Todos os dias recebemos várias notícias sobre as operações militares ou paramilitares de grupos ou países nas margens do Mar Vermelho: “Houthis controlam rotas do petróleo no Estreito de Bab el-Mandeb. Os Houthis do Iémen representam uma nova ameaça para as rotas marítimas na região do Médio Oriente essenciais para o fornecimento de petróleo ao mundo” (RTP 15/092026) ou “Arábia Saudita ativa alerta aéreo em Riad pela primeira vez desde agravamento do conflito no Iémen” (JN – 19/09/2026).
Estas questões relacionadas com os estreitos fazem-nos recorrer às palavras apresentadas em 1890 por de Alfred Mahan (almirante e geopolítico norte-americano) na sua obra “The Influence of Sea Power upon History “ (A influência do Poder Naval na História), “O domínio das principais rotas comerciais garante ao Estado a prosperidade económica baseada no comércio e também o fluxo de abastecimento de recursos considerados vitais”.
A problemática criada no estreito de Bab al-Mandeb não é nova. Resulta de um conjunto de conflitos que têm vindo a ocorrer na Ásia Ocidental nas últimas décadas incluindo o do bloqueio do estreito de Ormuz e deve ser analisada geopoliticamente.
Para entendermos todo este conflito, agora centrado no Iémen no Mar Vermelho e no Golfo de Adem, é importante recorrermos à história do Iémen e ao surgimento do grupo designado, genericamente, de Houthis.
Como tem evoluído politicamente o Iémen? Quem são os Houthis? Qual a sua força geopolítica?
O Iémen de hoje resulta da sua História política, principalmente nos últimos cem anos. É uma História muito complexa. Os romanos chamavam a esta região Meridional da Península Arábica, a “Arábia Feliz”. Designação que hoje nos parece muito estranha quando estamos a referirmo-nos a um território onde se tenta sobreviver todos os dias.
O Iémen de hoje é um espaço de inúmeros episódios de turbulência política que só se compreende conhecendo, um pouco, do que tem vindo a acontecer ao longo do século XX.
Desde o início da Primeira Guerra Mundial o território que corresponde ao Iémen foi dividido entre o Império Britânico e o Império Otomano criando assim o Iémen do Sul (Protectorado de Adem) e o Iémen do Norte.
Desde a expansão do movimento islâmico até 1962 a região norte, dominada durante o século XIX e princípio do século XX pelos Otomanos, era considerada “Reino do Iémen” com a participação no governo dos zaiditas. Deste ramo islâmico, que tem um papel importantíssimo na situação actual, falaremos mais à frente.
Os conflitos com a Arábia Saudita, sob o governo de ibn Saud, começaram com o fim da I Guerra Mundial, resultado da declaração de independência em 1918, o que levou à invasão do território iemenita em 1934 pelos sauditas. É importante, também, referir que os britânicos que ocupavam o Sul apoiaram os grupos opositores ao governo do Iémen do Norte.
Na década de 50, o Iémen do Norte passa a constituir com o Egipto e a Síria a República Árabe Unida, mas a sua participação só durou três anos. Finalmente, em 1962, é proclamada a República Árabe do Iêmen (Iêmen do Norte).
A Arábia Saudita, com a colaboração dos britânicos, oscila politicamente no apoio, ora de um lado, ora de outro, conforme os interesses no momento e incentiva a conflitualidade no território. Provavelmente confirma-se, assim, o mito de que não interessava, para o Reino Saudita, a existência de um Iémen mais forte!
Quando o novo poder da República (apoiado pela Arábia Saudita) sugere a unificação com o Iémen do Sul, os poderes sauditas passam a apoiar a oposição iemenita. Surge mais uma guerra civil. Curioso!
Em 1978, sob o cargo de presidente, Ali Abdullah Saleh, figura “pivot” nas últimas décadas, continuam os conflitos internos…
E o que se passou com o Iémen do Sul?
No século XIX, com a construção do Canal de Suez, o Mar Vermelho e a região de Adem passaram a ser fundamentais para a estratégia do Império Britânico, como via comercial e de poder marítimo. Ainda no ano de 1968, o poder no Sul foi ocupado pela Frente de Libertação Nacional e proclama a independência. Surge a República Democrática Popular do Iémen marxista-leninista. Os conflitos com a Arábia Saudita agudizaram-se a partir da disputa de territórios associados à exploração de petróleo e gás e com a crescente presença de bases militares americanas no espaço saudita.
