A comemoração dos 470 anos da fundação do primeiro Convento Arrábido de Vale de Figueira foi sabiamente aproveitada pelo amigo e investigador José Vicente Gaspar para trazer à freguesia o IV Encontro da Província de Santa Maria da Arrábida. Coube ao Centro de Bem Estar Social de Vale de Figueira a organização desta edição, numa iniciativa em que a instituição, mais uma vez, abriu as suas portas à comunidade e se afirmou como espaço de encontro, partilha e valorização da história e do património local.

O Encontro decorreu nos passados dias 19 e 20 de setembro, com uma participação muito significativa e num ambiente marcado pelo interesse, entusiasmo e vontade de conhecer melhor um património que faz parte da história de Vale de Figueira e de Portugal.

Tudo foi preparado com o maior cuidado para o sucesso de um evento desta natureza.

O logótipo do IV Encontro inspirou-se num elemento artístico proveniente do antigo Convento de Santa Maria de Jesus de Vale de Figueira: a representação de um pássaro num azulejo setecentista, hoje preservado na Igreja Matriz. Para este Encontro, essa imagem foi recuperada e simbolicamente associada à antiga lenda do “Rouxinol das Vinhas”, transmitida oralmente pelas gerações mais antigas de Vale de Figueira. Deste modo, o pássaro do antigo convento ganhou uma nova leitura, unindo num mesmo símbolo o património material, a memória popular e a identidade da terra.

Conta-se que, numa madrugada distante, quando a terra ainda respirava o frio da noite, um pequeno rouxinol procurou abrigo entre as vinhas que envolviam o convento. Ali adormeceu, embalado pelo perfume das videiras e pela serenidade da noite.

Enquanto dormia, as guias das videiras foram crescendo e envolvendo o seu frágil corpo, até o prenderem entre os ramos. Ao despertar, já não conseguia libertar-se e começou a cantar incessantemente, num chilrear aflito que ecoava pelos campos como um pedido de auxílio.

Nessa madrugada, um frade arrábido do Convento de Santa Maria de Jesus percorria os caminhos das vinhas, como fazia habitualmente antes das primeiras orações. Seguindo o canto, encontrou o pequeno rouxinol preso entre as cepas e, com delicadeza, libertou-o, uma volta de cada vez, devolvendo-lhe a liberdade.

Dizem os mais antigos que, desde esse dia, o rouxinol nunca mais voltou a dormir durante a noite, permanecendo desperto entre as vinhas e cantando até ao romper da aurora, como memória do perigo vivido e da graça de ter sido libertado.

Este episódio recorda o exemplo de São Francisco de Assis, que via em todas as criaturas um reflexo da obra do Criador e cuja relação com as aves ficou eternizada no célebre Sermão aos Pássaros. Para os franciscanos, a natureza era um espaço privilegiado de encontro com Deus, onde cada árvore, cada flor e cada ave convidavam ao silêncio, à humildade e à contemplação.

DIA 19 – COMUNICAÇÕES, INVESTIGAÇÃO E PATRIMÓNIO

A receção dos oradores, convidados e participantes realizou-se na manhã de sábado, dia 19, na Sala da Junta de Freguesia de Vale de Figueira, onde decorreram as comunicações científicas.

A sessão abriu com as palavras de boas-vindas do Presidente da Junta de Freguesia, Rui Vassalo, seguindo-se a intervenção da Dr.ª Cláudia Coutinho, assessora do Presidente da Câmara Municipal de Santarém. Foi igualmente lida uma mensagem do Senhor D. José Traquina, Bispo de Santarém, bem como uma mensagem do Presidente da Direção do Centro de Bem Estar Social de Vale de Figueira.

O programa científico iniciou-se com o Professor Doutor Vítor Serrão, que apresentou a comunicação “Vale de Figueira como ‘Corte na Aldeia’ no Tempo de Camões: o poeta D. Manuel de Portugal e o pintor Fernão Gomes”.

