ALMEIRIM – 6ª feira, 18 de Setembro, às 22 horas – Corrida à Portuguesa | Corrida das Vindimas. Cavaleiros: João Salgueiro, Marcos Bastinhas e Luís Pimenta; Forcados: Amadores de Santarém e da Chamusca; Ganadarias: Veiga Teixeira (3 – 480 Kgs; 4 – 485 kgs; 6 – 460 kgs; e Mata-o-Demo (1 -555 kgs; 2 – 520 kgs; 5 – 490 kgs; Director de Corrida: Marco Cardoso; Médico Veterinário: Dr. José Luís da Cruz; Tempo: Muito Agradável; Entrada de Público: Casa Cheia.
Uma corrida de alternativa é sempre um espectáculo diferente e mais apelativo, pois os bons aficionados gostam de testemunhar alguns dos momentos mais relevantes na carreira de um toureiro, o que lhes permitirá dizer um dia mais tarde que tiveram a sorte de assistir àquela cerimónia tão marcante na vida desse toureiro. Acrescidamente, quando tal acontece numa corrida emblemática do calendário taurino e com um cartel de interesse, como foi o caso, é quase garantia de boa afluência de público. Foi o que aconteceu e, felizmente, tão expressiva presença de público permitiu o encaixe de 62.672,27 euros nos cofres da Misericórdia de Almeirim, onde, certamente, darão tanto jeito.
No início da corrida foi respeitado um minuto de silêncio em memória do jovem forcado Luís Campino, recentemente falecido vítima de doença oncológica.
No centro da arena o prestigiado cavaleiro João Salgueiro concedeu a alternativa ao jovem Luís Pimenta, perante o testemunho de Marcos Bastinhas, e visivelmente emocionado o jovem marialva almeirinense dedicou esta lide a seu pai, a sua irmã, actualmente retirada das arenas, e a um amigo, como sempre acontece nestas circunstâncias. O toiro da alternativa, oriundo da ganadaria de Mata-o-Demo, onde foi baptizado por Patudo, era volumoso, estava bem-apresentado, mas escasso de forças, o que exigiu ao jovem toureiro redobrados cuidados para que o toiro não caísse. E a lide saiu bem, dado que o cavaleiro teve o mérito de adequar terrenos e distâncias e logrou colocar vistosa ferragem, que o respeitável público muito calorosamente aplaudiu. É caso para dizer que Luís Pimenta passou com distinção neste seu importante exame.
Frente ao último toiro da corrida, este da ganadaria de Veiga Teixeira, toiro que transmitia mais emoção, Luís Pimenta entendeu bem o que devia fazer e limitou-se a fazê-lo. Com respeito pelas regras, com gosto e com graciosidade, Luís Pimenta rubricou uma agradável lide que teve o condão de confirmar a potencialidade já evidenciada no que leva da sua ainda curta carreira. Em regra, citou de frente e de largo, quarteou-se na cara do toiro e cravou a ferragem em sortes vistosas, bem rematadas e muito aplaudidas. Parabéns!
João Salgueiro é um caso na actualidade, pois regressou às arenas depois de uns anos de interregno e está apostado em manter a sua atitude de seriedade e de respeito pela sua profissão. Não cede a populismos, não abdica dos seus preceitos técnicos e artísticos e supera as dificuldades com que se veja confrontado com muita competência. É caso para dizer que toureiros assim fazem sempre falta nas nossas arenas.
Em ambos os toiros que enfrentou, João Salgueiro teve o grande mérito de os saber lidar. A naturalidade dos cites frontais, a concessão da primazia de investida dada ao toiro, a viagem recta à cara do toiro e o quarteio em terrenos do máximo compromisso é algo que se vai vendo com raridade nas nossas arenas e depois a certeira colocação da ferragem e o acerto nos remates de cada sorte constituem a cereja no topo do bolo. Embora todos os cavaleiros saibam que estes são os pressupostos do toureio marialva, poucos são os que os cumprem a preceito, cedendo facilmente às atitudes “espectaculares”, pouco consentâneas com este conceito fundamental do toureio equestre.
Um toureiro como João Salgueiro está quase sempre bem, porque interpreta na plenitude o conceito técnico do toureio, porém, quando sai o toiro que lhe permite empolgar-se e arriscar ainda mais, o sucesso é garantido. E nós, aficionados ao toureio equestre, só temos de lhe agradecer pelo que faz tão bem. A lide do toiro de Mata-o-Demo foi boa, no entanto a que rubricou frente ao bom toiro de Veiga Teixeira foi magistral. Obrigado!
Marcos Bastinhas é também um caso no panorama taurino português. O toureiro elvense carrega nos seus ombros a responsabilidade do apelido que lhe deu seu pai, Joaquim Bastinhas, cavaleiro sempre lembrado, como pessoa e como toureiro. No entanto, Marcos preserva na sua tauromaquia algumas atitudes excessivas em relação ao que vimos Joaquim Bastinhas fazer nas arenas. A sua expressão alegre e bem-disposta, o dinamismo que emprestava à sua brega e a vivacidade com que colocava a ferragem da ordem e os ferros de apoteose eram algo de único, como também era singular a espontaneidade com que ajustava as rédeas para a colocação dos pares de bandarilhas, ou o movimento de saltar da montada quando culminava a sua lide. Joaquim Bastinhas fazia tudo isto com originalidade, com simpatia, com alegria e numa perfeita interacção com o público, que o idolatrava.
Marcos Bastinhas, com o devido respeito que tenho por si, não consegue fazer isto com a espontaneidade que caracterizava seu pai. O que faz, a par de algum toureio muito bom, porque convém notar que o marialva elvense sabe tourear e está muito bem montado, soa a cópia, sai esforçado, sem alegria e o seu ar circunspecto não o beneficia muito. E para mim, que aprecio sobremaneira o toureio na sua expressão mais clássica, sem rejeitar os adornos que esteticamente tanto o valorizam, tenho dificuldade em aplaudir gostosamente as suas actuações, que, repito-me, têm momentos de boa qualidade. Foi assim em Almeirim e o público aplaudiu e gostou… Quem sou eu para dizer o contrário? Mas, tenho de ser sincero comigo próprio!
Nesta noite tão especial as pegas estiveram confiadas a dois valorosos Grupos de Forcados: os Amadores de Santarém e os Amadores da Chamusca, capitaneados, respectivamente, por Francisco Graciosa e por Diogo Marques. A noite não se antevia muito difícil, mas, porém, acabou por ser afanosa para ambos os Grupos.
Pelos Amadores escalabitanos foram solistas Manuel Campos, que apenas consumou a sua sorte ao terceiro intento, com as ajudas já um pouco mais carregadas, Manuel Ribeiro de Almeida, que se fechou à primeira tentativa, e Francisco Cabaço, que consumou a sua sorte à segunda, como muito mérito. Pelos Amadores chamusquenses foram à cara do toiro Diogo Marques, que foi desfeiteado em duas tentativas, tendo de recolher à enfermaria, sendo dobrado por Francisco Rocha, que logrou consumar a pega na sua primeira tentativa, Miguel Santos, que após duas tentativas também teve de recolher à enfermaria, tendo sido dobrado por Bernardo Galinha, que se fechou bem num único intento, e Mauro Camacho, que consumou vistosa pega à primeira tentativa.
Bom labor das quadrilhas e dos campinos e direcção atenta e correcta de Marco Cardoso, assessorado pelo Dr. José Luís da Cruz. Enfim, uma noite bem passada. Para o ano haverá mais.
