A efeméride do regresso dos icónicos elefantes à igreja de S. João de Alporão – onde permanece instalado o Núcleo Museológico de Arte e Arqueologia do Museu Municipal de Santarém, outrora Museu Arqueológico (popularmente conhecido por “Museu dos Cacos”) sob a direcção de Zeferino Sarmento – fez-me recordar o estranho caso de uma outra besta scalabitana, por sua vez ligada à igreja da Graça, a qual aproveitei, há uns anos, para escrever sobre crítica historiográfica, o que agora encontra oportunidade de ser publicado. Fazê-lo no Correio do Ribatejo foi a minha primeira e única escolha, pois – tendo em conta o assunto, o largo alcance de leitores, bem como a tradição e a qualidade dos seus artigos sobre História e o demais Património Cultural – não podia deixar de o considerar, se não o único, o melhor periódico científico de Santarém. Diz o povo que as piores bestas são as de duas patas. Em todo o caso – por mais experiência que tenha adquirido, com essa estirpe, sobretudo nos últimos dois anos de minha vida – vamos mesmo tratar de um quadrúpede. E a sua história começa assim: “Lembramo-nos ainda de ouvir contar, que fora encontrado também o esqueleto duma cabra, o que causou admiração. O que estaria a fazer ali o esqueleto daquele animal? É bem fácil responder. Estava a confirmar que dentro daquela sepultura jazia Pedro Álvares Cabral. Pois não era o escudo? De prata, duas cabras passantes, sotopostas de vermelho e armadas de negro. Era o móvel do escudo em carne e osso ou melhor em osso, porque a carne desaparecera com os séculos.” [SARMENTO, Zeferino, História e Monumentos de Santarém, Santarém, Câmara Municipal de Santarém, 1993, p. 198 – reedição do texto publicado no Diário de Notícias, de 8 de Setembro de 1911.]
Foi com estas palavras que Zeferino Sarmento deu notícia de um pretenso facto que, se não pode ser considerado inédito (porque inverosímil), será, pelo menos, o mais bizarro de toda a história da Heráldica portuguesa. [Zeferino Pacheco Sarmento da Conceição (1893-1968), a par da formação em Engenharia Electrotécnica e da carreira profissional como chefe da circunscrição técnica dos CTT em Santarém, foi um scalabitano que consagrou a vida à defesa do património cultural da sua cidade, destacando-se, principalmente, como historiador e arqueólogo (numa época em que a ausência de formação específica nestas áreas só podia ser compensada pelo mérito próprio e pelo correspondente reconhecimento da sociedade). Além dos seus muitos estudos (maioritariamente publicados em periódicos e reunidos postumamente em História e Monumentos de Santarém), prestou serviços de valor incalculável à cidade de Santarém, nomeadamente, como membro da Comissão Municipal de Arte e Arqueologia, como Director do Museu Arqueológico e, ainda, como Mesário da Santa Casa da Misericórdia de Santarém e “recuperador” do seu Arquivo Histórico (juntamente com José Ermida, o funcionário que apresentou à Mesa Administrativa e que foi responsável pelo labor da primeira grande organização) – Idem, ibidem, pp. XI-XV.] E para se perceber o que é que aconteceu, realmente, é preciso tornar à leitura do próprio Auto da verificação da existencia dos restos de Pedro Alvares Cabral, cuja redação fez memória à abertura sepulcral solene de 6 de Agosto de 1882, na igreja da Graça do mosteiro de Santo Agostinho de Santarém. A certa altura, diz assim: “E aceitando os referidos facultativos o encargo de fazerem aquella verificação, e passando-se a afastar a pedra sepulchral, appareceu um carneiro amplo de dois metros e quarenta centímetros de comprimento por um metro e vinte centímetros de largo e noventa centímetros de profundo, e no fundo d’elle declaram os peritos que encontraram uma camada de terra, de um a dois centímetros de espessura, e, por debaixo d’esta, as ossadas de três esqueletos distinctos.” [BAÊNA, Visconde de Sanches de, O Descobridor do Brazil. Pedro Álvares Cabral, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1897, p. 138.]
