Aos sessenta e nove anos de idade faleceu na passada sexta-feira, dia 25 de Setembro, o nosso Amigo Dr. José Jesus Brilhante, vítima de doença prolongada.
Fui Amigo do Dr. José Brilhante ao longo de meio século, mas durante muitos anos não cultivámos uma relação de intimidade para além do que é o relacionamento urbano e cordato entre duas pessoas que se estimam e se respeitam. Somos praticamente da mesma idade, mas cruzámos caminhos distintos, quer ao nível escolar, quer no plano social e político.
Coincidimos durante alguns anos na Casa da Cultura de Santarém, de que o Dr. José Brilhante foi um notável líder e eu seu colaborador, exercendo as funções de vice-presidente. Nesse tempo e nessas funções apercebi-me da excelência humana do José Brilhante, que teve o grande mérito de fazer obra grandiosa sem os adequados recursos técnicos, humanos e, sobretudo, financeiros, porém, a relevante acção desta instituição, correlacionada com o FAOJ, ficou a dever-se à sua imensa capacidade de organização e de envolvimento com as associações e com as autarquias locais.
Desde então sempre acompanhei a vida pública do Dr. José Brilhante, concelebrando intimamente muitos dos seus sucessos e sofrendo com alguns dos seus desaires, especialmente, por me aperceber que estes não eram senão consequência directa da sua atitude de carácter e de rectidão de princípios, pelo que constituíam o preço a pagar pelos incómodos que ocasionava a outros que com desmedida ambição, pessoal e política, não olhavam a meios para alcançar os seus fins, atropelando tudo e todos na escada do poder.
Sempre acreditei na sua inocência em alguns dos processos com que teve de lidar ao longo da sua carreira pública, e mantenho a convicção firme de que o Dr. José Brilhante sempre agiu na defesa dos mais elevados interesses públicos, em seu desfavor e enfrentando alguns constrangimentos reflectidos na sua vida pessoal e familiar.
O José Brilhante foi um homem sério, de carácter impoluto, incorruptível e crente no princípio de que a verdade e o respeito pelo próximo só têm uma versão. Ou existem ou não existem.
Já retirado da actividade profissional, social e política, o Dr. José Brilhante quis partilhar a sua perspectiva em relação a alguns dos momentos mais complexos da sua trajectória e escreveu um livro cujo título dá nota da sua intenção de esclarecer e justificar as suas opções em diversos aspectos da sua vida.
“Toda a Verdade” é o enigmático título da narrativa autobiográfica de José Brilhante, historiador, político, dirigente da administração pública, cidadão livre e empenhado na construção de uma sociedade solidária e justa e atenta aos valores e às referências da doutrina social da igreja, que num rasgo de altruísmo e de humildade, pouco habituais em pessoas que tantas vezes se sentaram na cadeira do poder, abriu o livro da sua vida, partilhando alegrias e tristezas, sucessos e derrotas, ansiedades e expectativas.
Nesta sua autobiografia José de Jesus Brilhante não se refugiou em meias-verdades nem em exercícios semânticos, ousando assumir com franqueza e determinação cada episódio da sua vida, em todas as dimensões, sem receio de pôr os nomes nas coisas.
Porque também a vida de uma pessoa só tem uma versão, pese embora que a possam contar de múltiplas maneiras. Mais ou menos fantasiadas. Acrescidamente, esta obra tem o grande mérito, mais um, de nos ajudar a compreender melhor algumas circunstâncias da vida política e social da nossa região e do nosso país, onde tantos episódios protagonizados pelo Dr. José Brilhante alcançaram uma especial repercussão.
Parte da sua história de vida coincide, outrossim, com a história da nossa cidade e da nossa região. Desassombradamente, este discurso na primeira pessoa permitiu-nos fortalecer os laços de afecto e de estima por um Homem que teve de enfrentar tantas vicissitudes na vida, as quais sempre soube superar dignamente, ainda que tendo de pagar um elevado preço.
Mas, a honra, a solidariedade, a determinação, a resiliência, a coragem e a autenticidade não são palavras vãs nem atributos ocos na vida e na obra de José Brilhante. Fui distinguido pelo Autor com o honroso convite para falar desta obra em várias sessões da sua apresentação pública, nomeadamente na Sociedade Recreativa Operária, em Santarém, o que muito me desvaneceu pessoalmente e de que me desincumbi com a alma cheia do sentimento de respeito e admiração que sempre nutri por este cidadão impoluto e referencial, numa sociedade onde alguns valores se vão desvalorizando.
Nos últimos anos da sua vida tive o privilégio de o acompanhar em alguns dos seus projectos, posto que o José Brilhante sempre esteve atento ao mundo que o rodeava e sonhava projectos para melhorar as condições de vida de quem lhe estava próximo.
O projecto mais desafiante foi a constituição da Associação “Vizinhos de Marvila” a qual tem o propósito de melhorar a qualidade de vida dos “vizinhos” que residem nesta área urbana da cidade de Santarém, nomeadamente ao nível do conforto e da segurança, da interacção entre os habitantes na lógica da realização de iniciativas lúdicas nas quais todos se pudessem integrar, a afectação de espaços públicos destinados a facilitar o convívio entre pessoas já na situação de reforma, e tantas outras iniciativas que pudessem pôr os vizinhos a falar uns com os outros.
Parece simples esta carta de princípios cívicos, no entanto, com alguma pena temos de concluir que este objectivo não se concretizou. Vivemos um tempo de excessivo egoísmo cívico, poucos são os que se preocupam com os problemas ou dificuldades dos vizinhos…
Notamos que a maioria dos nossos “vizinhos” receiam a convivência com pessoas que não conhecem, eventualmente até por viverem há pouco tempo na área da nossa residência, e em vez de interagirmos com estas pessoas e vencer a barreira do isolamento, fonte dos receios e inquietações, fechamo-nos na nossa concha e ignoramos essa gente.
Muitos são pessoas de bem, que procuram na nossa cidade a tranquilidade para trabalhar e para sustentar a respectiva família, mas o relacionamento é muito distante e levantam-se barreiras onde se deviam construir pontes.
Pois, o nosso Amigo José Brilhante sonhava que a Associação “Vizinhos de Marvila” pudesse contribuir para aproximar as pessoas que vivem na mesma área da cidade, através de iniciativas e eventos que fomentassem a integração de todos. Não o conseguimos, mas nem por isso o mérito do seu projecto é menor e menos oportuno.
O José Brilhante preocupava-se mais com os outros do que consigo próprio, por isso o lembramos já com tanta saudade e queremos agradecer-lhe tanto o que foi como Homem e o que se constituiu como referência e exemplo. Obrigado, Amigo José Brilhante!
Apresentamos à Família a expressão das nossas mais sentidas condolências. Que descanse em Paz!
