Rui Serrano foi eleito presidente da Direcção da NERSANT – Associação Empresarial da Região de Santarém / Câmara do Comércio e Indústria, para o Triénio 2026-2028.

Concluído o processo eleitoral para os Órgãos Sociais da Associação, os associados renovaram a sua confiança na equipa directiva, dando início a um novo ciclo de governação iniciado a 24 de Julho deste ano. 

Nesta entrevista ao Correio do Ribatejo, Rui Serrano deixa a mensagem: “Há uma vontade clara de renovar prioridades, modernizar instrumentos e reforçar a influência da NERSANT no desenvolvimento da região.”

Como aparece o empresário Rui Serrano na presidência da NERSANT?

O meu percurso profissional esteve sempre muito ligado ao território e ao desenvolvimento da região. Depois de concluir a licenciatura em Arquitectura, em 1997, iniciei funções como técnico de desenvolvimento rural na TAGUS – Ribatejo Interior e, mais tarde, fundei a MODO Associados, um gabinete de arquitectura sediado no Sardoal. Tive também uma participação activa na Ordem dos Arquitectos – Presidente do Núcleo do Médio Tejo, vogal da Secção Regional Sul entre 2005 e 2008 e membro do Conselho Directivo Nacional entre 2020 e 2023 – e fui Vice-Presidente das Câmaras Municipais de Abrantes e de Tomar, entre 2009 e 2016. É essa soma de arquitectura, intervenção cívica e gestão autárquica que me trouxe à NERSANT, onde no último mandato fui primeiro Presidente do Núcleo de Abrantes depois acumulei a vice-presidência da NERSANT e, desde 27 de Novembro 2025, presidente, na sequência da saída de António Pedroso Leal exerço as funções de Presidente. A eleição de 24 de Julho para o triénio 2026–2028 representa, acima de tudo, uma responsabilidade acrescida e um compromisso muito claro: colocar a experiência adquirida ao serviço das empresas e contribuir para uma NERSANT mais próxima, mais interventiva e com maior capacidade para defender e desenvolver economicamente a região.

Na última Assembleia Geral da Associação deixou uma palavra de apreço aos cinco presidentes que, ao longo de 37 anos, dirigiram a NERSANT. Como avalia o trabalho desenvolvido por cada um deles?

A palavra de apreço que deixei aos cinco antigos Presidentes foi, acima de tudo, um acto de justiça e de reconhecimento institucional. A NERSANT não começou com esta Direção. É uma instituição com 37 anos de história, construída por diferentes lideranças, em contextos económicos e sociais muito distintos, mas sempre com o propósito comum de servir as empresas e contribuir para o desenvolvimento da região.

José Eduardo Marçal teve o mérito fundador e de dar os primeiros passos de um projecto associativo que nasceu com grande ambição regional. José Eduardo Carvalho reforçou essa ambição, projectando a NERSANT e afirmando-a como uma voz relevante na defesa do tecido empresarial. Salomé Rafael, ao longo de três mandatos, deu continuidade e consistência a esse caminho, consolidando a Associação, reforçando a sua dimensão e ampliando a sua capacidade de intervenção. Domingos Chambel imprimiu determinação e proximidade à causa associativa, conduzindo a NERSANT num período particularmente exigente para as empresas. António Pedroso Leal assumiu a responsabilidade de liderar a instituição numa fase igualmente desafiante, assegurando a sua continuidade e mantendo o compromisso da NERSANT com os seus associados.

Cada um deixou a sua marca e todos contribuíram para que a NERSANT seja hoje uma das mais representativas associações empresariais do país. Naturalmente, cada liderança tomou as decisões que considerou mais adequadas ao seu tempo. Cabe-nos agora respeitar esse legado, aprender com o percurso realizado e acrescentar um novo capítulo à história da Associação. Não partimos do zero: partimos de uma base construída ao longo de quase quatro décadas, com a responsabilidade de a fortalecer e de a preparar para os desafios do futuro.

A sua presidência assume o mote “37 anos. E ainda agora começámos.” Qual o compromisso assumido com as cerca de 3.200 empresas associadas?

