A Câmara de Coruche aprovou um contrato de comodato com os herdeiros de Gonçalo Ribeiro Telles para acolher a biblioteca e espólio bibliográfico do arquiteto paisagista, constituído por cerca de 4.000 exemplares, anunciou esta quinta-feira a vereadora da Cultura.
Em declarações à Lusa, a vereadora com o pelouro da Cultura, Susana Cruz, afirmou que a instalação do acervo em Coruche tem “um enorme significado” para o município, devido à ligação familiar e afetiva que Gonçalo Ribeiro Telles mantinha com o concelho.
Segundo a autarca, o espólio reúne cerca de 4.000 exemplares, entre livros, publicações, jornais e outros documentos, abrangendo áreas como arquitetura, arquitetura paisagista, urbanismo, ordenamento do território, história, arqueologia, ecologia e agricultura.
“O acolhimento do seu espólio reveste-se de um enorme significado”, afirmou, salientando a relação do arquiteto com temas ligados ao montado e à cortiça, elementos marcantes do território coruchense.
A vereadora considera tratar-se de um património de elevado “valor histórico, científico e cultural”, cujo objetivo é preservar a coleção de acordo com a vontade manifestada em vida por Gonçalo Ribeiro Telles.
De acordo com Susana Cruz, o espólio ficará instalado no primeiro andar do edifício onde funciona a Biblioteca Municipal de Coruche, um espaço que será alvo de obras de requalificação e adaptação para garantir as condições necessárias à preservação da coleção.
“Vamos ter que fazer uma intervenção neste edifício, não só obras de recuperação, mas de adaptação para podermos acolher da forma mais digna e de acordo com os normativos um espólio desta natureza”, explicou.
A autarquia prevê um prazo de cerca de 15 meses para concluir os trabalhos e proceder à instalação do acervo.
Para a vereadora, a coleção e espólio do arquiteto poderá afirmar Coruche como um polo “de estudo e investigação nas áreas ligadas à arquitetura, ao urbanismo e ao ordenamento do território”, atraindo investigadores e estudiosos interessados na obra e pensamento de Gonçalo Ribeiro Teles.
A escolha de Coruche para acolher a biblioteca está ligada à forte relação familiar do arquiteto com o concelho.
Segundo Susana Cruz, a família mantém uma residência no centro histórico da vila e o arquiteto frequentava regularmente o território, onde passava períodos de férias e “desenvolveu uma ligação próxima à comunidade local”.
A autarca considerou que essa ligação foi determinante para a decisão dos herdeiros de confiar ao município a guarda do património bibliográfico.
Durante a discussão da proposta, na última reunião camarária, o vereador Dionísio Mendes, do movimento Volta Coruche, manifestou dúvidas quanto à capacidade do primeiro piso do edifício para receber a totalidade do espólio, defendendo que a autarquia deverá avaliar a resistência estrutural do espaço e a suficiência da área disponível para acolher a coleção.
De acordo com o presidente do executivo, Nuno Azevedo, os serviços municipais atualmente sediados nesse espaço serão transferidos para outro local.
O autarca adiantou ainda que a professora da Universidade de Coimbra Maria João Fonseca, apontada como uma das maiores especialistas na obra de Gonçalo Ribeiro Telles, está a colaborar no processo de instalação do espólio, explicando que cerca de 60% da coleção já se encontra catalogada, num trabalho desenvolvido por aquela investigadora.
Gonçalo Ribeiro Telles, que morreu em novembro de 2020, aos 98 anos, foi uma das figuras mais marcantes do urbanismo, do ordenamento do território e da defesa do ambiente em Portugal.
Arquiteto paisagista de formação, exerceu funções governativas na área do Ambiente após o 25 de Abril, tendo sido responsável pela criação de instrumentos como a Reserva Agrícola Nacional (RAN) e a Reserva Ecológica Nacional (REN).
Entre as obras mais conhecidas da sua carreira destaca-se o Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, desenvolvido com António Viana Barreto.