O que aconteceu foi que, decorridos vinte e nove anos da primeira exumação e oito da segunda [Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Gavetas, gav. 16, mç. 4, n.º 14 (Auto da exumação dos ossos de Pedro Álvares Cabral, de 14 de Março de 1903).], Zeferino Sarmento tomou por certa a informação oral de alguém que, se por um lado, teve contacto com a leitura dos autos, por outro, foi alguém que não possuía os mínimos conhecimentos de História de Arte, para não saber distinguir que um “carneiro”, em espaço eclesial, não poderia nunca ser um animal, mas tão somente a designação dada ao local inferior de sepultura de um cadáver. [Ambos nomes comuns com uma semântica ligada a “carne”, só que em sentidos diferentes: o primeiro porque é o animal onde se obtém a carne para comer; o segundo porque é o local onde se depositam as carnes mortas para apodrecer.] Fiou-se, portanto, no que outros disseram, em vez de se apoiar na fonte principal e mais coeva, que era o auto de exumação de 1882 – que, aliás, conhecia bem, o que torna tudo mais estranho – no qual não há qualquer registo do levantamento de ossadas animais. De facto, foi este o processo que fez duma cova um carneiro e, por sua vez, um carneiro passar-se por uma cabra. Mas, atenção, porque esta é apenas a primeira parte de um mau exercício hermenêutico. A segunda é que, como se não bastasse a estranheza dum enterramento animal em espaço sagrado cristão, Zeferino Sarmento aproveita, ainda, para dar a sua interpretação dos factos, estabelecendo, de forma que diz “bem fácil”, a teoria dum ritual de simbolismo heráldico-votivo, consistente na deposição do cadáver duma cabra no contexto fúnebre dum homem baixo-medieval – e, tudo isto, sem que se conhecessem quaisquer paralelos arqueológicos, muito menos, ainda, desta estranha espécie de antropologia (que, não duvidamos, hoje faria as delícias a todos aqueles investigadores que têm predileção por teses mais exóticas).
Deste exercício hermenêutico, sobram, portanto, vários pecados científicos: excesso de crédito às informações de outrem (sejam orais, sejam escritas); manipulação dessas informações de modo conveniente à hipótese; afirmação de hipóteses sem a devida comprovação em fontes. Para não falar do imaginário anedótico do que seria a figura, desproporcional e bizarra, de um carneiro com 2,40m de comprido, por 1,20m de largo, e com apenas 0,90m de altura – ou, aliás, dum “grande cabrão” – se me é permitida a ousadia do divertimento com o meu próprio trabalho, ofício e vocação.
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A presente crítica científica – é preciso esclarecer desde já – não é uma crítica gratuita, muito menos pessoal ou maliciosa, mas tão somente para demonstrar que até os nossos Mestres, do passado ou do presente (porque os mortos também o podem ser, porque connosco comunicam por meio do livro) – usando uma metáfora bíblica – embora revestidos dos nobres metais, que são a sua formação e labor, também acabam, como toda a gente, por ter “pés de barro”. Diria melhor: não de barro, mas pés de carne e osso, como toda a gente. Porque se a formação e o trabalho, por uma questão de abstração e inteligibilidade, têm de ser especializados, então, o historiador só poderá ser “especialista” numa coisa de cada vez, sendo pouco provável que possa reunir em si, simultaneamente, todos os saberes e experiências. Que é o mesmo que dizer, que a linha da sabedoria que divide um grande mestre dum jovem aprendiz pode vir a ser, relativamente, ténue, dependendo daquilo que realmente se trata, em relação com as formações, esperiências, interesses e dedicação, que cada um dos dois trás consigo. Porque somos como “anões sobre os ombros de gigantes” (usando a célebre metáfora medieval sobre o método da hermenêutica), mas até os gigantes, como o colosso de Nabucodonosor, têm pés de barro. E, se assim é, então, em defesa da boa ciência, não há outro remédio senão o da submissão de todos, por igual, a uma crítica científica, recorrente e, por isso, salutar – como, por exemplo, na prática da recensão crítica que, se na segunda metade do século XIX e primeira do XX foi tão valorizada, hoje é coisa que, pelo menos na Historiografia portuguesa, quase não existe. [Esta é uma tentativa de manifesto contra a idolatria de historiadores e da infalibilidade de suas obras, antes de mais, por ser atitude contrária à construção da própria ciência que é, neste caso, a História. Contra a manutenção do tabu e demais obstáculos que continuam a impedir os profissionais da História de assumir a própria profissão de “Historiador”, ao invés de a substituírem pelas mais vagas classificações alternativas, como “Investigador” e “Técnico Superior” (o que é um sarilho quando se trabalha no andar de baixo!). Como tentei explicar acima, a revalorização da recensão crítica poderia vir a ser a solução para metade dos nossos problemas, como classe profissional até. Sim, porque – creio – metade da culpa da falta de reconhecimento da História na sociedade presente é dos seus próprios profissionais, cuja maioria não tem a coragem de assumir quem é e, muito menos, de trabalhar por se associar em corporações representativas de classe profissional.]