O compromisso é fazer com que cada empresa associada reconheça na NERSANT uma instituição próxima, útil e capaz de representar verdadeiramente os seus interesses. O nosso universo associativo integra empresas com diferentes dimensões, necessidades e realidades, distribuídas por um território amplo, e todas devem sentir que têm na NERSANT uma voz activa e um parceiro para o seu desenvolvimento.

Neste mandato queremos reforçar a proximidade com os associados e com os diferentes concelhos, melhorar o acompanhamento prestado às empresas e criar mais oportunidades de formação, inovação, internacionalização, financiamento e cooperação empresarial. Queremos também exercer uma representação mais firme junto do Governo, dos municípios e das restantes entidades públicas, levando aos centros de decisão os problemas concretos que condicionam a actividade empresarial.

Há desafios estruturais que exigem uma intervenção articulada. A falta de habitação e de mobilidade dificulta a atracção e fixação de trabalhadores. Os custos energéticos reduzem a competitividade. A burocracia e a morosidade dos licenciamentos atrasam investimentos. A escassez de qualificações limita o crescimento. A NERSANT não pode resolver sozinha estes problemas, mas pode estudá-los, apresentar propostas, mobilizar parceiros e exigir respostas.

O mote “37 anos. E ainda agora começámos.” traduz precisamente esta ambição. Reconhecemos e valorizamos o caminho percorrido, mas não queremos viver apenas do prestígio alcançado. Queremos transformar a experiência acumulada numa nova capacidade de acção, construindo uma NERSANT mais moderna, mais participativa e ainda mais relevante para as empresas e para o desenvolvimento económico da região.

Pretende que o seu projecto seja reconhecido como de continuidade ou de ruptura com as anteriores direcções?

Não vejo este projecto como uma ruptura com o passado, nem como uma continuidade passiva. Vejo-o como uma evolução responsável. A NERSANT tem 37 anos de história, uma identidade consolidada e um património de conhecimento, relações e trabalho realizado que devemos respeitar e valorizar. Mas respeitar a história da instituição não significa manter tudo inalterado. Significa ter a capacidade de preservar o que continua a ser útil, corrigir o que já não responde às necessidades das empresas e criar novas respostas para um contexto económico profundamente diferente.

As empresas enfrentam hoje desafios muito concretos, como a dificuldade em atrair e fixar trabalhadores, a falta de habitação, os custos da energia, a escassez de qualificações, a burocracia, a transição digital e o acesso ao financiamento. A NERSANT tem de acompanhar esta transformação e antecipar os problemas, em vez de se limitar a reagir quando eles surgem.

Queremos, por isso, iniciar um novo ciclo, assente numa Associação financeiramente sustentável, mais próxima dos associados, mais presente no território e com maior capacidade de intervenção junto dos centros de decisão. Há uma linha de continuidade no compromisso de servir as empresas, mas existe também uma vontade clara de renovar prioridades, modernizar instrumentos e reforçar a influência da NERSANT no desenvolvimento económico da região. É essa combinação entre experiência e renovação que queremos imprimir ao mandato.

A NERSANT aprovou recentemente o Relatório e Contas de 2025 onde reafirma o compromisso com as empresas da região. Qual é actualmente a saúde financeira dessa casa?

A NERSANT apresenta hoje uma situação financeira mais equilibrada e uma estrutura patrimonial reforçada. O exercício de 2025 encerrou com um resultado líquido positivo de 1.052.423,59 euros e uma autonomia financeira superior a 60%, tendo sido possível reduzir significativamente o endividamento e os encargos associados.

Estes resultados devem, contudo, ser interpretados com rigor, uma vez que foram fortemente influenciados pela alienação de património. A venda do Pavilhão não correspondeu apenas a uma necessidade financeira. Foi uma decisão de gestão sobre um activo que já não era utilizado para a realização de feiras, que se encontrava em progressiva degradação e que representava um custo permanente para a Associação.

