O dia começou cedo no Centro Cultural e Recreativo das Fontaínhas e Graínho. Este sábado cumpriu-se a tradição que já vai na décima quarta edição: o ‘Almoço dos Amigos do Mangusto’, promovido pelos componentes do Rancho Folclórico do Bairro de Santarém, Fontaínhas e Graínho.
São distribuídas tarefas a quase todos os elementos do Grupo, desde cozinhar, preparar a sala e servir o almoço a quase duas centenas de comensais que esgotam habitualmente a sala de ensaios do Rancho.
Este ano, o grelhador foi entregue ao Ricardo, ao Jorge Campos e ao Jorge Luís, a quem coube a tarefa de grelhar 45 quilos de bacalhau cortado em postas generosas, em comprimento e altura.
“Passa-se um pano ensopado em azeite pelas postas para que não agarrem à grelha”, explica Jorge Luís.
Ao lado de dois grelhadores enormes, está outro, bem mais pequeno, mas não menos importante para o convívio que começa bem antes do anunciado almoço. Serve para grelhar “as entradas” que dão as boas vindas a quem vai chegando propositadamente antes da hora do almoço para “preparar os estômagos” para o que aí vem: o “prato de consistência” que é servido no salão.
“O objectivo deste evento é reunir os amigos e preservar este prato tradicional bem ribatejano. Não é chegar aqui almoçar e ir embora, temos aqui um encontro de manhã para quem vem mais cedo, onde se grelham tripas, mantas de toucinho, fígado, petingas, enquanto os homens de serviço ao bacalhau o grelham. Vamos convivendo e conversando”, explica Jorge Luís Oliveira enquanto vira uma das enormes postas que cobriam o grelhador.
O São Pedro ajudou à festa e duas horas antes da uma da tarde – hora marcada para o prato principal – já a zona das grelhas estava bem animada, não faltando a água pé e outros néctares que regavam as entradas. Revêem-se amigos e põe-se a conversa em dia.
Mas há quem não tenha tempo para grandes petiscarias e, noutro local, na cozinha, já Hélder Lourenço recebia os 30 pães de trigo e os 15 pães de milho cortados em pedaços que se iriam juntar a três caixas de folhas de “couve da regadeira”, dez quilos de batatas, um quilo de alho e a cerca de cinco litros de azeite.
Um trabalho que Hélder Lourenço cumpre com preceito com o inestimável contributo da Rosa, da Sónia, Anabela, Conceição, Maria do Carmo, Maria do Rosário e da avó Belinha que só pararam para pousar para a foto…
“Juntamos aqui cerca de duzentas pessoas amigas do mangusto e esta é uma tradição que mantemos para preservar este prato tradicional da nossa terra”, explicou ao Correio do Ribatejo Hélder Lourenço a quem cabe habitualmente “juntar as peças” deste prato bem tradicional e apreciado.
“Faço o mangusto da maneira como a minha avó e a minha mãe faziam. Põe-se a cozer em água, com um pouco de sal, a batata, couve partida a murro e alho. No fim de estar tudo bem cozido é junto o pão e amassado, junta-se depois o azeite e o alho picado, levanta fervura e está pronto para ir para a mesa”, revela.
O habitual giribalde, espécie de colher de madeira utilizada para amassar quando o tacho é mais pequeno foi, desta vez, substituída por um “pé de chibo”, pronto a cumprir a missão de amassar quantidades bem mais generosas para as quase duas centenas de comensais que aguardavam.
No bar, Anabela e a Avó Belinha preparavam para entrada (mais uma!) uns ovos com farinheira que se deixaram comer com muito agrado, já sentados à grande mesa do almoço. Noutra mesa ao lado, desfiava-se o bacalhau de lasca para poder ser servido à mesa em travessas.
O Mangusto – não confundir com o magusto das castanhas assadas – é um prato bem tradicional no Ribatejo, também chamado couve a murro, é feito à base de couve portuguesa bem esmurrada à mão, batatas, alho, pão de trigo e pão de milho, tudo cozido e bem misturado com azeite. Serve-se normalmente acompanhado de bacalhau assado, ou de sardinha assada.
No convívio anual dos Amigos do Mangusto a sobremesa foi arroz doce, também ele feito na casa.
Normalmente a festa dura até à noite e não faltam as castanhas assadas para os mais resistentes e a atribuição da sempre muito disputada “camisola amarela” a quem se excede nas provas da água-pé e dos vinhos, tinto ou branco, ou nas bebidas mais espirituosas que ajudam à digestão de um almoço que para muitos começa logo manhã cedo.
Este ano, pela décima quarta vez, voltou a cumprir-se a tradição.
E porque a animação não pára no Centro Cultural das Fontaínhas e Graínho, anuncia-se já para a noite do próximo sábado, dia 14, uma Grande Noite de Fados. JPN






