Alfredo Amante, presidente da União de Freguesias da Cidade de Santarém, assume o cargo num contexto exigente, marcado por um impasse político inicial na constituição do executivo, que exigiu diálogo, cedência e um sentido apurado de responsabilidade. Com um discurso centrado na proximidade, no rigor e na mobilização da comunidade, o autarca defende uma presidência de escuta activa e trabalho em equipa, apostando na criação de grupos de trabalho territoriais como modelo de governação participativa. Entre as prioridades enunciadas, destacam-se a regeneração do centro histórico, a qualificação das zonas habitacionais, a reestruturação da limpeza urbana, o reforço da segurança e o papel estratégico da mobilidade inclusiva. Ligado ao associativismo e ao desporto, Alfredo Amante destaca também a importância de revitalizar a vivência dos bairros através das festas populares e da recuperação da ligação afectiva ao território. Rejeitando qualquer protagonismo pessoal, o presidente traça uma visão de mandato focada na dignificação do espaço público, na coesão territorial e na valorização da cidadania activa.
Na campanha apresentou-se como o professor Alfredo Amante, sublinhando a proximidade, a humildade e a disponibilidade para a população. Que elementos da sua biografia pessoal e profissional considera mais determinantes para o exercício deste cargo?
Ao longo da minha vida, sempre procurei estar próximo das pessoas, seja na minha vertente desportiva, em que estive ligado a modalidades colectivas, seja no percurso profissional, profundamente marcado pela pedagogia e pela ética. Estes dois pilares – o saber ser e o saber estar – são essenciais para quem exerce funções públicas. Acredito que o serviço à comunidade exige uma atitude de missão e de escuta activa, e que o exercício do cargo de presidente de Junta deve ser feito com disponibilidade total para perceber e responder às necessidades da população. A ética é, para mim, inegociável: é fundamental manter uma postura correcta, transparente e respeitadora, sobretudo num tempo em que, infelizmente, certos princípios parecem diluir-se. Pretendo estar ao serviço da freguesia com esse compromisso ético e humano.
A sua candidatura destacou-se por apresentar uma ideia de rigor e de serviço à cidade. Em que medida é que esse programa se diferencia dos executivos anteriores?
Cada executivo tem o seu tempo, o seu estilo e a sua legitimidade. Respeito muito quem me antecedeu. No entanto, a proposta que apresentámos em campanha não é um projecto pessoal, é o resultado do trabalho de uma equipa coesa, comprometida com um ideal de proximidade, de escuta e de envolvimento comunitário. Queremos trabalhar com as pessoas, identificar necessidades no terreno, construir soluções de forma partilhada. Essa é, aliás, a única forma de gerar verdadeira mudança: juntos. Sempre defendi que, para que a nossa freguesia possa evoluir, precisamos de caminhar de “mãos dadas”. O nosso foco é simples, mas ambicioso: fazer de Santarém uma freguesia mais próspera, mais coesa e com mais qualidade de vida – e isso só se constrói com todos os cidadãos, sem excepção.
Falou na importância de “avançarmos juntos”. De que forma essa ideia se traduz em medidas concretas de governação? Está previsto algum modelo de participação activa?
Sim, estamos a implementar um modelo assente na criação de grupos de trabalho estruturados, com base em dois critérios: a localização geográfica dos participantes e a sua experiência profissional ou cívica. Estes grupos serão compostos por cidadãos que conhecem bem o seu território e que podem contribuir para diagnósticos mais precisos e soluções mais eficazes. A nossa intenção é que estes grupos se reúnam regularmente – idealmente uma vez por mês – para identificar problemas, propor ideias e acompanhar a evolução das acções da Junta. Não queremos um modelo fechado: pelo contrário, queremos que este seja um processo progressivo, participativo e agregador, que vá envolvendo mais e mais cidadãos. O objectivo é claro: que toda a freguesia se sinta representada, ouvida e co-responsável pela melhoria do espaço onde vive.
Quando fala nesses grupos, refere-se a focos-grupos? Qual o papel concreto dessas estruturas?
