Certame entra no último fim-de-semana na Casa do Campino. Na inauguração, o presidente da Câmara de Santarém, João Teixeira Leite, defendeu uma ligação mais estreita entre gastronomia, agricultura, ciência e inovação, anunciando a apresentação do Campus Tejo na Web Summit. O ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, destacou o papel dos produtores nacionais na segurança alimentar, na economia e na coesão territorial.

O Festival Nacional de Gastronomia entra este fim-de-semana nos seus derradeiros dias, depois de voltar a fazer da Casa do Campino, em Santarém, um ponto de encontro dos sabores, dos saberes e das tradições gastronómicas portuguesas. A celebrar a sua 45.ª edição, o certame mantém a identidade que o tornou uma referência nacional, mas procura também acompanhar a evolução da gastronomia e os novos desafios ligados à produção alimentar, à investigação e à sustentabilidade.

Até domingo, 1 de Novembro, a cozinha tradicional portuguesa continua a ocupar o lugar principal de uma festa que reúne restaurantes, produtores, cozinheiros, confrarias e representantes de diferentes regiões do País. Aos pratos e produtos que fazem parte da memória gastronómica nacional juntam-se demonstrações culinárias, provas, iniciativas de divulgação dos territórios e momentos de animação, numa programação que procura aproximar diferentes gerações de visitantes.

Sob o lema “Tradição com Sabor a Futuro”, a edição deste ano apresenta uma reorganização do recinto e recupera elementos associados às origens do festival. Entre as novidades está a “Taberna da Casa”, um espaço inspirado nas antigas tabernas, onde os petiscos e os sabores ribatejanos são servidos num ambiente mais informal. A iniciativa procura recuperar o espírito de convívio que esteve na génese do certame, sem deixar de acompanhar as novas formas de apresentação e valorização da gastronomia.

A ligação às tradições mantém-se, aliás, como uma das características distintivas de um festival que nasceu em 1980 e que, ao longo de mais de quatro décadas, contribuiu para projectar Santarém no panorama gastronómico português. O encontro entre cozinhas regionais, produtos locais e diferentes gerações de profissionais continua a constituir uma das suas principais marcas.

Mas a gastronomia é também, cada vez mais, entendida como uma actividade capaz de gerar valor económico, promover os territórios e estabelecer novas relações com a agricultura, o turismo, a investigação e a saúde. Foi precisamente essa dimensão que ganhou expressão nas intervenções proferidas na cerimónia inaugural, realizada na quinta-feira, 22 de Outubro, com a presença do ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, e do presidente da Câmara Municipal de Santarém, João Teixeira Leite.

Para o autarca, o Festival Nacional de Gastronomia deve continuar a afirmar-se como um acontecimento de dimensão nacional, capaz de representar a diversidade das regiões portuguesas e de valorizar quem produz, transforma e leva os alimentos à mesa.

“O Festival Nacional de Gastronomia é de Portugal”, afirmou João Teixeira Leite, sublinhando que a importância do certame ultrapassa os limites do concelho e da própria região.

O presidente da Câmara destacou a presença de representantes do Governo e de outras instituições, considerando fundamental que os responsáveis políticos conheçam de perto os territórios e as suas potencialidades. Na mesma intervenção, valorizou a cooperação entre municípios, defendendo uma visão regional mais articulada e a capacidade de desenvolver projectos conjuntos.

Essa colaboração, sustentou, é essencial para reforçar a capacidade de afirmação do Ribatejo e potenciar iniciativas que, embora realizadas num determinado concelho, possuem um alcance que ultrapassa as respectivas fronteiras administrativas.

 

Santarém quer ligar a gastronomia à ciência e à inovação

Na intervenção inaugural, João Teixeira Leite apresentou o Festival Nacional de Gastronomia como uma das principais expressões da estratégia municipal de afirmação de Santarém enquanto Capital da Gastronomia.

“O Festival Nacional de Gastronomia é o palco maior desta estratégia de afirmar Santarém como território de aposta na gastronomia”, declarou.

O autarca fez, contudo, questão de lembrar que essa afirmação não depende apenas dos onze dias do certame. Ao longo de todo o ano, são os restaurantes, os cozinheiros, os produtores e os restantes profissionais do sector que dão continuidade ao trabalho de valorização da gastronomia local e regional, contribuindo para que Santarém seja reconhecida como destino gastronómico.

