Em 2006, onze pessoas partiam de Portugal, de carro, para fazer uma geminação com uma família croata.

Habitualmente, fazem-se geminações entre cidades, regiões ou países e, até, em minerais: a união simétrica de dois ou mais cristais. Também as arquitetónicas obedecem a uma absoluta simetria.

Esta narrativa é, porém, sobre uma geminação humana. E estas são tão importantes para a germinação de boas pessoas! Não se respeitou simetria nenhuma, porque não há duas pessoas iguais. Respeitaram-se, isso sim, as assimetrias, as divergências, os diferentes pontos de vista, as desigualdades, as diferenças e os desacordos. É uma história sobre jovens, empatia, educação, escola, amizade, respeito, solidariedade e humanismo. Geminaram-se, essencialmente, interesses e objetivos e congregaram-se vontades para criar momentos felizes. Em suma, nascia, há vinte anos, a Irmandade das Cigarras. Antoine de Saint-Exupéry disse: “Somos irmãos em alguma coisa, e não simplesmente irmãos.” Uma verdadeira irmandade nasce de algo que une profundamente as pessoas: não uma relação de parentesco, mas uma união de afeto.

Da comitiva portuguesa faziam parte quatro jovens adolescentes, em férias escolares, que ficariam marcados para a vida por esta aventura, feita de amizade e união. Na viagem de navio entre Zadar e a ilha da Premuda, onde se constituiria a irmandade, viajavam, além de pessoas, camas desarmadas e colchões. Não podiam prever que aquelas seriam as suas camas e que teriam de carregar e montar, se quisessem dormir aconchegados. Nem imaginavam que a casa na ilha não era geminada e que o quarto ainda estava no reboco. E nem sequer havia espelhos. Mais: a luz conseguia-se com uma puxada de eletricidade da casa do vizinho, o que impossibilitava qualquer conexão com telemóveis, computadores, televisões ou outros ecrãs.

Mas depressa se instalou, em miúdos e graúdos, a ideia de que as casas e as coisas não eram, de todo, o mais importante. Mantinham-se intactas as possibilidades de serem felizes a conversar, cantar, comer, brincar, nadar, rir e, até, trabalhar. O relacionamento entre todos, a empatia, as concessões em prol do coletivo e as decisões partilhadas fortaleceram a união.

Terminada esta viagem pela Europa, os adolescentes voltaram às escolas em setembro. Antes, porém, houve uma avaliação durante um jantar. Os jovens não mencionaram as condições que lhes faltaram nem deram relevo à ausência de internet. Tinham substituído os écrans e as telas por palcos naturais; as mentes estavam limpas e tranquilas, cheias de boas memórias para enfrentar o novo ano letivo com força e energia positiva. Não receberam inputs negativos associados a guerras, maldades ou ódios. Aprenderam que os pais não fariam por eles o que lhes competia e que a exigência era igual para todos, em prol da irmandade das cigarras; cumpriram horários, mesmo cansados e despenteados pela manhã. Perceberam que o mais importante na vida pode não ser receber.

Vinte anos depois, voltámos ao Alpendre das Cigarras para contar e ouvir histórias, comemorando uma data em que estivemos do lado bom da vida. Confirmamos a ideia vintage de que importa cuidar bem dos rebentos, pois só a boa educação e formação permitirá a germinação de mais geminações humanas, tão necessárias!

Há poucos dias, como em todos os setembros, voltei à escola e deparei-me com duas notícias tristes, infelizmente não surpreendentes. A EU Kids Online 2025 divulgou um estudo cujo relatório português se intitula, “Novos usos, novos riscos? Direitos digitais das crianças e jovens (9-17 anos)”. Um dado que merece profunda reflexão: 52% dos jovens inquiridos, entre 9 e 17 anos, disseram ter visto mensagens de ódio online no último ano. Esse valor sobe para 72% entre os adolescentes de 16 e 17 anos. São mensagens hostis dirigidas a pessoas ou grupos, conforme género, etnia, religião, nacionalidade, orientação sexual ou deficiência.

Outra notícia triste é o resultado do Pisa 26 sobre Educação. “Resultado histórico dos alunos portugueses, pela negativa” foi manchete elucidativa. O relatório aponta a pouca exigência e a indiferença perante a escola.

Se juntarmos o modo como os jovens usam a Inteligência Artificial (IA) na escola, temos um caldo para uma nova cultura que não privilegia saber e conhecimento, formando pobres de espírito. Os jovens ficarão à mercê da opinião alheia, sem espírito crítico ou opinião fundamentada, incapazes de discutir, dialogar, reivindicar ou contrapor. O estudo refere que 85% das crianças e jovens entre 9 e 17 anos usam ferramentas de IA para trabalhos escolares, evitando pensar e esforçar-se. O sucesso só vem antes do trabalho no dicionário!

Além disso, os jovens deixaram de socializar nas escolas, passando intervalos inteiros colados aos écrans, vivendo um mundo virtual como o único válido e interessante. Não riem, não conversam, não brincam, nem discutem opiniões. Vivem sós nesse mundo.

Tudo isto levou o Ministério da Educação a proibir, para este ano letivo, o telemóvel até ao 9º ano, nas escolas.

Não creio que o problema se resolva com proibições, mas com prevenção. Partilho uma prática salutar para inverter o ciclo de mensagens de ódio, desrespeito pelas diferenças, alienação virtual e desumanização crescente.

Na Dinamarca, uma vez por semana, professores e alunos reúnem-se em círculo por uma hora. Sem exames, notas ou livros, discutem problemas reais, partilham sentimentos, praticam escuta ativa e buscam soluções conjuntas, ou seja, entendem-se. Quando não há problemas, o tempo é dedicado a fortalecer a empatia, a amizade e a boa convivência.

Começa mais um ano letivo e reitero um pensamento intemporal: a escola deve ser lugar de ensino e aprendizagem, também das coisas que mais falta fazem para viver em sociedade.

Hoje termino com uma afirmação e um apelo.

A afirmação é que a escola nunca foi tão importante para os jovens como agora, apesar de alguns dizerem o contrário. Será que a ignorância serve a alguém?!

O apelo é para os pais: valorizem a escola junto dos seus filhos, pois só assim estes terão sonhos e projetos que os dignifiquem como seres humanos.

“É através da Educação que a filha de um camponês pode tornar-se médica, o filho de um mineiro pode tornar-se chefe da mina e o filho de trabalhadores rurais pode tornar-se presidente de uma grande nação.”  Nelson Mandela

Bom ano letivo para todos.

 

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