Exactamente. Serão focos-grupos com pessoas das diferentes zonas da freguesia, que conhecem bem o seu território. Serão os olhos e os ouvidos da Junta no terreno. Pretendemos que essas pessoas nos transmitam as realidades locais, os problemas, os desejos e até as sugestões que vão surgindo. Mas há algo ainda mais importante: queremos que sejam agentes de informação. Ou seja, que ajudem também a comunicar às comunidades o que está a ser feito, os objectivos traçados, as limitações com que lidamos. Informar é tão essencial quanto escutar. E esse é, aliás, um dos meus princípios base: proximidade com as pessoas e com as instituições, transparência na gestão dos recursos públicos e trabalho sério, contínuo e com resultados visíveis. Só com resultados concretos é que se constrói confiança. E a confiança é a base de tudo.
Referiu a intenção de trabalhar o território com base nas suas especificidades. Quais são, para si, os principais desafios da União de Freguesias da Cidade de Santarém?
A nossa freguesia é profundamente heterogénea e essa diversidade territorial exige abordagens diferenciadas. Não podemos tratar São Domingos, São Bento, o Sacapeito ou o Centro Histórico da mesma forma. Cada zona tem a sua identidade, os seus desafios próprios e a sua dinâmica social. A nossa responsabilidade é perceber essas diferenças, valorizá-las e actuar com coerência. O Centro Histórico, por exemplo, exige uma atenção particular: é um património vivo, que precisa de ser revitalizado com medidas concretas. A mobilidade é um desses pontos cruciais – e tem de ser inclusiva, adaptada a crianças, idosos, pessoas com deficiência. Há zonas onde o piso é absolutamente impróprio, com desníveis que dificultam a circulação e afastam as pessoas. Já abordámos essa questão com a Câmara, porque acreditamos que a regeneração urbana tem de incluir um reequilíbrio da mobilidade. Mas há também uma questão fundamental: as zonas habitacionais. Precisamos de devolver dignidade a muitos bairros. Não basta serem espaços para dormir. Têm de ser lugares de pertença, com equipamentos, cuidados urbanos e vivência comunitária. Esse é um compromisso que assumimos com clareza.
A limpeza urbana, a manutenção de jardins e o estado do espaço público foram bandeiras da sua candidatura. Que medidas estão previstas neste domínio?
A imagem de Santarém é inseparável da sua manutenção. Uma cidade limpa, bem cuidada, com espaços verdes funcionais e ruas em bom estado é uma cidade que se respeita a si própria. Um dos nossos focos passa por reforçar as delegações de competências com a Câmara Municipal, para que a Junta possa intervir de forma mais eficaz e célere. Queremos equipas de trabalho polivalentes, formadas e capazes de responder de forma rápida a pequenos arranjos, problemas pontuais, limpezas urgentes. Para isso, é preciso reorganizar internamente os recursos humanos, criar estruturas operacionais flexíveis e sensíveis às diferentes realidades do território. Há zonas que vão precisar de atenção acrescida numa fase inicial, e é aí que temos de agir com inteligência, sem esperar por grandes investimentos. Pequenas acções bem coordenadas fazem a diferença no dia-a-dia das pessoas.
Tem insistido na importância de trabalhar em articulação estreita com a Câmara Municipal de Santarém. Em que áreas concretas a freguesia vai exigir mais meios e competências da Câmara, e em que dossiês admite assumir um papel mais reivindicativo?
A União de Freguesias tem uma capacidade de resposta mais ágil e uma proximidade real com os cidadãos. Isso não significa fazer de forma menos rigorosa – pelo contrário, temos de ser ainda mais responsáveis. Mas há processos em que a Junta pode intervir com mais eficácia do que a Câmara, precisamente por estar no terreno. Um exemplo claro é a zona da nova rotunda junto ao Continente: estamos a articular com a autarquia para que a Junta possa assumir a gestão dos passeios, ciclovias e espaços verdes até à zona das Portelas e das Trigosas. Esse eixo é importante para a imagem da cidade e para a vivência dos cidadãos. A limpeza, os jardins e o ordenamento são elementos fundamentais da saúde pública, da estética urbana e da qualidade de vida. A nossa entrada norte, com essas intervenções, poderá ganhar outra dignidade.
