“Como pão para a boca” é uma rubrica diária que pretende oferecer um momento de satisfação àqueles que estão privados do acesso às bibliotecas e aos outros espaços culturais, mostrando que a cultura está viva e que também é, a seu modo, uma arma contra a pandemia. O projecto é do escritor, contador de histórias e comunicador Nuno Garcia Lopes, natural de Linhaceira (Tomar). A sua obra inclui dezasseis livros entre poesia, conto, literatura infanto-juvenil e monografia. Está ainda publicado em antologias, revistas e jornais em Portugal, Espanha e Brasil, tendo sido distinguido com diversos prémios literários. A palavra está no centro da sua vida. Tem desenvolvido uma acção consistente na área dos livros, como editor, revisor, tradutor e divulgador. Tem trabalhado igualmente nas áreas da comunicação, jornalismo e ensino.

Em que consiste este seu projecto “Como pão para a boca”?

Trata-se da apresentação diária da leitura de um poema, nas minhas redes sociais, neste momento replicada já por mais de uma dezena de bibliotecas e municípios, uma vez que um dos objectivos era precisamente oferecer também este recurso às bibliotecas e aos seus utentes. São vídeos assumidamente caseiros, para reforçar o contexto de confinamento em que estão a ser produzidos, embora com o apoio de uma excelente equipa de bastidores: as minhas filhas, especialmente a Catarina que filmou os 20 episódios já gravados; e o Duarte Carolino, excelente designer e ilustrador, que desenhou os separadores.

Porque razão decidiu levar a poesia para as redes sociais?

Há um ano atrás, aquando do primeiro confinamento, tive a ideia de fazer uma iniciativa que contrariasse a negatividade das notícias que nos envolviam e que mostrasse que a cultura estava viva. Assim nasceu o “Antivírus”, no facebook e youtube do Município de Tomar, que contou com inúmeras participações de músicos, actores e associações do concelho e teve um forte impacto.

Ler em público é uma das coisas que mais gosto de fazer e, perante a impossibilidade de o fazer nos tempos mais próximos, decidi agora começar a gravar poemas em casa e oferecê-los às pessoas, através das minhas redes, mas também das redes das bibliotecas, que seriam, em condições normais, o meu habitat natural. Se quiserem associar-se à iniciativa, é só contactarem comigo.

Nas suas palavras, a Cultura é “uma arma contra a pandemia”. De que forma?

Chamei a esta iniciativa “Como pão para a boca” porque considero que a cultura, de uma forma geral, e a poesia em particular, são necessidades básicas das pessoas. A pandemia é uma coisa muita séria, pela qual tenho o maior respeito, principalmente por causa da minha mãe e dos outros cidadãos de risco acrescido que devemos salvaguardar, mas tem outros impactos enormes sobre cada um de nós. De certa forma, um confinamento é muito semelhante a uma prisão domiciliária. E precisamos todos nós, para o nosso equilíbrio mental e para sentirmos que estamos vivos, destes pequenos prazeres que o usufruto da arte e da cultura nos dá, sob pena de sobrevivermos à covid mas nos tornarmos amorfos.

Faz sentido temos o livro confinado, com o encerramento das Livrarias?

Volto a frisar que considero que tudo o que fizermos para atalhar os efeitos da pandemia é crucial. Mas quando se encerra todo o comércio não essencial, incluindo as livrarias, está a transmitir-se uma mensagem que é: os livros não são essenciais. E são. Salvam vidas.

O que representa para si a escrita e, em particular, a poesia?

A escrita e a leitura são o meu modo de ser. Não consigo imaginar a minha vida sem eles. E são duas coisas que se interligam. Por um lado, tenho um gosto natural por partilhar com os outros as coisas de que gosto, o que me leva a ter na leitura de poesia uma das minhas tarefas favoritas.

Mas, ao mesmo tempo, sou autor, e essa é também uma prioridade. A escrita é a melhor forma que tenho de comunicar com os outros, o que cultivo tendo noção de que, enquanto escritor, e especialmente enquanto poeta, tenho a obrigação de entregar sempre a quem me lê algo de novo, que seja capaz de o entusiasmar ao ler algo mil vezes já narrado.

Como olha para a literatura portuguesa neste momento?

Há em mim uma certa noção de orfandade, quando faço esse exercício, particularmente na poesia. Dos monstros sagrados que povoaram o meu crescimento enquanto leitor, já não resta nenhum vivo: a Sophia, o Eugénio, o Cesariny, o Herberto…

Mas, em contrapartida, vejo uma geração que é a da minha idade consolidar a sua voz, ao mesmo tempo que surgem constantemente novos e interessantes nomes. Convido-vos a lerem a revista Nervo, publicada aqui bem perto, no Entroncamento, que a cada quatro meses nos traz uma selecção de poetas que vai dos consagrados a autênticos desconhecidos, com uma qualidade média muito boa. Enquanto as grandes editoras parecem ter vergonha da poesia, as revistas continuam a ser um dos pilares da sua divulgação.

Que outros projectos tem e quais gostaria de desenvolver?

Para já, pretendo continuar com a rubrica “Como pão para a boca”, pelo menos enquanto durar o confinamento. A seguir, logo que haja oportunidade, estou “em pulgas” para voltar às bibliotecas e às escolas, e em especial para estrear o espectáculo de poesia que preparo já há dois anos.

Na área da escrita, estamos a ultimar a edição de “Os balões que me ensinaram a voar”, um livro para crianças muito especial e que sairá em Junho. E preparo dois novos livros de poesia.

Que escritor considera de leitura obrigatória?

Essa é uma pergunta impossível de responder. Primeiro, porque não gosto de leituras obrigatórias – a leitura deve ser uma fruição absoluta, daquilo que nos apetecer e quando nos apetecer.

E depois, porque seria impossível escolher apenas um escritor essencial. O que torna a literatura fantástica é precisamente a sua diversidade.

De qualquer modo, e cingindo-nos à poesia, recomendo que procurem em www.nunogarcialopes.pt os autores clássicos que tenho apresentado no “Como pão para a boca” e que partam à sua descoberta ou redescoberta. E que, mais perto de nós, vão ler Herberto Helder para se irem habituando à ideia de que vai ser o grande clássico da segunda metade do século XX – e perceberem porquê.

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