Não tenho, por isso, dúvidas do mérito de Zeferino Sarmento, em toda a obra que deixou à cidade de Santarém. Não tenho, sequer, dúvidas de que foi um historiador (segundo os os padrões possíveis da época), porque, em paralelo com a sua profissão, a esse ofício também se dedicou e de forma muito empenhada. Não tenho dúvidas do não-prejuízo do todo pela parte, da sua obra em geral, pelo erro tentador duma dedução abusiva e desargumentada – quando quase todos já o fizemos e o que é preciso é ter a capacidade de não permanecer nessa atitude. Mas, por outro lado, há campos de estudo mais paludosos do que outros e, também, existirão sempre historiadores que preferem atolar-se em hipóteses menos científicas e mais atraentes. Por exemplo, no campo da Etimologia, preciso dizer – com todo o respeito pessoal, dever científico e justiça à “Terra de Liberdade” – que Santarém tem granjeado, nos últimos anos, um já considerável prejuízo científico, no que se refere ao estudo histórico-linguístico da toponímia Antiga e Medieval. [Veja-se MATA, Luís, “O Oriente (tão) próximo. O substrato levantino da cultura imaterial do Tejo”, Revista lusófona de ciência das religiões, nº 21, Lisboa, 2018, pp. 145-188 – onde o autor faz “tábua rasa”, para desvalorizar as “teses tradicionais” (duma maioria toponímica, obviamente, proveniente do Latim) e dos 12 topónimos, que se propõe a estudar, só em 1 acerta (ou, no máximo, 2); e, isto, só porque lhe dá solução etimológica a partir do Árabe (que, do rol de línguas próximo-orientais que utiliza, é a única que sabemos ter tido uma influência efectiva na estruturação da toponímia do nosso país). MATA, Luís, “O «cais» de Santa Iria. Uma reflexão sobre uma velha questão”, Revista lusófona de ciência das religiões, nº 11, Lisboa, 2007, pp. 271-293 – onde, a partir do mesmo método pseudo-etimológico, “O que aqui nos interessa é sublinhar que a lenda de Iria entronca nas características dos cultos de fertilidade e de fecundidade fenícios e cartagineses que se implantaram no ocidente” (p. 274). E, ainda: MATA, Luís, “Mil palavras para um nome. A propósito dos antigos étimos de Santarém”, Santarém, Rumo e Itinerário Histórico – 150 Anos de Cidade, Coordenação de Jorge Custódio e Joaquim Duarte, Santarém, Associação Mais Santarém – Intervenção Cívica, 2020, pp. 8-15.] Na base está uma visão abusivamente orientalizante da história local, regional (e suponho que nacional), a par de um pseudo-método etimológico, fundado pelo sociólogo Moisés Espírito Santo e que, pela sedução da facilidade de manipulação dos resultados à conveniência das hipóteses, acabou por fazer alguma escola em Portugal. [Entre outras publicações, veja-se a principal, SANTO, Moisés Espírito, Dicionário Fenício-Português, 2ª ed., Lisboa, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões – Universidade Nova de Lisboa, 1994. E, logo de seguida, veja-se a recensão-crítica que lhe fez, o maior mestre português de línguas antigas próximo-orientais, falecido neste ano de 2026, RAMOS, José Augusto, “[Recensão a] Moisés Espírito Santo – Dicionário Fenício-Português”, CADMO. Revista do Instituto Oriental da Universidade de Lisboa, ns. 4/5, Lisboa, 1995, pp. 193-197, de quem não resisto a citar a metáfora, de que “Desintegrado esse átomo, explode o seu produto.” (p. 194).]
