Numa geração que nem sempre se revê no fado, Gabriel Raposo destaca-se pela entrega à guitarra portuguesa e pela vontade de renovar as tradições. Entre as actuações no Grupo Académico de Danças Ribatejanas e os concertos ao vivo da sua banda ‘Alma Ribatejana’, o jovem de 16 anos tem a determinação de se tornar um guitarrista profissional. 

Em entrevista ao Correio do Ribatejo, Gabriel Raposo conta-nos como a guitarra portuguesa passou de um hobbie a um plano de vida. 

Como é que a guitarra portuguesa entrou na tua vida e percebeste que seria mais do que um simples hobbie?

Comecei na música muito pequeno, na loja ‘O Piano’, na Calçada do Monte, onde tive algumas aulas de viola. Quando entrei para o ensino básico, surgiu a oportunidade de me inscrever no conservatório. Devido à pandemia, deram-me três opções de instrumentos: o acordeão, por causa da ligação ao folclore, o piano, que sempre achei um instrumento muito bonito e a guitarra portuguesa, por indicação dos meus pais. Eles achavam que o som era óptimo e que eu teria jeito para a tocar. Fiz uma prova por videoconferência e os professores consideraram que eu me encaixava melhor na guitarra portuguesa. Desde então, a paixão por este instrumento foi crescendo a cada aula. 

O que significa para ti integrar uma instituição com a história e tradição do Grupo Académico de Danças Ribatejanas? 

Desde os 3 ou 4 anos que iniciei no grupo por vontade própria. Fui crescendo e o Ludgero Mendes, director do grupo, achou que já estava um pouco crescido para o Grupo Infantil e convidou-me para dançar no Grupo Académico. Gosto muito de dançar folclore. Os meus pais já integram o grupo desde pequenos e conheceram-se lá. Fui ganhando o gosto e já estou lá há tanto tempo que não penso em sair. 

De que forma os estudos no Conservatório de Santarém têm influenciado a tua técnica e forma de tocar?

No Conservatório, percebi que a guitarra portuguesa é um instrumento muito procurado, mas é raro encontrar um jovem a tocá-lo. Aprendi a base da música com a guitarra portuguesa e fui descobrindo alguns elementos dela que eu nem sequer conhecia e que me fui apaixonando por eles. 

Porque é que achas que é um instrumento que tem pouca procura pelos jovens?

Devido ao facto de ter pouca divulgação, de já ser um instrumento antigo e pouco relacionado aos jovens, com música que não lhes agrada muito. A maioria não gosta muito de fado e do estilo de música que a guitarra portuguesa integra, o que faz com que não seja muito procurada pelos jovens enquanto instrumento.

Defines-te como um seguidor da escola de Lisboa ou Coimbra, ou procuras criar uma sonoridade própria que fuja a essa divisão?

A guitarra portuguesa tem duas variações, a de Lisboa e a de Coimbra, que se distinguem pela afinação e forma. Eu prefiro a guitarra de Lisboa por ter um som mais vivo e alegre. Pela própria guitarra ser mais bonita, por ter o caracol na cabeça e o corpo mais largo. O som da guitarra de Coimbra já é um pouco mais abafado, mais melancólico, o que torna as músicas um pouco mais tristes. A guitarra de Lisboa é o fado alegre, é o que eu gosto mesmo de tocar.

Integras também a banda Alma Ribatejana. O que é que define a “alma” deste projecto e de que forma a tua guitarra ajuda a construir a identidade da banda?

Este projecto começou quando eu conheci o Zair na Orquestra Típica Scalabitana. Fomos fazendo amizade, gostávamos de tocar juntos e decidimos começar um conjunto chamado ‘Alma Ribatejana’. Já tivemos um concerto de estreia, no Verdelho, e temos muito gosto em ter esta banda, porque nos permite escolher entre fado e músicas típicas ribatejanas. 

E correu bem?

Foi óptimo. Foi um bocadinho em cima da hora, mas mesmo assim conseguimos preparar algumas músicas e correu muito bem. Conseguimos aproveitar aquele momento e divertirmo-nos, que é o principal de tudo. 

De que forma a tua entrega em palco se transforma quando passas do folclore das danças ribatejanas para a energia de um concerto ao vivo? São dinâmicas muito diferentes?

É um pouco diferente, até porque quando estou a tocar com o Grupo de Danças Ribatejanas, estou a tocar com o grupo a dançar e tenho de ter atenção ao ritmo deles e ao ritmo do resto da orquestra. Na minha banda estamos ali à vontade, tocamos apenas os dois, como nós preferimos.

Com um currículo diversificado, qual é o caminho que queres seguir enquanto guitarrista? 

Eu espero ser guitarrista profissional, ganhar dinheiro com a guitarra, aproveitar, fazer a minha banda crescer e continuar os projectos em que estou, seja o grupo da Académico de Danças Ribatejanas, a Orquestra Típica Scalabitana e o Conservatório até ao fim do secundário.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Leia também...

“A escrita é a marca de alguém”

Joana Zambujo de Oliveira, jovem de 18 anos, é natural de Rio Maior e vê um dos seus grandes sonhos tornado realidade, a publicação…

“A nossa sociedade não está preparada para ouvir o árbitro dizer que tomou esta ou aquela decisão”

Jorge Maia foi árbitro durante 22 anos e desde 2016 que é o Presidente do Conselho de Arbitragem (CA) da Associação de Futebol de…

“Os jovens voltaram a ver o União como solução para jogar futebol”

A União Desportiva de Santarém (UDS) nasceu da fusão dos Leões de Santarém e do Operário em 1969. Militou na 2ª Divisão, com grandes…

“A restauração em Santarém está em grande forma”

O restaurante OH! Vargas, na Portela das Padeiras, em Santarém, faz parte da história da restauração da cidade. Manuel Vargas cresceu no restaurante com…