Que dossiers estão actualmente a ser trabalhados pela União de Freguesias?
Neste momento, temos várias frentes em andamento. Uma delas é, naturalmente, a reorganização financeira e administrativa da Junta. Há ajustes que estão a ser feitos, com sentido de responsabilidade e rigor, para garantir uma gestão transparente e eficiente. Em paralelo, já estamos a actuar ao nível do espaço público, com pequenas intervenções em zonas que exigem manutenção urgente – arranjos de pavimentos, limpeza, espaços verdes. Outro grande desafio, como já referi, é a implementação dos grupos de trabalho, que são, para mim, o eixo de toda a estratégia participativa. Queremos que estes grupos – organizados por localização ou temática – sejam núcleos activos de diagnóstico e proposta. São eles que nos vão ajudar a identificar com maior precisão os problemas e as soluções possíveis para cada zona. Esse modelo de escuta estruturada é uma das minhas grandes apostas neste mandato.
Em relação à Ribeira de Santarém, um território com forte carga simbólica e muitos projectos anunciados, qual é o papel da Junta?
A Ribeira de Santarém é, para mim, um espaço muito especial. Conheço bem aquela zona e acredito que pode ser um dos motores de transformação da cidade. O Parque Natura Tejo, que está em fase de desenvolvimento, será um ponto de viragem. Mas mais do que o parque em si, o importante é trazer as pessoas de volta ao rio. O Tejo é o nosso diamante por lapidar. O parque pode ser um “pulmão verde” e um catalisador de actividades culturais, desportivas e comunitárias. Para isso, é preciso garantir acessibilidade, segurança, equipamento e programação. E esse é o papel da Junta: trabalhar com as instituições locais, apoiar o associativismo e estar presente no território. A Junta não tem de organizar tudo, mas tem de ser um agente facilitador, um elo entre a população e as estruturas de decisão.
A freguesia passou por um período conturbado com dificuldades na instalação do executivo. Como olha para esse processo e que papel quer assumir nesta nova etapa?
Todos os processos políticos exigem tempo, diálogo e, por vezes, cedência. A instalação do executivo da nossa Junta foi marcada por alguma instabilidade inicial, é verdade, mas acredito firmemente que o tempo e o trabalho ajudam a consolidar equilíbrios. Assumo plenamente o meu papel de agregador. Sei que, enquanto presidente, recai sobre mim uma responsabilidade acrescida de unir vontades e promover a estabilidade. Para isso, é necessário pôr de parte agendas pessoais ou partidárias e focarmo-nos no bem comum: a freguesia. Temos de trabalhar como equipa, mesmo quando há divergência. Acredito no poder da confiança e da escuta. É com essa postura que procuro conduzir este mandato – com abertura, humildade e vontade de fazer convergir todas as sensibilidades em torno de objectivos concretos. Não será fácil, mas acredito que é possível e necessário.
O desporto é uma área a que sempre esteve ligado. Há projectos concretos nesta área para a freguesia?
O desporto é parte essencial da vivência comunitária. Santarém tem um tecido associativo muito activo, com várias modalidades e um trabalho notável ao nível da formação. O nosso papel, enquanto Junta, é criar condições para que esse dinamismo se mantenha e se expanda. A Escola Prática de Cavalaria pode vir a desempenhar um papel importante enquanto pólo desportivo da cidade. Já lá existem infra-estruturas relevantes – como o pavilhão onde funciona a Casa do Benfica, com judo e tiro –, mas estamos a trabalhar com a autarquia para concretizar um novo pavilhão, com forte componente de formação. É uma necessidade real, sobretudo perante a elevada procura de horários e espaços disponíveis. Além disso, a criação de mais espaços para caminhar, correr ou praticar desporto informal é fundamental. A Viver Santarém tem feito um trabalho de grande qualidade nesse campo, nomeadamente com o programa de natação para crianças do primeiro ciclo e com as actividades dirigidas à população sénior em todas as freguesias. Quero também destacar o papel do Dr. Carlos Coutinho, cujo contributo tem sido determinante no incentivo à prática desportiva em Santarém.
