Há nomes que acabam por se confundir com a terra onde nasceram. Celestino Graça é um deles. Falar de Santarém, da Feira do Ribatejo, do folclore, das danças e dos trajes da nossa região é, mais cedo ou mais tarde, chegar ao homem que percebeu, muito antes de tantos outros, que preservar a tradição não era guardá-la numa gaveta. Era mostrá-la de diversas formas, nomeadamente, pô-la a dançar. Mas não só.
É esse espírito que regressa a Santarém, de 1 a 6 de setembro, com o 65.º Festival Celestino Graça — A Festa das Artes e das Tradições Populares do Mundo. Durante seis dias, a Casa do Campino será novamente a grande casa de encontro de povos, culturas, músicas, danças e costumes. Mas o Festival sai também à rua, passa pelo centro histórico, pelo Largo do Seminário, pelo W Shopping, por Abrantes e por Almeirim. Como deve ser. O folclore nunca nasceu para viver fechado.
Virão grupos do Brasil, Costa Rica, Grécia, Itália e Lituânia, juntando-se aos portugueses e, naturalmente, aos grupos de Santarém. Haverá dança, gastronomia ribatejana, instrumentos tradicionais, fado, jogos populares e aquele ambiente tão particular em que, por algumas horas, pessoas que não falam a mesma língua parecem compreender-se perfeitamente através de uma música ou de uma dança.
Mas um Festival como este é também feito de pessoas. Das que o criaram e das que, ao longo das décadas, se recusaram a deixá-lo morrer. E é impossível falar dessa continuidade sem aludir ao Ludgero Mendes, discípulo próximo de Celestino Graça e um dos grandes responsáveis por manter viva a sua obra, no Festival, no Grupo Académico de Danças Ribatejanas e no Grupo Infantil de Dança Regional de Santarém. E também Cristina Graça, neta de Celestino, continuando a dedicação da sua mãe, Graça Graça, ao lado de tantos outros colaboradores desinteressados.
Celestino Graça deixou-nos muito mais do que eventos e instituições. Deixou uma certa ideia de Santarém e do Ribatejo. Uma ideia feita de orgulho sem arrogância, de respeito pelas raízes e de curiosidade pelo mundo. Talvez por isso tenha feito tanto sentido trazer o mundo até Santarém.
E há ainda uma coisa que estes encontros nos lembram: a tradição não é uma fotografia antiga nem uma peça de museu. Vive porque alguém a aprende, a ensina e a transmite. Cada criança que veste um traje, cada jovem que entra numa roda, cada família que atravessa a porta da Casa do Campino está, mesmo sem o dizer, a prolongar essa memória coletiva.
Nestes dias, portanto, há um programa para cumprir, mas há sobretudo uma herança para continuar. Vale a pena ir à Casa do Campino. Vale a pena levar os filhos e os netos. Vale a pena ver os grupos estrangeiros, ouvir os nossos instrumentos, provar os nossos sabores e perceber que tradição não é necessariamente passado.
Tradição é aquilo que conseguimos entregar ao futuro.
