Regressado do Oriente em Julho, o Professor Doutor Cândido Azevedo — o “Cândido”, para os amigos — prepara-se para voltar a fazer as malas. A estadia em Portugal é curta. Ainda este mês ruma de novo à China e a Macau, a convite oficial das autoridades locais. Mas antes da partida, há tempo para um balanço e para apresentar a obra que marcou o seu regresso: o Centro Museológico que leva o seu nome e a designação de D. Francisco de Almeida, inaugurado em Maio na vila de Pernes.

O momento, que mereceu reportagem na RTP1 e destaque no Correio do Ribatejo, reuniu o presidente da Câmara de Santarém, o presidente da Junta de Freguesia, vereadores, família e dezenas de amigos. É o culminar de uma vida entre continentes e de uma colecção de mais de mil peças recolhidas ao longo de 35 anos.

 

De Moçambique para Santarém: 12 anos a fazer desporto

Embora não seja ribatejano, é em Santarém que Cândido Azevedo finca raízes. Chega em Dezembro de 1974, vindo de Moçambique, como professor de Educação Física na Escola Industrial e Comercial. Em Agosto de 1976 é destacado pelo I Governo Constitucional para responsável da Delegação da Direcção-Geral dos Desportos no Distrito de Santarém, cargo que ocupa até Abril de 1988, atravessando 11 governos de cores diferentes. Em simultâneo, é convidado pela Câmara para integrar a Comissão Executiva da Feira Nacional de Agricultura durante nove anos (1977/1985). Nos seis primeiros coordena o Departamento de Actividades Didácticas e de Animação e nos dois últimos acumula Comunicação Social, Relações Públicas e Promoção. 

Por inerência, entre 1985 e 1988, é membro da Assembleia Geral da Região de Turismo do Ribatejo.

Fora do horário oficial, o que mais gostava era ensinar e estudar. Ao fim do dia treinava ginastas da Casa do Benfica e da Académica, lançando no distrito as modalidades de Trampolins e Ginástica Artística. 

Logo em 1975, Santarém tem os primeiros campeões nacionais. Da dinâmica nasce, em Maio de 1982, a Associação de Ginástica de Santarém. 

À noite, duas vezes por semana, fazia a viagem até Lisboa para se licenciar em História. 

 

Trinta anos no Oriente

Em 1988, parte para Macau. O que era para ser uma comissão de dois anos, com mais dois de opção, na direção do Instituto do Desporto, transforma-se em 30 anos de carreira.

A experiência de Santarém leva o Governo de Macau a colocá-lo também, em simultâneo na direcção do Conselho de Juventude.

Com o passado de instrutor de tropas Comandos em África, a pedido do Governo acumula ainda, das 7 às 9 da manhã, a cadeira de instrutor de ginástica de aplicação militar na Escola Superior das Forças de Segurança de Macau criada em 1995.

O percurso académico acompanha o profissional. Em 1994, após a criação do Curso Superior de Desporto, assume a sua coordenação. Quando inicia o doutoramento em 1997, é nomeado coordenador do Curso Superior de Administração Pública, função que mantém até 2001, ano em que conclui o doutoramento na Universidade do Porto. Segue-se um ano sabático em Portugal, em 2001/2002, que coincide com as autárquicas.

A pedido do partido (PSD) candidata-se à Câmara de Almeirim frente ao histórico José Sousa Gomes. É vereador por alguns meses e, terminado o ano sabático regressa a Macau que o aguarda. Novos desafios o esperam, um muito especial, na Universidade de Pequim, onde fica sete anos, até à reforma.

Mesmo reformado, é convidado para dirigir o Departamento de Actividades Culturais, Artísticas e Filantrópicas da maior fundação privada de Macau, onde fica mais dois anos e meio.

Regressa definitivamente, em 2018, por motivos familiares, pouco antes da pandemia. Nesses anos de Macau conheceu em serviço ou em investigação todos os países da Ásia, principalmente os antigos domínios portugueses, excepto Coreia do Norte, e apresentou comunicações em Simpósios, Reuniões Científicas e Técnico-profissionais em países como a Austrália, Coreia do Sul, Canadá, África do Sul, Brasil, China e Índia (Goa).

Com as suas equipas levou para Macau projectos pioneiros: os Jogos Sem Fronteiras da televisão italiana, logo em 1990, o ROCK Macau, em 89 e 90, com as melhores bandas de Portugal e Hong Kong — anos antes do Super Bock Super Rock de 1995 em Lisboa —, e muitos outros projectos como o 1.º Emprego para Jovens em Férias, o Projecto Arte e Desporto, ou o Voluntariado em Hospitais. Sem proclamações como o “saber fazer”, com uma vasta obra literária (11 livros publicados) Cândido Azevedo, ano após ano, em silêncio, provava no terreno o que valia, e só por isso, mais uma vez ele aí vai.