A operação permitiu transformar um património que já não cumpria uma função estratégica numa alavanca para reduzir dívida, reforçar a estabilidade financeira e criar melhores condições para um novo ciclo da NERSANT. Temos hoje uma base mais favorável, mas o trabalho não está concluído. A prioridade é consolidar a sustentabilidade da actividade corrente, manter uma gestão prudente e assegurar que esta maior capacidade se traduz em novos investimentos e em projectos com impacto efectivo nas empresas e na região.

Foi uma operação que “salvou” a NERSANT e garantiu a sua continuidade?

Foi uma operação decisiva para reforçar a estabilidade financeira da NERSANT, mas não a classificaria como uma operação de “salvação”. Essa expressão reduz uma decisão estratégica de gestão a uma situação de emergência e não traduz devidamente o contexto em que foi tomada.

O Pavilhão teve uma importância inegável na história da NERSANT e na realização das grandes feiras empresariais da região. Contudo, há vários anos que já não era utilizado para essa finalidade, encontrava-se num processo progressivo de degradação e representava um encargo permanente para a Associação. Continuar a suportar custos de manutenção e conservação de um espaço que já não cumpria uma função estratégica não seria uma decisão responsável.

A alienação permitiu valorizar esse património no momento adequado, reduzir significativamente o endividamento e os respectivos encargos e reforçar a capacidade financeira da Associação. Transformámos um activo que gerava custos e já não estava ao serviço da actividade da NERSANT numa alavanca para o futuro.

Foi uma decisão tomada com respeito pela história do Pavilhão, mas também com a responsabilidade de olhar em frente. O mais importante agora é utilizar a margem criada por esta operação para consolidar a sustentabilidade da Associação, modernizar a sua intervenção e preparar novos investimentos e projectos que beneficiem as empresas e contribuam para o desenvolvimento económico da região.

Saímos de uma pandemia em 2021, este ano enfrentámos temporais como o Kristin que afectou centenas de empresas na região. O papel do Estado na ajuda às empresas após essas crises tem sido suficiente? Qual é a avaliação que faz?

O Estado tem procurado responder a estas situações, e é justo reconhecer as medidas que foram adoptadas. No entanto, a experiência da pandemia e, mais recentemente, da depressão Kristin demonstra que continuam a existir dificuldades na rapidez, na adequação e na concretização dos apoios às empresas.

Após a tempestade, muitas empresas ficaram impossibilitadas de laborar não apenas pelos danos nas instalações, equipamentos e mercadorias, mas também pela interrupção prolongada do fornecimento de energia eléctrica e das comunicações. Quando uma empresa permanece vários dias sem produzir, continua a suportar salários, compromissos financeiros e custos fixos, ao mesmo tempo que perde encomendas, clientes e capacidade de resposta. Essa realidade nem sempre é devidamente considerada nos mecanismos de apoio.

As linhas de crédito podem ajudar a resolver necessidades imediatas de tesouraria, mas não são uma resposta suficiente para empresas que sofreram prejuízos muito elevados. Nesses casos, recorrer apenas a financiamento significa acrescentar dívida a uma empresa que já foi penalizada por uma circunstância que não podia prevenir nem controlar. Por isso, temos defendido a existência de apoios a fundo perdido para as situações mais graves, acompanhados por procedimentos mais simples e decisões mais rápidas.

Há também uma responsabilidade que ultrapassa a compensação pelos danos. É indispensável reforçar a resiliência das redes de energia e de comunicações e melhorar a coordenação entre o Estado, os municípios, as associações empresariais e as entidades responsáveis pelas infra-estruturas. Apoiar a recuperação é essencial, mas preparar o território para reduzir o impacto de futuras crises é igualmente importante. A NERSANT continuará disponível para colaborar, apresentar propostas e levar ao Governo a realidade concreta das empresas da região.

A NERSANT tem apostado na transição digital, é uma aposta para continuar, nomeadamente a organização de feiras digitais?

A transição digital continuará a ser uma aposta da NERSANT, incluindo a realização de feiras digitais. Este formato permite às empresas divulgar os seus produtos e serviços junto de um público alargado, estabelecer novos contactos e aceder a mercados nacionais e internacionais, com custos de participação mais reduzidos. É uma solução particularmente relevante para as micro e pequenas empresas e constitui uma oportunidade adicional de promoção e geração de negócio.