Seguiu-se o Doutor João Miguel Simões, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa/Museu de São Roque, com “A vida de São Pedro de Alcântara (1499–1562), fundador da Província da Arrábida, na Arte: Iconografia e Espiritualidade”.

O Doutor Alexandre Tojal, do Museu da Presidência da República, apresentou “Redescobrir o Conventinho dos Arrábidos no Palácio de Belém: vivências e arquitetura”.

A Professora Doutora Ana Tomé e o Professor Doutor Jesse Rafeiro, do Instituto Superior Técnico/Universidade de Lisboa, trouxeram ao Encontro o trabalho “Captação e Distribuição de Água nos Conventos Arrábidos de Alferrara, Arrábida e Sintra: dos Dados de Campo à Reconstrução Virtual”.

Por motivos pessoais, o Doutor Ruy Ventura, cuja participação estava inicialmente prevista, não pôde estar presente, não tendo sido possível ouvir a sua comunicação.

Após o almoço, os trabalhos prosseguiram com o Tenente-Coronel Fernando Rita, que apresentou “O Convento de Vale de Figueira (da Província da Arrábida) na Ficção Literária”.

Seguiu-se o Doutor Fábio Vicente, da Associação de Municípios da Região de Setúbal, que apresentou a comunicação “A Geologia de Alferrara e a Relação com o Convento dos Capuchos”.

O Doutor José Raimundo Noras apresentou “Entre a Fé e a Morte: o lugar dos Capuchos de Convento a Cemitério: 1595-1835-1865” e, por fim, o Arquiteto José Cid apresentou “Convento de Vale de Figueira – um outro olhar sobre as suas ruínas”.

Cada uma destas apresentações constituiu um valioso contributo histórico, científico e patrimonial, ficando bem patente a riqueza e diversidade das participações reunidas nesta quarta edição.

Durante todo o dia estiveram igualmente patentes duas mostras que enriqueceram o Encontro. A primeira, de carácter bibliográfico, intitulada “Os Arrábidos: História, Conventos e Património”, reuniu livros e publicações de coleções particulares dedicados à história da Província de Santa Maria da Arrábida, aos seus conventos, arquitetura e património. A segunda, “Visualizações da Hidráulica Conventual no Território da Arrábida: Estudos de Caso de Reconstrução Virtual e Impressão 3D”, e a experiência imersiva “Hidden Waters – Uma viagem pelo sistema hidráulico de Alferrara (Setúbal)” apresentaram estudos, modelos e reconstruções virtuais aplicados à compreensão e valorização dos sistemas hidráulicos conventuais do território da Arrábida, desenvolvidos no âmbito das dissertações de mestrado de Catarina Alfama, Eduardo Rella, Patrícia Linhol e Sofia Pereira, mestres em Arquitetura pelo Instituto Superior Técnico.

O primeiro dia terminou com uma visita guiada à Igreja Matriz de Vale de Figueira, orientada pelos irmãos gémeos José Gaspar e Padre Vicente Gaspar, proporcionando aos participantes um contacto mais próximo com o património religioso e artístico da freguesia. A visita assumiu particular significado por se encontrar na Igreja Matriz, fielmente preservada, parte do espólio proveniente do antigo Convento de Santa Maria de Jesus, mantendo viva a ligação entre o templo paroquial e a presença arrábida em Vale de Figueira.

DIA 20 – REGRESSO AOS LUGARES DOS ARRÁBIDOS

Na manhã de domingo, dia 20, realizou-se um dos momentos mais aguardados do programa: a visita aos espaços dos antigos conventos arrábidos de Vale de Figueira.

A visita revestiu-se de particular significado, uma vez que o Encontro assinalava precisamente os 470 anos da fundação do Convento de Santa Maria de Jesus de Vale de Figueira (1556-2026), permitindo aos investigadores e restantes participantes conhecerem in loco os vestígios que ainda subsistem desta importante presença arrábida em Vale de Figueira.

A organização dirigiu um convite aos proprietários dos dois espaços conventuais e às respetivas famílias, considerando fundamental a sua presença e envolvimento num projeto dedicado ao estudo e divulgação destes lugares.

