Os últimos resultados do PISA voltaram a trazer a escola para a discussão pública. Portugal desceu em Matemática e Leitura e, na última década, perdeu praticamente os ganhos que tinha alcançado. Regressámos, em vários indicadores, a valores próximos dos de 2006.
Convém, porém, não fazer uma leitura demasiado doméstica do problema. Portugal não caiu sozinho. A média da OCDE também desceu, e muito. Entre 2015 e 2025, a quebra foi de 28 pontos na leitura e de 22 na matemática. Há, portanto, qualquer coisa de mais profundo a acontecer nas sociedades desenvolvidas, para além das políticas educativas de cada governo.
E aqui entram os telemóveis, as redes sociais, a perda de hábitos de leitura, a dificuldade crescente de concentração e, agora, a inteligência artificial. Nunca tivemos tanta informação disponível e talvez nunca tenha sido tão difícil convencer um jovem de que é preciso parar, ler, estudar e pensar.
Nuno Crato chamou recentemente a atenção para uma comparação interessante dentro do Reino Unido. Inglaterra, Escócia e País de Gales partilham muitas condições económicas e sociais, mas seguiram caminhos educativos diferentes.
A Escócia apostou num currículo mais flexível, centrado em competências e maior autonomia. O País de Gales aproximou-se dessa filosofia. Inglaterra seguiu em sentido diferente: reforçou currículos estruturados, conhecimento das disciplinas, avaliação, exigência e o papel do professor enquanto alguém que, antes de mais, ensina.
Não será certamente por uma única razão – em educação quase nunca é – mas os resultados são difíceis de ignorar. Nos PISA agora conhecidos, Inglaterra surge entre os sistemas de melhor desempenho, enquanto Escócia e País de Gales ficam bastante atrás. É uma espécie de experiência natural que, no mínimo, nos devia obrigar a pensar.
Durante anos criou-se a ideia de que ensinar conhecimentos era uma coisa antiga. O importante seriam as “competências”, como se fosse possível interpretar um texto sem vocabulário, pensar criticamente sem conhecer factos ou resolver problemas sem dominar ferramentas básicas.
Talvez tenhamos confundido modernidade com facilidade.
A escola não pode ignorar o mundo digital, muito menos a inteligência artificial. Mas justamente porque as máquinas pesquisam, escrevem, calculam e respondem em segundos, será cada vez mais importante que os seres humanos saibam aquilo que estão a perguntar — e tenham conhecimentos suficientes para perceber se a resposta faz sentido.
Talvez a escola do futuro precise, afinal, de recuperar algumas coisas muito antigas: bons professores a ensinar, alunos a estudar, livros para ler, silêncio para pensar e exigência para aprender.
O futuro, às vezes, também se constrói regressando ao essencial.