O presidente da Câmara defendeu, por isso, que o festival deve funcionar não apenas como espaço de celebração da cozinha portuguesa, mas também como ponto de encontro entre diferentes áreas de actividade, capazes de contribuir para o desenvolvimento do território.

Foi neste contexto que abordou a estratégia que o município está a desenvolver para aproximar a agricultura, a investigação científica, a inovação tecnológica, a alimentação e a saúde.

João Teixeira Leite anunciou que o Campus Tejo, um projecto de parque tecnológico de ciência e inovação, será apresentado a 11 de Novembro, no âmbito da Web Summit, procurando dar projecção nacional e internacional a uma iniciativa que pretende valorizar as potencialidades agrícolas e científicas do território.

O projecto assenta numa perspectiva de articulação entre a produção alimentar, o conhecimento científico e a aplicação de novas soluções tecnológicas, associando também a alimentação às questões da qualidade de vida, do bem-estar e da longevidade.

Na cerimónia, o autarca referiu que esta estratégia está ligada a investimentos de cinco milhões de euros, já em execução na Escola Superior Agrária de Santarém, destinados a reforçar a componente de inovação.

Para João Teixeira Leite, o desenvolvimento destas iniciativas representa uma oportunidade para Santarém se posicionar como um território de referência em áreas que vão muito além da gastronomia enquanto actividade de restauração.

A agricultura, a alimentação e a saúde constituem, na sua perspectiva, dimensões complementares de uma estratégia de desenvolvimento que pretende aproveitar o conhecimento produzido pelas instituições de ensino e investigação, a capacidade dos produtores e as características do território.

“O alimento vem da terra”, lembrou o presidente da Câmara, ao estabelecer a ligação entre os recursos naturais, a produção agrícola e a qualidade de vida das populações.

Essa visão deverá também reflectir-se no futuro do Festival Nacional de Gastronomia. O autarca considera que as próximas edições poderão aprofundar a componente de reflexão e debate, dando maior espaço a iniciativas que aproximem o público das questões relacionadas com a produção alimentar, a investigação científica, a saúde e a sustentabilidade.

As demonstrações culinárias, os encontros entre profissionais e os momentos de convívio deverão, assim, continuar a conviver com uma programação que procure acompanhar a transformação do sector agro-alimentar e os desafios que se colocam à sociedade.

A intenção não é substituir a vocação tradicional do festival, mas acrescentar-lhe uma dimensão de conhecimento e inovação, aproveitando a notoriedade do certame para promover uma discussão mais alargada sobre a alimentação e o futuro da agricultura.

João Teixeira Leite deixou ainda uma mensagem de continuidade, sublinhando que o Festival Nacional de Gastronomia deverá manter a sua realização e reforçar a capacidade de acompanhar os novos tempos, sem perder a identidade construída ao longo das suas 45 edições.

O autarca recordou o carácter pioneiro da iniciativa, que classificou como “o pai dos festivais gastronómicos”, numa referência ao papel desempenhado por Santarém na promoção da cozinha tradicional portuguesa.

 

Ministro defende agricultura como primeiro sector da economia

A importância da produção agrícola esteve igualmente no centro da intervenção do ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, que associou a gastronomia à identidade cultural portuguesa, à valorização dos produtos nacionais e à necessidade de assegurar condições para o desenvolvimento dos territórios.

“Comer e beber nunca vai passar de moda”, começou por afirmar o governante, numa referência ao carácter permanente da alimentação na vida das pessoas e ao significado de um festival que celebra as tradições culinárias nacionais.

Para José Manuel Fernandes, o certame representa muito mais do que a apresentação de pratos e produtos regionais. É também uma manifestação da diversidade do País, das suas raízes culturais, das raças autóctones e do trabalho desenvolvido pelos agricultores e produtores que asseguram a continuidade desse património.

O ministro defendeu que a actividade agrícola deve ser reconhecida pela sua importância estratégica para a sociedade e para a economia, recusando uma leitura que a coloque numa posição secundária face a outros sectores.

“Em vez de dizer que a agricultura é o sector primário, eu tenho referido que a agricultura é o primeiro sector”, afirmou.

José Manuel Fernandes justificou esta perspectiva com o papel fundamental da produção agrícola no abastecimento alimentar, na criação de riqueza, na fixação das populações e na dinamização de outras actividades económicas, incluindo o turismo e a gastronomia.