 

Porquê Pernes e porquê D. Francisco de Almeida

Nas viagens de serviço e de investigação para a tese, que abarcou todos os antigos domínios portugueses no Oriente, foi adquirindo peças: móveis, cerâmicas, têxteis, armas, estatuetas. Algumas herdadas dos pais, naturais de Goa. Outras, com quase 500 anos, como porcelanas azuis e brancas da dinastia Ming, talhas douradas ou a janela do palácio de um mandarim. Recusou sempre vendê-las. Queria um museu didáctico. 

Escreveu a várias autarquias com ligação histórica ao Oriente. Todas, excepto uma, responderam com interesse. A Câmara de Santarém mostrou disponibilidade apenas para exposições temporárias, o que rejeitou pela fragilidade das peças. 

A Junta de Freguesia de Pernes, com quem mantém laços de amizade de décadas e que já lhe tinha pedido o espólio de piões, avançou com proposta para um espaço próprio. Aceitou de imediato. O nome não é por acaso. O edifício vai albergar dois museus. Não poderia chamar-se Museu do Oriente, porque já existe em Lisboa. Ficou Centro Museológico e a galeria principal recebeu o nome de D. Francisco de Almeida, primeiro vice-rei do Estado da Índia, fundado em 1505, que ia da costa oriental africana ao Golfo Pérsico, à Índia, ao Sueste Asiático, às Molucas e a Nagasáqui e Timor. 

A mãe de D. Francisco, D. Beatriz da Silva, Condessa de Abrantes, recebera de D. Afonso V os moinhos de água de Pernes, onde a família tinha casa de recreio.

 

Um museu denso, propositadamente

O espaço é pequeno para mais de mil peças e a opção técnica foi clara: percorrer o perímetro com vitrines elevadas e o interior com vitrines planas. 

Cada vitrine conta uma história maior: a partida para o Oriente, a movimentação por mar e terra, o encontro com outros povos — swahilis, árabes omanitas e persas, indianos, malaios, chineses e japoneses —, as religiões, a ligação ao sobrenatural, o trabalho artesanal, as lendas, a evolução da cerâmica do barro à porcelana.

“A densidade é intencional: é um museu didáctico, onde cada peça conta um facto histórico da presença portuguesa, um processo pioneiro que transformou Portugal e o mundo nos séculos XV e XVI”, explicou Cândido Azevedo ao Correio do Ribatejo.

Ao lado, a Sala de Estudos e Memória, mobilada à oriental, guarda distinções dos governos de Portugal, Macau e China e cerca de 500 livros sobre História de Portugal e Descobrimentos. 

A ideia é lançar um concurso anual para alunos do secundário do concelho de Santarém, sobre os Descobrimentos, com prémio de mil euros. 

 

As condições e o impacto

Cândido Azevedo impôs quatro condições à Junta de Pernes: manter a perspectiva didáctica; se o museu fechar, o espólio volta aos herdeiros; colocar placa indicativa na estrada nacional; e, quando o Museu do Pião abrir, garantir um guia com horário de museu. 

O acesso é gratuito para escolas e visitas individuais. Para grandes grupos prevê-se a taxa simbólica de 10 euros.

O impacto já se sente: no último mês, quatro grupos de Lisboa, 90 pessoas, almoçaram em Pernes, alguns dormiram no hostel Torneiro. Houve visitantes americanos e um compositor criou mesmo uma canção dedicada ao museu. 

Se houver apoio para vitrines, o Museu do Pião abre nos primeiros meses de 2027, com cerca de mil piões. Será o terceiro no mundo dedicado ao pião, ex-líbris de Pernes, capital da madeira torneada.

Hoje, com mais de 70 anos, Cândido mantém duas colaborações anuais: em Macau coordena o Grande Encontro dos Jogos Tradicionais Portugueses, parte do Festival da Lusofonia, e os Passeios com História na zona classificada Património Mundial da UNESCO; em Hengqin, desde 2025, integra os três dias dedicados a Portugal.

A lição que quer deixar: “Não hipotequem o patriotismo. Portugal era pequeno e fustigado por crises e decidiu navegar por oceanos nunca explorados. Deixou três lições: Inovação e Ciência, Resiliência perante a Adversidade e Globalização e Multiculturalidade.”

Em Pernes, essa viagem no tempo já pode ser feita. É só entrar.

JPN

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Leia também...

“Auto da Barca do Inferno” em peregrinação pela Vila de Sardoal

O GETAS vai levar à cena no próximo dia 19 de Novembro, pelas 21 horas, a peça “Auto da Barca do Inferno”, de Gil…

Entroncamento celebra hoje o 77º aniversário da elevação a concelho

O Entroncamento celebra hoje, dia 24 de Novembro, o 77º aniversário da elevação a concelho. Um dia de aniversário marcado por momentos simbólicos que…

IP prepara requalificação da EN118 em Benavente para reforçar segurança

A Infraestruturas de Portugal (IP) está a elaborar um projeto para a requalificação da Estrada Nacional (EN) 118 nos troços entre Salvaterra de Magos…

Homem detido em Almeirim por não cumprir prisão domiciliária

A GNR anunciou a detenção de um homem de 41 anos no concelho de Almeirim por incumprimento da medida de coação de prisão domiciliária.…