«(…) Os anos passaram e eu continuei a passar de ano, inexplicavelmente. Tinha um rol de negativas assinalável, no final de cada ano, assinaladas na pauta. Mas transitava. Alguém confundira o essencial com o acessório. Se eu não sabia sequer as matérias e transitava de ano, então aumentavam as dificuldades. Ficava mais graduado, mas menos capaz de perceber as novas matérias. Como podia eu aprender que os adjetivos podiam estar em graus diferentes, se eu não sabia o que era um adjetivo? Como poderia eu estudar, se não sabia ler? Como poderia saber fazer contas se não sabia a tabuada? Como podia eu fazer uma composição se não sabia construir uma frase? As matérias e as chapadas iam aumentando de dificuldade e de intensidade e o meu interesse ia diminuindo. (…)
Se já tinha dificuldades de aprendizagem porque não praticava o suficiente, nem em casa, nem na escola, tudo se complicou. Num dia fatídico – que considerei magnífico, porque pensei ser apenas um feriado – a escola estava fechada. E tínhamos de ir todos para casa. A professora já nos tinha dito que o mundo estava doente e que temia que houvesse uma desgraça mundial. E que, provavelmente, as aulas passariam a ser dadas de forma diferente. Os alunos ficariam nas suas casas e as aulas seriam dadas, virtualmente. Não queria creditar naquilo que estava a ouvir. Não podia ser. Mas foi. Os carros da polícia tinham nos tejadilhos “Fique em Casa”. Mas a minha casa era um perigo. Isso não importava agora; aos outros. E o que não tem remédio, remediava-se com pensos rápidos e tintura aplicada nas zonas fustigadas dos nossos corpos, indefesos. A minha vida mudou, para muito pior. A minha e a de muitos miúdos. Nunca achei possível. E a procissão ainda não saíra do adro. Emprestaram-me um computador portátil e ensinaram-me tudo o que precisava de saber para o que chamaram “Ensino à Distância”. E ia pôr o computador aonde? Em cima de uma secretária. Óbvio. Ou não. A minha casa não tinha amor, quanto mais secretárias! Só se fosse debaixo da cama, no meu bunker privativo. É que o meu pai também ia ficar em casa. Não quis perceber o que me estavam a dizer. Eu, o meu irmão Francisco e a minha mãe íamos ficar com o meu pai, abandonados à nossa sorte. Aquilo que já parecia o inferno, antes da pandemia, era, afinal, somente, o purgatório. Se Dante pudesse voltar à Terra, pedir-nos-ia para estar connosco um dia lá em casa e escreveria sobre o conceito moderno de inferno. (…)
Não me conseguia rir e tinha qualquer coisa dentro do peito que não me deixava respirar fundo. Eu não sabia que era isso, mas a minha mente adoecera.
Nascera o ensino à distância. E nascia um artista. Eu. Já progredira até ao quinto ano e não sabia rigorosamente nada. As aulas à distância, às quais não assistia, perpetuaram-se no tempo. Os professores continuavam a ensinar e os senhores entendidos diziam que o Ensino à Distância estava a ser um sucesso… Quando se pensou que podíamos estar naquele registo algumas semanas, passaram-se meses. Progredi mesmo para o sexto ano. Como não era preciso investir nada nesta escolaridade, fui fazendo, paralelamente, o curso de defesa pessoal contra agressões físicas e psicológicas, tirado na internet, com exames na rua. Comecei a fazer todos os trabalhos da escola. Considerava-me um miúdo inteligente. Aprendi a desenrascar-me. Transformara-me – a vida – num verdadeiro artista. Tinha quase o curso da universidade da vida concluído, apesar de não ter muitos anos. (…)
Ninguém tinha culpa daquela maldita pandemia, mas eu também não. Sabia ler, embora mal, porque aprendera à minha custa com a ajuda de um amigo muito inteligente. E utilizava a minha esperteza para me servir de outras inteligências que colmatavam as minhas faltas e me solucionavam os problemas. (…) Em tempos servira-me da inteligência artificial e do abençoado site GPT para composições, interpretações e sucesso nas lições. Não me importava se era artificial e se, mal utilizada, poderia mudar o mundo e alterar o curso da História. Eu ouvia que a inteligência artificial se poderia sobrepor à inteligência humana e subjugá-la. E que isso teria consequências inimagináveis. Queria lá saber! Isso não era assunto meu. Alguém imaginava como tinha sido a minha vida, desde que tinha consciência de mim? Isso é que era assunto meu.