Fica, por isso, um agradecimento muito particular à Dra. Lucília Gaspar, proprietária do espaço do primeiro convento (1556-1627), e ao Sr. Pedro Almeida, proprietário do espaço do segundo convento (1627-1834), pela disponibilidade, confiança e colaboração que permitiram aproximar investigadores, participantes e visitantes destes importantes lugares de memória.

UM ALMOÇO QUE TAMBÉM CONTOU A HISTÓRIA

Ao início da tarde, o grande grupo reuniu-se no Centro de Bem Estar Social de Vale de Figueira para o almoço temático “Arrábidos”, especialmente concebido para encerrar o Encontro num ambiente de convívio e partilha.

À mesa sentaram-se investigadores, académicos, especialistas em património, representantes de diversas instituições e outros participantes da comunidade. Mais do que uma refeição, foi um espaço de encontro e de fortalecimento das relações criadas ao longo dos dois dias.

Mas também à mesa se procurou contar uma história. A ementa foi pensada como uma evocação dos sabores simples da terra e do imaginário conventual arrábido, atribuindo a cada momento da refeição uma designação ligada ao tema do Encontro.

Assim, a entrada, sugestivamente intitulada “São Favas Contadas”, abriu o almoço; seguiu-se a sopa “Da Cerca do Convento”, preparada com produtos da horta; como prato principal chegou “A Mesa dos Arrábidos” e, para terminar, foi servido o “Bolo dos Arrábidos”. No final, não faltou uma pequena “bebida espiritual”, encerrando com humor e simbolismo uma refeição preparada com muito gosto e sabor.

Desta forma, também a gastronomia se tornou parte da experiência do Encontro, recuperando produtos, sabores e memórias e demonstrando que o património pode ser conhecido e vivido através de diferentes sentidos.

Esta diversidade demonstra como aquilo que começou em torno da memória dos conventos arrábidos se tem vindo a transformar num verdadeiro espaço de partilha de conhecimento, investigação, preservação e valorização de um património comum.

À Chef Sofia Baptista ficou o agradecimento público pela criatividade, dedicação e entusiasmo colocados na conceção do almoço temático “Arrábidos”, transformando também a gastronomia numa forma de interpretar, divulgar e dar vida à história. O agradecimento estendeu-se a toda a sua equipa que contribuíram para recriar o ambiente e evocar a memória da comunidade arrábida, dando ainda maior significado a este momento de convívio e partilha.

“CORTE NA ALDEIA” – MÚSICA E POESIA

Terminada a refeição, o grande grupo rumou à Igreja Matriz de Vale de Figueira, onde assistiu a dois dos momentos mais marcantes do Encontro.

A designação “Corte na Aldeia” evocou o ambiente cultural e literário que, no século XVI, se desenvolveu em torno de D. Manuel de Portugal e da sua quinta em Vale de Figueira, associado a algumas das grandes figuras das letras portuguesas do seu tempo. Nomes como Luís de Camões, Frei Agostinho da Cruz, Jerónimo Corte-Real, Diogo Bernardes, Gonçalo Coutinho de Vaqueiros e outros poetas e homens de letras ajudam a compreender a importância deste círculo cultural e a singular ligação de Vale de Figueira ao Renascimento português.

Sob o título “Corte na Aldeia – Música e Poesia”, foram recordados D. Manuel de Portugal, Luís de Camões e Frei Agostinho da Cruz, através da leitura dos seus poemas. José Manuel Rodrigues, Fernando Rita e António Carlos Graça deram corpo e voz a estes poetas, fazendo reviver, por alguns instantes, o ambiente literário e espiritual do século XVI.

Seguiu-se a atuação do Grupo Musical de Vale de Figueira, dirigido pelo Maestro Rui Migueis, num momento de grande significado cultural e emotivo, que encerrou da melhor forma esta viagem pela memória.