Ao mesmo tempo, reconhecemos que as feiras presenciais têm um impacto muito importante na criação de relações comerciais, na apresentação directa dos produtos e serviços e na dinamização económica do território. O contacto entre empresários, a proximidade com os clientes e a experiência proporcionada por um evento físico continuam a ter um valor insubstituível.

Não encaramos, por isso, os dois formatos como concorrentes, mas como instrumentos complementares. As feiras digitais ampliam o alcance, prolongam a visibilidade das empresas e facilitam o acesso a novos públicos, enquanto as feiras presenciais reforçam a proximidade, a confiança e as relações de negócio.

O digital assume também uma importância crescente nas acções de formação, seminários e sessões de esclarecimento, permitindo chegar a mais empresas, reduzir deslocações e facilitar a participação de empresários e trabalhadores de todo o território. A nossa estratégia passa por utilizar cada formato onde possa gerar maior impacto, combinando a força do contacto presencial com as oportunidades e o alcance proporcionados pelas ferramentas digitais.

De que forma a NERSANT se relaciona com os mercados internacionais? Os contactos que tem vindo a estimular que volume de negócios, na prática, criou?

A internacionalização é uma das áreas em que a NERSANT pode gerar maior valor para as empresas, sobretudo para as micro e pequenas empresas que, isoladamente, teriam mais dificuldade em identificar parceiros, contactar compradores estrangeiros ou entrar em novos mercados.

A nossa actuação desenvolve-se através de missões empresariais, participação em feiras internacionais, recepção de importadores, realização de encontros de negócio e promoção das oportunidades de investimento da região. Através do NERSANT Business, aproximamos directamente as empresas regionais de compradores e parceiros internacionais. Participamos também em eventos como a MIPIM, em Cannes, onde promovemos o potencial económico e a capacidade de atracção de investimento do Ribatejo.

Os resultados não devem ser avaliados apenas pelo valor imediato dos contractos celebrados. Por exemplo, o AGRIBusiness 2025 reuniu 27 importadores provenientes de 17 mercados, envolveu 61 empresas e proporcionou mais de 600 reuniões de negócio. Estes são contactos qualificados que podem resultar em encomendas, parcerias ou entrada em novos mercados, por vezes vários meses depois da realização da iniciativa.

Não podemos apresentar um valor global rigoroso do volume de negócios gerado, porque as negociações e transacções são realizadas directamente entre as empresas e nem sempre os respectivos montantes são comunicados à NERSANT. O que podemos medir é o número de empresas apoiadas, os mercados alcançados, os compradores envolvidos, as reuniões realizadas e as oportunidades comerciais criadas.

Queremos também reforçar o acompanhamento posterior a estas iniciativas, para conhecer melhor os resultados obtidos e aperfeiçoar a nossa intervenção. O papel da NERSANT é abrir portas, reduzir barreiras de entrada e criar condições para que as empresas da região possam competir e crescer nos mercados internacionais.

Que resultados apresenta a rede regional de incubação de empresas, com presenças em Santarém, Alcanena, Ourém e Torres Novas? As start-ups são um pilar estratégico da NERSANT? É esse o caminho?

As startups e o apoio ao empreendedorismo são um pilar estratégico da NERSANT, não apenas pelo número de novas empresas que podem gerar, mas também pela sua capacidade de introduzir inovação, criar emprego qualificado e contribuir para a fixação de talento na região.

Em 2025, acompanhámos 144 potenciais empreendedores, apoiámos a elaboração de 53 planos de negócio e contribuímos para a criação de 44 novas actividades empresariais. A nossa rede regional de incubação, com presença em Santarém, Alcanena, Ourém e Torres Novas, acolheu mais de 87 empresas e projectos, disponibilizando acompanhamento técnico, instalações, capacitação e acesso a uma rede de parceiros.

A renovação da acreditação da Startup Santarém, Startup Alcanena, Startup NERSANT Torres Novas e Startup Ourém no âmbito da Rede Nacional de Incubadoras da Startup Portugal reconhece a qualidade deste trabalho e reforça as oportunidades disponíveis para as empresas incubadas, nomeadamente ao nível do financiamento, da formação, da mentoria e da ligação ao ecossistema nacional de empreendedorismo.