Apesar da conflitualidade latente, em 1990, os dois territórios uniram-se surgindo no xadrez mundial a nova República do Iémen com duas capitais, Sana (capital política) e Adem (capital económica). Parecia que as condições favoráveis para a estabilidade estavam encontradas apesar da pressão internacional e interna. Não era verdade! Os conflitos com a Arábia Saudita continuaram…
O processo de protestos que se iniciou na Tunísia, em 2011, conhecido como “Primavera Árabe” também passou pela República do Iémen. No início, a população protestava contra a corrupção, contra uma economia de fraco crescimento e contra o elevado número de desempregados. No entanto, rapidamente começou a exigir a destituição do Presidente Ali Abdullah Saleh que assumiu o cargo durante 32 anos e que oscilava, frequentemente, entre alianças (os inimigos transformavam-se em amigos), com o objectivo de prolongar a permanência no poder. O país transforma-se, assim, no mais pobre do Mundo Árabe… passa, também, a ser um dos refúgios dos inúmeros militantes do grupo da Al-Qaeda. O movimento tribal, organização tradicional da região, aumenta a sua participação nos conflitos locais e os protestos crescem rapidamente.
Após um ataque ao Palácio Presidencial, Saleh é ferido e hospitalizado em Riad, capital da Arábia Saudita. A violência aumenta e resulta em vários atentados, quer a britânicos, quer a americanos.
A conflitualidade aumenta surgindo no tabuleiro, entretanto, vários grupos separatistas, especialmente no Sul, que permanecem até aos dias de hoje.
E os Houthis? Quem são?
Houthis é um movimento político e religioso (maioritariamente xiita zaidita) designado por “Ansar Allah” (Apoiantes de Deus” no Norte do Iémen. A designação de Houthis surge líder do grupo, Hussein al-Houthi, que foi morto em 2004, pelas forças do exército iemenita cujo presidente era Saleh.
O grupo surge nos anos 90 com a reunificação, mas resulta da radicalização dos zaiditas que permaneceram no poder até 1962 e tinham sido expulsos após o golpe de estado executado pelos nacionalistas árabes. É importante referir que a população do Norte é, maioritariamente, zaidita enquanto a população do Sul é maioritariamente sunita.
Estes zaiditas pertencem a um ramo do xiismo diferente do xiismo persa (iraniano) que se considera Duodecimano (doze Imãs). O zaidismo segue os ensinamentos de Zaid ibn Ali, neto do califa Ali genro de Maomé e considera, como princípio, que os líderes religiosos não são, sempre, perfeitos. Assim, os Houthis são xiitas, mas não seguem a linha ideológica do Irão actual e têm nas suas fileiras militantes sunitas.
Em 2014, o grupo apoderou-se da capital Sanah e de grande parte do território que correspondia ao Iémen do Norte, com grande apoio da população. Entretanto, a Arábia Saudita estabelece uma coligação de países para contrariar este movimento Houthis e repor o antigo governo e o seu Presidente Abd Al-Hadi que se tinha fixado em Adem, antiga capital do Iémen do Sul.
Além do conflito com os Houthis, o governo, considerado legítimo pela comunidade internacional, actualmente dirigido por Rashad Muhammad al-Alimi (desde 2022), sofre a pressão dos separatistas designados por Movimento do Sul que, por enquanto, são seus aliados mas que exigem a independência do Iémen do Sul. Este movimento controla grande do território do Sul do Iémen. São apoiados, principalmente, pelos Emiratos Árabes Unidos.
Entretanto os Houthis, como apoiantes estratégicos dos iranianos, decidiram ocupar o estreito de Bab el-Mandeb e atacar interesses da Arábia Saudita (incluindo a destruição do oleoduto que liga os campos de petróleo no Leste com o porto de Yanbu, do Golfo Pérsico ao Mar Vermelho). Várias questões se podem colocar: qual a posição dos Estados Unidos sobre esta acção? Qual o papel dos diferentes países que detêm bases militares (Estados Unidos, França, Japão e Itália incluindo a China) no Djibuti (país que se localiza no Estreito Bab el-Mandeb)?
O movimento Houthi iniciou, em 2023, um embargo ao movimento de navios comerciais no Mar Vermelho justificando essa operação como resposta à invasão de Israel da Faixa de Gaza (invasão justificada por Israel pelos ataques do Hamas em 7 de Outubro). Entretanto o Presidente americano, Donald Trump, anuncia em 2025 um cessar-fogo com os Houthis. A administração dos Estados Unidos justifica, assim, a sua decisão: “O governo Trump pensa nos interesses da América“. Quais interesses? Qual o papel da Arábia Saudita? E o Irão?
Curioso! É mesmo um “Portão das lágrimas”!…
