A Associação do Fado de Santarém apresentou-se a 14 de Outubro no Museu do Fado, em Lisboa, com um projecto que procura recuperar a memória fadista da região e formar novas gerações de intérpretes. Nuno Pelarigo, presidente da associação e filho do fadista António Pelarigo, fala ao Correio do Ribatejo sobre a ambição de criar um Museu do Fado do Ribatejo, os projectos de uma escola e de um festival para Santarém, o espectáculo “O Ribatejo no Fado” e as memórias de infância junto de algumas das maiores figuras do género.
A Associação do Fado de Santarém apresentou-se no Museu do Fado, em Lisboa. Que balanço faz desta apresentação e que significado teve a escolha de uma instituição de referência nacional para dar a conhecer o projecto?
Foi um sucesso, pelo menos pelo retorno que tivemos, incluindo do próprio Museu do Fado, a quem agradecemos a disponibilidade. Fazia todo o sentido apresentar ali a associação, porque é o principal palco do fado a nível nacional e uma instituição que sempre deu atenção a figuras do fado de Santarém e do Ribatejo. Temos uma identidade e uma linguagem próprias, mas o fado não é só nosso, pertence ao país inteiro.
Santarém tem uma tradição fadista marcada por nomes, espaços e tertúlias que fazem parte da sua história cultural. Como nasceu a associação e que necessidade esteve na origem da sua criação?
Nasceu de conversas entre mim e um amigo, ambos criados no meio do fado, pela ligação dos nossos pais. Mais tarde, juntou-se Artur Cassiano, que trouxe outras ideias ao projecto. Sentíamos que muitas memórias de fadistas, casas de fado e tertúlias se estavam a perder. Queremos preservar essa identidade, reunir pessoas em torno desta causa e transmitir esse património às novas gerações. Uma das nossas grandes ambições é criar um Museu do Fado do Ribatejo, precisamente para que essa memória não desapareça.
Um dos projectos da associação é “Levar o Fado às Escolas”, procurando aproximar esta expressão musical das novas gerações. Como pretendem transmitir aos mais jovens uma tradição que, durante décadas, passou sobretudo de geração em geração, através das famílias e das tertúlias?
Antigamente, essa transmissão fazia-se naturalmente. Eu cresci a adormecer à mesa, a ouvir o meu pai e os mais velhos cantar fado e contar histórias pela madrugada dentro. Hoje, os miúdos já não vivem esses ambientes e temos de encontrar outras formas de lhes transmitir esta cultura. Há muitos jovens que gostam de fado e de guitarra portuguesa, mas não conheceram essa vivência. Levar o fado às escolas é uma forma de lhes dar a conhecer esta identidade, porque o Ribatejo não é apenas o toiro, o campino ou o círio. O fado também faz parte da nossa cultura.
A criação de uma Escola de Fado é outra das apostas da associação. Em que fase se encontra o projecto e que tipo de formação pretendem proporcionar aos futuros intérpretes e músicos?
Estamos à procura de um espaço e já temos muita procura de alunos. Queremos ensinar a cantar e a tocar fado, que é diferente de aprender simplesmente um instrumento musical. É preciso conhecer as melodias, as técnicas de canto, a respiração, a dicção e, sobretudo, compreender a alma do fado. A formação será para jovens e adultos, tanto cantores como instrumentistas. Queremos também ensinar a importância dos poetas e compositores, porque quem canta um fado deve saber quem escreveu a letra e quem compôs a música. É uma forma de preservar e transmitir este património.
Entre os projectos da associação está também «O Ribatejo no Fado», que recupera um programa da RTP de 1983. Em que consiste esta iniciativa e como conseguiram reunir tantos artistas e outras pessoas em torno deste projecto comum?