“Agricultura significa, desde logo, comida no prato”, acrescentou, salientando a importância da segurança alimentar num contexto internacional marcado por instabilidade geopolítica e por novos desafios à capacidade produtiva.

O governante recordou, a este propósito, o período da pandemia de Covid-19, durante o qual o trabalho dos agricultores permitiu assegurar o abastecimento de alimentos, apesar das dificuldades enfrentadas pelo País.

Considerou que a continuidade desse abastecimento contribuiu para que o esforço do sector passasse, em grande medida, despercebido, precisamente porque os produtos alimentares não deixaram de chegar aos consumidores.

A valorização da agricultura foi igualmente associada à necessidade de promover uma maior coesão territorial.

José Manuel Fernandes defendeu uma distribuição dos recursos e dos fundos europeus orientada para a redução das assimetrias regionais, considerando que o desenvolvimento equilibrado do País depende da capacidade de manter população e actividade económica nos diferentes territórios.

Na sua perspectiva, a presença das pessoas no território possui ainda implicações que ultrapassam a economia, contribuindo para a gestão da paisagem, a sustentabilidade ambiental, a protecção civil e a prevenção dos incêndios rurais.

O ministro destacou também a importância da investigação científica e da inovação tecnológica para responder às transformações que afectam a produção agrícola.

As alterações climáticas, o surgimento de novas pragas e doenças e a necessidade de desenvolver culturas mais resistentes exigem, defendeu, um esforço de investigação à escala europeia, acompanhado de investimentos que permitam melhorar as condições de produção.

A disponibilidade de água foi apontada como um dos factores essenciais para assegurar o futuro da agricultura e reforçar a competitividade do sector.

José Manuel Fernandes salientou ainda o peso económico de produções nacionais como o vinho, o azeite, as frutas e os legumes, referindo a presença destes produtos nos mercados internacionais como expressão da capacidade produtiva e exportadora portuguesa.

Para o governante, o desenvolvimento da agricultura deve ser encarado de forma integrada, considerando os efeitos que produz na economia, no emprego, no turismo, na gastronomia e na valorização das características próprias de cada região.

A preservação das raças autóctones, dos produtos tradicionais e das especificidades territoriais constitui, neste entendimento, uma vantagem que importa proteger e promover.

Nesse domínio, dirigiu um reconhecimento particular às confrarias gastronómicas, pelo trabalho realizado na defesa dos sabores tradicionais e na valorização dos produtos com denominação de origem protegida e indicação geográfica protegida.

O ministro destacou igualmente a dieta mediterrânica enquanto expressão do património alimentar e cultural português, defendendo a preservação das tradições alimentares e a importância da moderação.

A concluir, José Manuel Fernandes apelou à cooperação entre instituições, autarquias, Governo e agentes económicos, considerando que o desenvolvimento dos territórios exige diálogo e a participação de todos.

O governante valorizou, em particular, a colaboração entre municípios, defendendo que o crescimento de um concelho pode representar também uma oportunidade para os territórios vizinhos.

 

Tradição e novos públicos no último fim-de-semana

O Festival Nacional de Gastronomia concentra agora as atenções no último fim-de-semana de uma edição que procurou conjugar a preservação das tradições com novas formas de apresentação e divulgação da cozinha portuguesa.

A programação inclui demonstrações de cozinha, degustações, promoção de produtos regionais e iniciativas ligadas aos vinhos, à cultura e ao turismo, mantendo a participação de diferentes municípios e entidades ligadas ao sector.

O envolvimento da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo e da Associação de Municípios Portugueses do Vinho reforça a componente de promoção dos territórios, permitindo dar a conhecer produtos, tradições e propostas gastronómicas que reflectem a diversidade da região e do País.

A participação de escolas e entidades de formação profissional constitui outra das vertentes do certame, aproximando as novas gerações dos conhecimentos e das oportunidades existentes na restauração e nas actividades associadas à gastronomia.

A Casa do Campino volta a assumir o papel de espaço de encontro entre diferentes formas de entender a cozinha: a tradição transmitida entre gerações, o trabalho quotidiano dos profissionais da restauração e a procura de novas abordagens por parte dos cozinheiros contemporâneos.

São dimensões que ajudam a explicar a longevidade do Festival Nacional de Gastronomia, cuja história acompanha a crescente valorização da cozinha portuguesa enquanto património cultural, atractivo turístico e actividade económica.

O certame encerra no domingo, 1 de Novembro, depois de mais uma edição dedicada à diversidade dos sabores nacionais.

 

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