaterra de Magos e Torres Novas, uma parte dos problemas começa dentro das próprias casas.

Todos os dias, os operadores da empresa retiram das entradas das ETAR resíduos que nunca deveriam chegar às redes de saneamento: cotonetes, cabelos, toalhitas, lâminas de barbear e outros objectos.

A empresa insiste por isso numa mensagem aparentemente simples: a sanita não é um caixote do lixo.

À rede de esgotos devem chegar apenas as águas residuais e o papel higiénico. Toalhitas — mesmo as comercializadas como biodegradáveis —, óleos alimentares, produtos químicos, tintas, solventes, fraldas, cotonetes, pensos higiénicos, beatas, embalagens ou outros resíduos sólidos devem seguir os circuitos próprios de recolha.

Sónia Sanfona, presidente do Conselho de Administração da Águas do Ribatejo e presidente da Câmara Municipal de Alpiarça, chama também a atenção para aquilo que acontece no espaço público.

“A rua é a casa de todos e, por isso, temos o dever de cuidar do espaço que partilhamos com os nossos vizinhos e com todos os cidadãos”, afirma.

Os resíduos sólidos lançados nas redes provocam danos nos equipamentos das estações de tratamento, reduzem a eficiência do processo e aumentam os custos de manutenção e reparação. Podem ainda provocar entupimentos, maus odores, inundações e derrames de águas residuais.

E aquilo que desaparece por uma sanita ou por uma sarjeta não desaparece necessariamente do ambiente.

“O mar começa na nossa rua”

É também essa ligação entre os gestos individuais e os sistemas naturais que a Águas do Ribatejo procura transmitir através das acções de educação ambiental que desenvolve nas escolas dos municípios onde opera.

Alunos, professores e assistentes operacionais visitam ETAR e participam em sessões dedicadas ao ciclo urbano da água e à utilização correcta das redes de saneamento.

A mensagem encontra expressão numa frase utilizada numa dessas acções por Lara, uma aluna do 4.º ano de uma escola do concelho de Almeirim: “O mar começa na nossa escola e na nossa rua. O que colocamos na sanita pode acabar nos rios, no mar e nos oceanos, prejudicando a vida aquática e matando os peixes”.

Nas ruas da região, a mesma ideia aparece nas sarjetas pintadas com a expressão “O Mar Começa Aqui”, iniciativa promovida pela Associação Bandeira Azul da Europa.

É um princípio que permite ligar as duas dimensões desta discussão: aquilo que acontece dentro das redes e aquilo que acontece nos rios.

A Águas do Ribatejo aponta a praia fluvial do rio Sorraia, em Coruche, como exemplo dos efeitos que o tratamento adequado das águas residuais pode ter na qualidade dos ecossistemas aquáticos e na utilização pública dos cursos de água.

Um problema que começa antes de abrir a torneira

No Dia Nacional da Água, a imagem mais imediata continua a ser a da torneira aberta. Mas a gestão deste recurso começa muito antes de a água chegar às casas e prolonga-se muito depois de desaparecer pelo ralo.

Entre uma coisa e outra estão captações, reservatórios, quilómetros de condutas, estações elevatórias, redes de saneamento e estações de tratamento que exigem manutenção, energia, tecnologia e investimento.

Estão também decisões tomadas diariamente por consumidores, empresas, agricultores e entidades públicas.

É por isso que Ramiro Matos fala numa “responsabilidade colectiva”: das entidades gestoras, que devem planear e investir; do Estado, através das políticas públicas e dos mecanismos de financiamento; das actividades económicas, na eficiência da utilização; e dos cidadãos, através do consumo responsável.

 

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