Faleceu, em Almeirim, aos 99 anos de idade, o antigo cavaleiro tauromáquico D. Francisco de Mascarenhas, uma das primeiras grandes figuras do toureio equestre nacional. D. Francisco nasceu em Paço D’Arcos, sendo filho do distinto cavaleiro D. Alexandre de Mascarenhas, e tinha apenas oito anos quando se estreou em público, na velha praça de toiros de Almeirim, em 1934, numa corrida dirigida, curiosamente, por seu tio D. José de Mascarenhas, lidando nessa ocasião um novilho da Casa Prudêncio.
D. Francisco de Mascarenhas apresentou-se pela primeira vez em Espanha com apenas 9 anos de idade, vestindo casaca e usando tricórnio, e partilhou cartel com seu pai, D. Alexandre, na emblemática praça de El Puerto de Santa Maria (Cádiz), alternando igualmente nessa tarde com o célebre Manuel Rodriguez “Manolete”, que fazia a sua despedida como novilheiro.
A 6 de Agosto de 1939 D. Francisco de Mascarenhas, então com apenas doze anos de idade, fez a sua estreia em Madrid e a 29 de Agosto de 1945 recebeu a alternativa no Campo Pequeno, apadrinhado por Mestre João Branco Núncio.
D. Francisco de Mascarenhas cultivou um estilo de toureio muito peculiar, primando pelos cites frontais, colocando a ferragem em sortes à tira de frente, e sempre deu provas do seu inexcedível valor e de uma técnica muito apurada, tendo actuado com muita frequência em praças de Portugal, Angola, Espanha, França e México.
Integrou em 16 de Maio de 1954 o cartel inaugural da nova Praça de Toiros de Almeirim, repartindo cartel com Simão da Veiga Júnior, João Branco Núncio e Fernando Salgueiro, a cavalo, e Diamantino Viseu e Jaime Malaver, a pé, frente a um curro de toiros composto pelas ganadarias Pinto Barreiros, João de Assunção Coimbra e Andrade e Irmão. As pegas dos toiros lidados a cavalo foram consumadas pelo Grupo de Forcados Amadores de Santarém, capitaneado por Ricardo Rhodes Sérgio.
Devido ao agravamento da sua visão, D. Francisco de Mascarenhas decidiu retirar-se das arenas em 1956, regressando apenas em ocasiões excepcionais, uma das quais para conceder a alternativa ao cavaleiro José Mestre Batista, na Moita do Ribatejo, em 1958, depois de, estranhamente, este toureiro de eleição ter sido reprovado três meses antes, a 19 de Julho, na Praça do Campo Pequeno. Aliás, a única alternativa reprovada a nível do toureio equestre em Portugal!
D. Francisco de Mascarenhas, reconhecendo as imensas faculdades de José Mestre Batista disponibilizou-se para reaparecer nessa corrida no dia 15 de Setembro de 1958 na Praça de Toiros “Daniel de Nascimento”, na Moita do Ribatejo, e desta feita a alternativa foi aprovada por unanimidade. Em 1962 D. Francisco de Mascarenhas deixou definitivamente de tourear em público, continuando, contudo, a dedicar-se à equitação, arte em que era genial, colaborando com muitos dos cavaleiros portugueses.
Conta-se que numa tarde de toiros em Almeirim, João Branco Núncio apresentou uma quadra de cavalos muito aquém do que lhe era habitual, e do que era exigido para o seu tipo de toureio. D. Francisco de Mascarenhas, que estava muito bem montado, falou com João Núncio, mostrando-lhe os cavalos que tinha para tourear, ao que o Califa de Alcácer comentou que se tivesse à sua disposição uma quadra assim ainda mandaria fazer uma nova casaca.
Despediram-se, João Branco Núncio seguiu para Alcáçovas, onde residia, entretanto, D. Francisco de Mascarenhas ficou a pensar na conversa que ambos tinham mantido, e passado um bocado telefonou-lhe, no entanto João Branco Núncio ainda não tinha chegado a casa. D. Francisco pediu à empregada que o tinha atendido que quando o Patrão chegasse o informasse sobre este telefonema.
Quando chegou, João Branco Núncio recebeu o recado e apressou-se a ligar para D. Francisco de Mascarenhas, que lhe disse para mandar fazer a casaca nova e que passasse por Almeirim para escolher as montadas que precisava. Outros tempos, outra gente!
D. Francisco de Mascarenhas foi distinguido em diversas ocasiões, num testemunho do elevado apreço em que foi tido pelos aficionados portugueses. Entre essas cerimónias de homenagem destacam-se as seguintes: Prémio Carreira “Carlos Relvas” instituído pela Feira Nacional do Cavalo, na Golegã; Sócio de Honra da Real Tertúlia Tauromáquica D. Miguel I; “Galardão Prestígio 2015”, do Campo Pequeno, durante uma Corrida de Gala à Antiga Portuguesa; Medalha de Honra da Cidade de Almeirim; Troféu Campo Pequeno, em 2020, na oportunidade da comemoração do 75.º aniversário da sua alternativa, sendo até então o primeiro toureiro a celebrar esta efeméride em vida.
Curiosamente, D. Francisco de Mascarenhas doou ao Museu José Mestre Batista, criado em Reguengos de Monsaraz, a casaca roxa e bordada a fio de prata que vestiu no dia 15 de Setembro de 1958, data em que foi padrinho de alternativa de José Mestre Batista, na Praça Daniel Nascimento, e que ali ficou a perpetuar o gesto tão digno de D. Francisco de Mascarenhas.
Depois de afastado das arenas, D. Francisco continuou a ser uma presença assídua nas praças de toiros e ao longo dos anos muitos foram os cavaleiros que receberam os seus ensinamentos e os seus conselhos, fruto da sua grande experiência como toureiro e como genial equitador.