Diria que outro desses campos, onde a terra é muitas vezes de paul (como nos baixios alagadiços dos campos do vale do Tejo), é o da Heráldica. Porquê? Pela facilidade de interpretações e emissão de opiniões mal-informadas, de reprodução de ideias alheias já consideradas, dentro do meio, como consagradas; em detrimento dum olhar analítico mais atento, dum esforço de questionamento metódico e duma revisão sistemática do conhecimento. [Na maior parte das vezes, o que acontece é como na história que nos contava o Sr. Prof. Jerónimo, quando frequentei o curso profissional de Desenhador Técnico de Construção Civil, na Escola Profissional do Vale do Tejo (Santarém): certo desenhador-copista, que levava tão a sério o seu ofício, ao copiar, para papel vegetal, um levantamento topográfico, junto com as curvas de nível, acabaria por copiar também um fio do próprio cabelo.] Porque, em boa verdade, nem os indivíduos que mais se têm dedicado ao estudo da Heráldica são historiadores, nem os próprios historiadores se têm dedicado suficientemente a este campo de estudos, tão importante para a compreensão da história da Idade Média e para além dela. [Note-se, sem prejuízo da obra e do mestre, como José Mattoso não esteve familiarizado com o conceito basilar de “armas falantes”, o que lhe impossibilita um entendimento das verdadeiras motivações concelhias, na escolha das armas e selos medievais: “Por meio dos símbolos escolhidos, verificamos que a maioria evoca a guerra, confirmando assim o que temos dito sobre a sua influência na génese dos concelhos. Mostra que ela marcou para sempre a memória dos seus habitantes. Com efeito, dos vinte e cinco selos apontados, doze representam castelos ou muralhas, e dois, cavaleiros bem armados. Outros preferem os símbolos da solidariedade, como o de Trancoso, que escolheu a eloquente imagem do pelicano sacrificando a vida pelos filhos. Outros, ainda, como em Sortelha, acentuam o orgulho e a agressividade coletivos pelo símbolo da águia, ou juntam o touro às muralhas, como em Beja. Mas os concelhos das povoações do litoral preferem sinais mais pacíficos, como o, frequente, de uma árvore, que provavelmente pretende significar a organicidade do concelho (Arruda dos Vinhos, Alenquer, Penela, Lourinhã, Azambuja), ou, então, os representativos da relação com o exterior: um barco (Lisboa), ou uma ponte (Chaves e Vouga).” – MATTOSO, José, Identificação de um país. Ensaio sobre as origens de Portugal (1096-1325), Lisboa, Círculo de Leitores, 2015, pp. 449-450.] Aliás, porque existe uma diferença fundamental entre a Genealogia, que é descritiva, e a História, que é explicativa; sendo que a interpretação heráldica continua a fazer-se muito primariamente, entre a genealogia dos indivíduos que fizeram uso, à mera “descrição técnica” do ordenamento dessas mesmas composições. O que proponho, como antídoto, é um exercício diferente: vislumbrar além do aparente e do convencional, estudar significados de forma comparativa e apresentar, sempre, as provas indispensáveis – isto é, as fontes que validam a nossa argumentação.
Posto isto, termino com o propósito de começar a publicar, em datas e nos lugares oportunos, os estudos a que, nestes campos e desde a Era D.C. (entenda-se, “Depois da COVID-19”), me passei a dedicar.
Gustavo Pacheco Pimentel
