Teresa Lopes Moreira, antiga administradora da empresa Verdade das Palavras Comunicação Social, Lda, proprietária deste jornal, completaria hoje 62 anos de idade.

Professora, historiadora e investigadora da história local, Teresa Lopes Moreira nasceu a 23 de Setembro de 1964, tendo falecido a 25 de Abril de 2022.

A empresa Verdade das Palavras, Comunicação Social, Lda recorda-a com profunda saudade, neste seu 62.º Aniversário Natalício que hoje se assinala.

A dedicação de Teresa Lopes Moreira ao Correio do Ribatejo será sempre recordada por todos os que prosseguem esta obra, com a firme intenção de manter vivo um dos mais prestigiados títulos centenários da Imprensa Regional do nosso país.

Nesta hora em que a saudade nos bate à porta, nada melhor do que recordá-la através de um dos seus textos, este publicado neste jornal, em 2007, intitulado “Ser Mulher Eva…”

 

Ser Mulher Eva

Em 1933, Salazar já sabia o que queria e para onde ia desde que lhe obedecessem quando chegasse a altura de mandar. A Constituição desse ano permitia-lhe criar um “homem novo” feito à imagem do Estado Novo.

Às revistas femininas portuguesas como a Eva competia criar a “mulher nova”. Esta devia ser perfeita, bonita, dedicada, humilde, discreta, viver “por amor” e para o amor à família.

A mulher devia cuidar da sua aparência e da sua elegância com o objectivo único de agradar ao homem, seu marido. A “Nympha do Mondego”, o “Azeite Vegetal Perfumado”, “Fedal – A Rainha das Tintas”, o “Tónico Yildiziènne”, o “Komol” garantiam a coloração, o combate à caspa e à queda do cabelo. Tudo em quinze minutos, com dezoito cores à escolha e preços variáveis entre os 17$50 e os 25$00. A Província não era esquecida pois podia receber estes produtos por reembolso. Uma ondulação permanente custava 35$00, uma “mise” 7$00, corte de cabelo 4$00. A permanente tinha garantia de seis meses graças ao aparelho “Super Gália” inventando em 1933. A “manicure”, vulgo tratamento às unhas, custava a módica quantia de 5$00. “Terradi”, a grande novidade científica, representava o elixir da juventude combatendo: “… a sua pele demasiadamente morena ou queimada, os pontos negros, os botões, o acne, a vermelhidão, os vincos, os pés de galinha e as rugas.”.

Paris ditava a moda enquanto a “Casa Africana” vendia os seus modelos em Lisboa e na sucursal do Porto. Os vestidos deviam ser modernos e elegantes. As cores deviam contrastar: saia preta, blusa branca ou blusa preta, saia branca. Os acessórios eram imprescindíveis como a bolsa e os sapatos coincidentes, o chapéu e as luvas. O chapéu devia estar enfeitado com plumas como as da “Esperança Brazão” que “transforma, tinge e concerta peles, feltros e plumas” e que aceita trabalho da Província. As luvas da pele da Suécia eram “… as mais bonitas…”.

Para bem-vestir: “Seja no trajo de passeio ou no de noite, é uma falta de distinção fazer-se notar. Se a vossa elegância for discreta, pode passar sem ser observada, mas se a notarem será para a elogiar; sucedendo o contrário, se vos vestirdes ricamente e com ostentação, as apreciações serão pouco benévolas, com certeza.”.

A mulher devia cuidar da alimentação da família defendendo “a saúde dos seus” com atum “Ramirez” e o poder energético com “ovochocolate Mitzi”. Os filhos deviam ser alimentados com “Bananina” “… porque era o melhor e mais nutritivo alimento vegetal, o mais rico em vitaminas, em fósforo orgânico e em fosfatos assimiláveis – admirável auxiliar do crescimento infantil.”. “Banacáo” fornecia um “magnífico pequeno-almoço”, enquanto “Banaouro” permitia “deliciosos bolos, cremes e doces”. A página de culinária a cargo de Maria Horta apresentava receitas para pratos familiares como: sopa de pão ralado, ovos verdes, arroz de ostras, costeletas à italiana e pastéis de ginjas. Para a digestão “em qualquer lar “o chá “Horniman” e não deite “à rua o dinheiro em beberagens ordinárias”.

À mulher era consagrado o cargo de ser doméstica em sua casa. Nas horas livres costurava, tricotava, fazia crochet, bordava pontos de fantasia para cortinas, toalhinhas de chá e abafadores para o bule. O suplemento da Eva oferecia uma variedade de ideias para que a fada do lar brilhasse nos trabalhos de mãos.

Por amor, as mulheres viviam qualquer sacrifício mesmo que esse sacrifício não representasse o amor. “Por amor” de Aurora Jardim Aranha é bem elucidativo da definição de amor, moral e bons costumes. Há sempre mulheres que morrem de amor e alguns cavalheiros que se arrependem no momento certo. À falta de amor opta-se pelo amor platónico representado no novo galã do cinema de Hollywood, Ramon Novarro, protagonista de Mata-Hari, onde contracenava com a lendária Greta Garbo. Este substituto de Rodolfo Valentino era “o galã sentimental (…) aquele que tem por timbre uma nobreza de alma que poucos possuem e raros excedem (…) É assim este rapaz que anda nas preferências apaixonadas de quantas mulheres o seguem com o pensamento, fazendo dele o seu platónico amado.”

A “caridade” e as “ideias altruístas” eram práticas atribuídas às mulheres com mais recursos económicos. A revista dá a conhecer o “auxílio maternal do pessoal feminino dos hospitais civis de Lisboa” instalado em sede própria com refeitório e dormitório proporcionando “… todos os cuidados, amparo e carinho às crianças que precisam.”.

A mulher podia ser Eva e ser Eva era ser mulher, logo “a mulher pode (…) ser distinta” sendo Eva.

Teresa Lopes Moreira

Março de 2007

 

Nota da autora: Para redigir este texto usou-se exclusivamente a revista semanal Eva, n.º 405, de 11/2/1933. A revista feminina lisboeta era dirigida por Carolina Homem Cristo, sendo o editor Abel Moutinho. O primeiro número desta revista semanal foi publicado em 1925.

 

 

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