In conto “Um Alpendre entre o Inferno e o Céu” – O Alpendre das Cigarras
A ficção, muitas vezes, confunde-se com a realidade; noutras, aquela sobrepõe-se a esta. A criança deste conto fez a fase mais importante da sua escolaridade em plena pandemia. É, verdadeiramente, um filho da pandemia. Ele hoje tem – o verbo no presente, porque ele está presente na minha escola e em todas as escolas de Portugal e da Europa – quinze anos e é um dos jovens que a vida “pisou”.
E é ele que vai continuar esta crónica:
“Eu continuei a minha tarefa de me safar sozinho. Estou cá há quinze anos, mas já tenho trinta de dificuldades. A vida fez-me crescer cedo demais e perdi o meu tempo de ser criança. Há dias, depois de ir roubar um melão para almoçar, ouvi dizer que um relatório chamado PISA – achei o nome giro porque é o que nos continuam a fazer, pisar-nos – referia que os alunos da minha idade sabem pouco; preocupantemente pouco! E admirei-me com a admiração. Eles sabem que nós sabemos pouco e que não pensamos muito, mas não querem saber disso para nada. Essa é que é verdade que ninguém diz, porque não se pode dizer. Mas eu posso. Quem é que iria ligar ao que eu digo?!
A minha vida continua a não me dar tréguas, mas eu não desisto. Estou rodeado de guerras. Tantas, que já estou habituado. O tal relatório diz que os alunos já não conseguem interpretar textos com mais de quatrocentos carateres, que corresponde ao primeiro parágrafo desta crónica. Então, mas se a prioridade é cativar dinheiro para alimentar guerras, em vez de se investir nas escolas e de se contratar professores – estamos em outubro e ainda não tenho professor a duas disciplinas – qualquer dia só saberemos escrever o nome; ou quem sabe, brevemente, nem será preciso. Bastará um número para nos identificar. As máquinas também só têm número de série…
Há dias, ouvi uma notícia, mas deve ser mentira: parece que o meu país vai gastar milhares de milhões de euros em aviões para renovar a frota! Eles deviam era renovar os atuais professores que estão velhotes e cansados como nós, alunos; e reduzir as turmas que são enormes; e remodelar as escolas que são feias e frias; e, e, e… Depois admiram-se que nós, filhos da pandemia, estejamos a adoecer, de cabeça quente, cada vez mais oca e permanentemente na lua.
Aqui ainda vamos aceitando isto, mas os meus colegas em França chatearam-se e aquilo está mau! Não admitem que se gaste dinheiro em guerras, tendo as escolas a cair e não tendo condições nenhumas para estudar. Olha se a moda pega!
Continuo, também, a resolver a minha vida com a ajuda da Inteligência Artificial, mas aqui há dias, pela primeira vez, tive receio. Jacob Coxon, um jovem génio de vinte e sete anos, que trabalhou na OpenAi e na Anthropic, onde ajudou a desenvolver sistemas de A. I., deixou a empresa. Despediu-se. A sua consciência obrigou-o a isso. E deixou um aviso que se está a espalhar pelo mundo, apesar de receber telefonemas ameaçadores: “Quem constrói esta tecnologia sabe e acredita que ela nos pode matar a todos!!! Mas continua a competir para a tornar cada vez mais poderosa.”
Que atitude e que exemplo! Quando for grande, quero ser como ele. Se acredito no futuro? Claro! Sou jovem e tenho sonhos!»
O Tiago, narrador deste conto, foi acolhido por uma família de acolhimento e renovou a sua vida, iludindo o seu destino.
Ficções e realidades entrelaçadas porque a vida é, muitas vezes, uma efabulação!
