Rui Duarte Coelho apresenta esta sexta-feira, 2 de Outubro, o seu segundo livro de contos, “O Alpendre das Cigarras”, na Sala de Leitura Bernardo Santareno, em Santarém. Amadrinhada por Pilar del Río, a obra resgata memórias e presta homenagem ao humanismo e à figura de José Saramago, cruzando a ficção com as vivências reiais do autor.
A sessão de apresentação da obra conta com o amadrinhamento de Pilar del Río, que recorda na sinopse um encontro ocorrido na Azinhaga há quase trinta anos. Qual o significado da memória desse encontro para a identidade deste livro?
Um encontro com Pilar del Rio é uma vivência singular. Naturalmente inspirou-me, superlativamente. É uma honra enorme que ela tenha amadrinhado o livro. A sua avaliação, na contracapa, é a marca registada da minha escrita, que interpretou sabiamente. Escrevo pelas pessoas, para as pessoas e porque acredito na humanidade.
O livro já estava escrito há três anos e continuava, pacientemente, em reescrita, uma fase importante do meu processo criativo. E sem sonhar, sequer, que me voltaria a cruzar com Pilar, escrevi um conto que se chama “O Alpendre de Saramago”. Não via Pilar del Rio há décadas, mas marcou-me um gesto seu, aquando de uma cerimónia na Azinhaga. E sim, o momento agarrou-me na mão, com a qual agarrei a caneta que escreveu sem que a guiasse. Se eu tinha sido um privilegiado e tinha conseguido dialogar três singulares minutos com Pilar e Saramago, então tinha de imortalizar esse momento.
O livro – ele já tem vida própria – é que aceitou este conto, tendo em conta as mensagens que ambos querem transmitir: humanismo, solidariedade, carácter, simplicidade, amizade, respeito, memória.
Na génese, estão todas as histórias de vidas que quero que ultrapassem a barreira do incógnito, incluindo a de Pilar e Saramago, claro.
A obra reúne histórias marcadas pela memória, a sensibilidade e o valor das experiências humanas. Como foi o processo de reunir e compilar estas narrativas?
Reunir as histórias não foi particularmente difícil. Bastou organização e atenção permanente ao que me rodeia. Vivemos num tempo em que as histórias surgem a toda a hora. Ainda não sabemos totalmente o alcance histórico do que vivemos, mas sinto que estamos no olho do furacão.
Todos os dias observo, penso e reflicto sobre realidades que, por vezes, parecem ficção. Umas vezes encontro as histórias; outras vezes, elas encontram-me. Como me considero um escritor de intervenção, não faltam temas para abordar. Vivemos um período particularmente interessante para escritores e humoristas, dada a quantidade de situações de nonsense que fazem parte do quotidiano.
O livro transita entre a ficção e a autobiografia. Onde começa e termina esta linha ténue existente nas histórias que compõem “O Alpendre das Cigarras”?
A relação entre realidade e ficção assemelha-se ao equilíbrio de um funâmbulo sobre uma corda estendida. Existe sempre o risco de pender mais para um lado ou para o outro. Posso aproximar-me mais da ficção ou mais da realidade, sem saber exactamente em que proporção.
Ainda assim, permito-me contrariar a ideia de que este livro possui uma forte componente autobiográfica. Limitei-me a colocar-me na pele de outras pessoas, a misturar elementos ficcionais e a criar novas realidades a partir deles.
Qual tem sido o feedback por parte dos leitores ao lançamento da obra?
A opinião dos leitores é fundamental. São eles que devem falar da minha escrita. Apesar disso, quando alguém diz que gostou de um texto meu, respiro melhor.
Sei qual é o caminho que quero seguir. Procuro afirmar a minha identidade literária e consolidar um estilo próprio. Ambiciono uma escrita digna, simples, impactante, bem-humorada e envolvente.
Gostaria que os leitores, de vez em quando, interrompessem a leitura para olhar o céu e reflectir sobre aquilo que acabaram de ler. Sou feliz quando escrevo e considero isso uma das maiores recompensas desta actividade.
“O Alpendre das Cigarras” é o seu segundo livro publicado. Que outras histórias ou projectos literários poderão ver a luz do dia em breve?
Desvendo, em primeira mão, o meu próximo projecto, agora que estou no fim da minha carreira profissional. Especificando um bocadinho melhor, aspiro a levantar-me às seis da manhã para escrever, sendo que sempre detestei levantar-me cedo. Então se um sacrifício de uma vida passar a prazer, naturalmente, escrever é o meu futuro. Assim de repente, um novo livro de contos, um livro de dois tomos – Do Atlântico ao Adriático – e um outro das crónicas que escrevo no Correio do Ribatejo, são três de muitos que pretendo escrever!
Em suma, os ingredientes que ponho na minha vida, a fim de lhe dar sabor e sentido, são muito mais palavras, frases, parágrafos, contos, ensaios e crónicas do que outra coisa qualquer. Limpo as ideias, refogo as frases, adorno com vocabulário variado e imaginação, e polvilho a vida com pimenta retórica. E tentarei apurar mais e mais a minha escrita, a fim de poder satisfazer o paladar dos leitores.