Tem havido relatos de episódios de insegurança, sobretudo no centro histórico. Que papel pode a Junta assumir nesse campo?
A segurança é uma condição essencial para a qualidade de vida e para a revitalização urbana. De pouco serve dinamizarmos o centro histórico se as pessoas não se sentirem seguras para o frequentar. Queremos trabalhar em articulação com a Associação de Moradores do Centro Histórico, com as forças de segurança e com a Câmara Municipal para reforçar as condições de segurança, nomeadamente com melhor iluminação, mais videovigilância e presença dissuasora no espaço público. Também acreditamos que quanto mais pessoas habitarem, circularem e usufruírem da cidade, mais segura ela se torna. É um ciclo virtuoso. O exemplo que gosto de dar é o do desporto na floresta: em alguns países, como a Suécia, os utilizadores são os melhores guardiões do espaço. O mesmo se aplica à cidade. Se conseguirmos trazer vida para o centro, ele protege-se a si mesmo. Temos também de trabalhar com os operadores de estacionamento e com a rodoviária, por exemplo, para facilitar o acesso com mini-autocarros, ligando as zonas mais exteriores ao coração da cidade. A mobilidade, a segurança e o urbanismo são temas que se entrelaçam.
Falou também da importância das festas e dos eventos. Que papel lhes atribui e que visão tem para o futuro neste domínio?
As festas são muito mais do que momentos de convívio. São rituais de pertença, formas de vivência do espaço público e motores de dinamismo económico e social. As Festas da Cidade têm um papel estruturante e queremos continuar a dar-lhes centralidade. Mas também valorizamos as festas de bairro, como aquelas que existem nas Caneiras ou existiram na Ribeira de Santarém. Algumas foram interrompidas, mas acreditamos que a Junta pode ser um parceiro na sua recuperação – não como organizadora, mas como facilitadora. O nosso papel é apoiar, incentivar e ajudar a construir redes. Viver os bairros, reanimar tradições, dar palco às colectividades e associações é, para mim, uma forma de segurança, de urbanidade e de afecto. Quando as pessoas se reencontram no seu território, criam laços. E Santarém precisa de laços.
Que mudanças concretas gostaria de ver concretizadas no final do mandato? Qual é a marca que quer deixar?
A minha intenção nunca foi deixar uma marca pessoal. O que gostaria mesmo era que, no fim deste percurso, se reconhecesse o trabalho de uma equipa que serviu a freguesia com empenho, proximidade e resultados concretos. Se isso acontecer, sentirei que valeu a pena. Ainda assim, há objectivos muito claros. O primeiro é ver o centro histórico mais vivo, mais habitado, mais vivido. Que as pessoas se sintam parte dele, mesmo que vivam em São Domingos, São Bento ou noutro bairro. O centro tem de ser de todos. O segundo objectivo passa por valorizar as zonas habitacionais, garantindo-lhes condições de dignidade: espaços públicos bem cuidados, equipamentos de proximidade, segurança e sentimento de pertença. E há ainda um terceiro desejo: reavivar o tecido comunitário, apoiar as festas locais, dinamizar colectividades e fazer da Junta um parceiro presente. No fundo, quero que as pessoas sintam que a sua qualidade de vida melhorou – e que isso só foi possível porque houve uma Junta com capacidade de escuta e acção.
Gostaria de deixar alguma mensagem final?
Quero apenas reforçar algo que sempre defendi: não sou um presidente de palco nem de figura. Sou mais um elemento de uma equipa que quer fazer bem à freguesia. Nunca pretendi protagonismo individual. O que me motiva é o bem colectivo, a possibilidade de, através do diálogo, da proximidade e da escuta, melhorar a vida de quem aqui vive. E acredito que só com a participação de todos conseguimos alcançar esse objectivo. Há muitas pessoas que vivem isoladas, com boas ideias, mas que não têm onde as partilhar. A Junta tem de ser esse espaço de ligação. Quero estar junto das pessoas. Quero fazer com elas. E quero que, no final deste mandato, possamos olhar para trás e dizer, com verdade: valeu a pena.
Filipe Mendes