É a recriação de um programa da RTP de 1983, num espectáculo que queremos levar aos palcos, com fadistas e músicos do Ribatejo e temas alusivos a Santarém e à nossa região. Para concretizar esta missão, percebemos que precisávamos de juntar mais pessoas. Convidámos os colegas do projecto, Célia Leiria, Pedro Amendoeira, Diogo Ferreira, Ginestal Martins, Filipa Maltieiro, Madalena Gil e Filipe Garcia. Juntaram-se também Filipa Martinha, Diana Romão, Raúl Morgado e Sara Oliveira, que, mesmo não estando directamente ligados ao fado, partilham esta identidade cultural. Mais do que criar uma associação, queremos unir pessoas, valorizar os nossos artistas e dar ao fado de Santarém e do Ribatejo o lugar que merece.
O Festival do Fado de Santarém é outro dos projectos que pretendem concretizar, com a ambição de alcançar dimensão nacional. Que modelo têm em mente e de que forma poderá contribuir para dinamizar o centro histórico da cidade?
É um projecto que tenho há muitos anos e que fomos desenvolvendo na associação. Queremos reunir figuras nacionais do fado, mas também dar palco aos fadistas de Santarém e do Ribatejo e oportunidades aos mais novos. A ideia é distribuir os espectáculos por vários espaços do centro histórico, como o Museu do Alporão, a Igreja de São Nicolau e as praças da cidade, terminando no Largo do Seminário. Queremos envolver a restauração, o turismo e toda a comunidade. Não se trata apenas de organizar concertos, mas de atrair visitantes, fazê-los circular pela cidade e contribuir para dar mais vida ao nosso centro histórico.
A associação pretende também promover a Gala do Fado António Pelarigo, homenageando o seu pai, uma das figuras marcantes do fado em Santarém. Que conceito está pensado para esta iniciativa e como poderá contribuir para preservar a memória de outros protagonistas desta tradição musical?
É um projecto que trouxe à associação e que todos acolheram. Sei que, sendo filho, é uma situação delicada, mas acho que o meu pai merece esta homenagem, por tudo o que deixou ao fado. Queremos reunir artistas que o conheceram, alguns hoje figuras nacionais, envolver fadistas do Ribatejo e dar oportunidades aos mais novos. A ideia é também homenagear, todos os anos, uma figura do fado, seja cantor, músico ou poeta, da nossa região ou de qualquer outra. Queremos ligar o passado, o presente e o futuro, mantendo viva a memória de quem tanto deu ao fado.
A concretização destes projectos exige espaços, financiamento e parcerias. Que apoios tem a associação e que iniciativas poderão começar a ganhar forma já em 2027?
Temos tido todo o apoio da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia e estamos a reunir com várias instituições e associações culturais. Queremos envolver toda a comunidade, porque ninguém faz nada sozinho. Para 2027, temos vários projectos, nomeadamente uma programação mensal no Museu do Alporão, com espectáculos intimistas dedicados a diferentes temas, como a guitarra portuguesa, a poesia ou as mulheres no fado. Queremos também promover tertúlias mensais, recuperando histórias e memórias de outros tempos. Precisamos naturalmente de financiamento e estamos a procurar parceiros para concretizar estas iniciativas.
Cresceu rodeado de grandes figuras do fado, acompanhando o seu pai, António Pelarigo, e convivendo, ainda criança, com nomes como Amália Rodrigues, no Palácio de Pintéus. Que memórias guarda desse tempo e de que forma essas vivências marcaram a sua vida?
Costumo dizer que a vida do fado é a melhor escola da vida. Era miúdo, vinha das Caneiras e, de repente, estava sentado à lareira, ao lado de Amália Rodrigues, rodeado de figuras como Fontes Rocha, Beatriz da Conceição, João Braga ou Teresa Tarouca. Ficava deslumbrado a ouvir aquelas pessoas e as suas histórias, até o meu pai me mandar para a cama. Na altura, não tinha consciência da importância daqueles momentos, mas tudo foi ficando dentro de mim e moldou a minha personalidade e a minha maneira de estar na vida. Agradeço todos os dias aos meus pais terem proporcionado a mim e aos meus irmãos essas experiências. É uma herança de que tenho um orgulho enorme.