UM ENCONTRO CONSTRUÍDO POR MUITAS MÃOS

Terminou assim o IV Encontro da Província de Santa Maria da Arrábida. Um acontecimento desta dimensão, porém, não se constrói sozinho. A sua realização só foi possível graças ao envolvimento de muitas pessoas e instituições que, de diferentes formas, se associaram a estes dois dias de investigação, cultura e partilha.

A organização deixou, por isso, uma palavra de reconhecimento à Câmara Municipal de Santarém, à Junta de Freguesia de Vale de Figueira, à Paróquia de Vale de Figueira, às instituições participantes e parceiras, bem como aos investigadores, oradores, proprietários dos espaços conventuais, professores e alunos de Mestrado em Arquitetura do Instituto Superior Técnico, músicos, colaboradores, trabalhadores e voluntários que contribuíram para a realização do Encontro.

Um agradecimento muito especial foi igualmente dirigido à população de Vale de Figueira, aos participantes e a todos aqueles que visitaram a freguesia nestes dois dias, porque é também através do envolvimento da comunidade que este património permanece conhecido, vivido e transmitido às gerações futuras.

O reconhecimento às instituições que, de diferentes formas, acompanharam, participaram ou colaboraram na construção deste projeto: Museu da Presidência da República; Fundação Oriente; Palácio Nacional de Mafra; Santa Casa da Misericórdia de Lisboa – Museu de São Roque; Associação de Municípios da Região de Setúbal; Instituto Superior Técnico/Universidade de Lisboa; Município de Loures; Município de Almada; Parques de Sintra; Associação de Defesa do Património Ambiental e Cultural de Santa Iria da Azóia; e ARTIS – Instituto de História da Arte.

Houve ainda um momento particularmente simbólico: a passagem do testemunho, representada pela entrega do Cíngulo, à Fundação Oriente, que acolherá, em 2027, o V Encontro da Província de Santa Maria da Arrábida. Um gesto que simbolizou a continuidade deste caminho iniciado em Loures, em 2023, continuado no Barreiro, em 2024, prosseguido em Setúbal, em 2025, e que, este ano, passou por Vale de Figueira.

 

 

 

O ENCONTRO TERMINOU, MAS O TRABALHO CONTINUA

Ficam novos conhecimentos, novas relações entre investigadores, instituições e comunidade, novas perguntas e novos caminhos para percorrer. Fica também reforçada a responsabilidade de continuarmos a conhecer, preservar e valorizar este património singular.

Sob o lema “Memória habitada, património vivido, esperança no futuro”, este IV Encontro procurou demonstrar que o património apenas permanece verdadeiramente vivo quando é conhecido, estudado, vivido e partilhado pela comunidade.

Celebrar os 470 anos do Convento de Santa Maria de Jesus de Vale de Figueira foi celebrar a nossa história, reforçar a identidade do nosso território e renovar a esperança de que esta memória continue viva e seja transmitida às gerações futuras.

Para José Gaspar, vice-presidente do CBESVF e impulsionador da realização desta edição em Vale de Figueira:

“Mais importante do que assinalar os 470 anos do convento foi conseguir trazer novamente vida a esta memória, reunindo em Vale de Figueira investigadores, instituições e, a comunidade. O Encontro terminou, mas ficam novas relações e uma responsabilidade ainda maior de preservar e valorizar este património.”

E uma nova etapa começa agora. Com o apoio da Câmara Municipal de Santarém e da Junta de Freguesia de Vale de Figueira, será preparada a edição do Livro de Atas do IV Encontro, permitindo fixar e divulgar os trabalhos e investigações apresentados em Vale de Figueira.

Vale de Figueira ficou certamente mais rica depois destes dois dias de encontro, conhecimento e partilha.

E terminamos com as palavras do Professor Doutor Vítor Serrão, proferidas em Vale de Figueira:

“Vale de Figueira está no roteiro Camoniano em Portugal… Vale de Figueira está no roteiro dos Conventos Arrábidos em Portugal.”

De pleno direito, diríamos nós.

António Monteiro
Membro da Comissão Organizadora

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