A Página Policial, da responsabilidade da agora reactivada Tertúlia Policial Ribatejana, está de regresso ao Correio do Ribatejo, 64 anos depois da primeira série ter sido levada à estampa, entre Novembro de 1962 e 1 de Maio de 1964.
A página regressa já na próxima edição, de 2 de Outubro de 2026 (Página 31).
A Tertúlia Policial Ribatejana, percursora de muitas outras que surgiram no país, foi criada em 1962 por Lima Rodrigues (já falecido), Domingos Cabral, Celestino Santos, Ramiro Pires, Oliveira Beja e Mário Rodrigues.
Há 64 anos a sua publicação era quinzenal, não tendo tido uma mais longa existência por alguns dos seus fundadores terem ido para a Guerra do Ultramar.
Nova ‘Página Policial’ voltou a marcar presença nas páginas do Correio do Ribatejo, em 2011, então da responsabilidade de Domingos Cabral, que a manteve, semanal, durante cerca de uma década.
Neste momento a Tertúlia Policial Ribatejana tem cinco membros efectivos, mas segundo Domingos Cabral “há mais em perspectiva”.
Domingos Cabral, Fátima Correia, António Serra, Celestino Santos e Eduardo Bento são os policiaristas fundadores desta nova série e seus colaboradores principais.
Da Tertúlia podem fazer parte todas as pessoas que estejam interessadas no tema, “minimamente conhecedoras do que é o policiarismo”, informou Domingos Cabral que assegura que a modalidade continua a “agradar a muita gente”.
“O policiarismo, o descobrir, hoje em dia conheceu uma derivação, digamos assim. Deixou de estar muito nos jornais e nas revistas como estava, deixou de surgir em papel para aparecer em blogs. Neste momento, há quatro ou cinco, alguns com dimensão e uma audiência muito grande. É o caso do Blog do Luís Rodrigues que vai a caminho dos três milhões de visualizações. Tem um outro, de um antigo dirigente teatral, o Inspector Boavida, que dirige o Blog ‘Local do Crime’. Domingos Cabral lamenta o facto de haver já “poucos jornais ou revistas em papel a apoiar o policiarismo, sendo o Correio do Ribatejo uma grata excepção”, assinala.
“Jornais como o Público e a Revista Sábado apoiaram o tema, chegou a ser comemorado o número mil da Página Policial do Público, na cidade de Santarém. Depois o jornal terminou com a página e Luís Pessoa levou-a para a revista Sábado”, recorda.
É intenção da Tertúlia, a partir de Janeiro, ter uma página na internet para chegar a outros públicos, sobretudo mais jovens.
Domingos Cabral está ligado ao policiarismo desde Março de 1957.
O policiarismo começou por ser um passatempo de juventude: “Eu lia o Mundo de Aventuras que a minha mãe comprava para me estimular à leitura. E eu via que no Mundo de Aventuras havia uma página de um credenciado policiarista, natural da Chamusca, o ‘Sete de Espadas’, e que tinha uma apetência e uma qualidade para cativar os jovens”.
O Mestre ‘Sete de Espadas’, Manuel José Tharuga Lattas, foi um dos grandes impulsionadores do policiarismo no País. Chamavam-lhe o Avó Alpe da Literatura Policial.
“Em Março de 1957, um policiarista que ainda hoje está no activo, com 91 anos, João Artur Mamede, com o pseudónimo ‘Jartur’, iniciou a publicação de uma secção denominada ‘O Gosto do Mistério’, na revista Flama. Por acaso, com 15 anos de idade, não era muito comprador da revista Flama, mas naquela semana comprei-a e concorri aos desafios que lá eram lançados dentro do tema”, recordou.
Hoje, Domingos Cabral, o “Inspector Aranha”, integra o ‘clube’ restrito de campeões nacionais, de que também fazem parte Fátima Correia (ambos na modalidade de decifração), Tharuga Lattas “Sete de Espadas”, M. Constantino “MC/Mário Campino” (na Produção), todos ribatejanos, colocando esta Província como uma das províncias mais destacadas em títulos no policiarismo.
Solucionismo e Produção
O policiarismo tem duas vertentes fundamentais: o solucionismo e a produção. solucionismo é a decifração dos problemas que são publicados. A Produção é quem produz esses mesmos problemas.
“Essas duas vertentes são as principais. Depois, há uma outra, que Manuel Constantino, de Almeirim, já falecido, e que foi o maior policiarista português nessa vertente, que são os ensaios, os estudos, as crónicas, as bibliografias, as efemérides, que é a menos praticada porque carece de mais conhecimento e capacidade”, explica Domingos Cabral.
“O solucionismo, qualquer pessoa pode tentar, até porque há problemas muito simples, como aqueles que nós fazemos aqui. Para início, tem de ser muito simples. E há aqueles ‘bicos de obra’ que implicam horas e horas de pesquisa.
O solucionismo tem para mim uma grande vantagem: obriga as pessoas a ler, a raciocinar, a pesquisar e a escrever”, nota.
“Quanto a mim, esta actividade é um passatempo com índices de qualidade cultural bastante acentuados, precisamente por isto. Nós, por vezes, passamos horas a fio a pesquisar nas bibliotecas, na internet, em enciclopédias”, salienta Domingos Cabral.
“Há indivíduos que são produtores há muito tempo e que têm uma qualidade excepcional, como tinha o Manuel Constantino, de Almeirim, com livros publicados, mais de cem problemas e alguns de uma enorme dureza e dificuldade que nos obrigam não só a pesquisar muito, como também a escrever muito”, admite.
A página policial que o Correio do Ribatejo vai reatar na próxima edição (2 de Outubro de 2026) vai conter, segundo Domingos Cabral “um bocadinho de tudo, porque hoje, embora ainda haja muitos, há menos solucionistas”.
Os primeiros problemas que serão publicados serão mais simples, para tentar captar e não afastar os leitores, procurando-se ainda diversidade nos temas.
“Procuraremos ter, pelo menos numa primeira fase, nestes primeiros meses, sempre um problema e um conto de preferência de autores ribatejanos.
JPN