Mas uma incubadora não deve limitar-se a disponibilizar um espaço físico. Deve ajudar a transformar uma ideia num projecto economicamente viável, apoiar os primeiros passos da empresa e acompanhá-la na sua entrada no mercado. Queremos reforçar esta ligação entre os empreendedores, as empresas já instaladas, as instituições de ensino, os municípios e os investidores.

Uma região competitiva precisa de apoiar as empresas que já criam riqueza e emprego, mas precisa também de gerar novos negócios, estimular a inovação e criar condições para que os jovens empreendedores possam desenvolver os seus projectos sem terem de sair do território. É esse o caminho que queremos aprofundar.

Como vê a passagem dos Institutos a Universidades Politécnicas, em Santarém e Tomar, e que importância poderá assumir essa alteração para as empresas da região?

Vejo essa evolução como muito positiva para a região. Temos de reconhecer que, durante muitos anos, existiu na sociedade a percepção de que o ensino politécnico tinha menor reconhecimento do que o ensino universitário. Essa percepção, que considero injusta, nunca correspondeu à qualidade da formação, da investigação e do trabalho desenvolvido pelos Institutos Politécnicos de Santarém e de Tomar.

A passagem a Universidades Politécnicas pode contribuir para ultrapassar definitivamente essa ideia de menoridade e atribuir a estas instituições o reconhecimento que já conquistaram pelo mérito do seu trabalho. Não se trata de abandonar a identidade do ensino politécnico, mas de a valorizar, preservando aquilo que constitui uma das suas maiores forças: a formação prática, a investigação aplicada e a proximidade às empresas e ao território.

Esta alteração poderá reforçar a capacidade de atrair estudantes, docentes e investigadores, aumentar a projecção nacional e internacional das duas instituições e criar novas oportunidades de cooperação com o tecido empresarial. Para a região, será também um instrumento importante de retenção de talento e de atracção de investimento.

O desafio será transformar esse reconhecimento em resultados concretos, aprofundando a ligação entre o ensino superior e as empresas, desenvolvendo formação ajustada às necessidades da economia e promovendo projectos de investigação, inovação e transferência de conhecimento.

A NERSANT considera esta evolução uma oportunidade estratégica e está disponível para reforçar a cooperação com as duas instituições. Uma região com ensino superior forte, reconhecido e ligado às empresas tem melhores condições para inovar, competir e crescer.

No capítulo do Turismo, o presidente do NERSANT concordaria com a separação do Alentejo e do Ribatejo no mapa das regiões? O que é que o Ribatejo tem perdido e tem ganho por estar ‘anexado’ ao Alentejo?

É uma discussão legítima, porque o Alentejo e o Ribatejo são territórios com identidades, características e produtos turísticos muito distintos. A integração numa estrutura comum permitiu alguma articulação e partilha de recursos, mas não podemos ignorar que a força e a projecção da marca Alentejo acabaram por limitar, em muitos momentos, a afirmação autónoma do Ribatejo.

O Ribatejo possui condições para construir uma identidade turística própria e diferenciadora. Tem o Tejo, o património histórico e religioso, a cultura ribatejana, a lezíria, o mundo rural, o cavalo, a gastronomia, o vinho, a natureza e uma localização privilegiada no centro do país e próxima de Lisboa. O problema não está na falta de recursos ou de autenticidade. Está na dificuldade em apresentar tudo isso através de uma narrativa comum, reconhecida e promovida de forma consistente.

Mais importante do que discutir apenas uma separação administrativa é garantir que o Ribatejo tem voz, meios e uma estratégia de promoção própria. A região não pode continuar a ser apresentada como um complemento geográfico de outra marca. Precisa de ser reconhecida como um destino com identidade, oferta e capacidade de atracção próprias.

Uma eventual reorganização institucional deve ser avaliada em função dos benefícios concretos que possa trazer à região e às suas empresas, e não apenas por razões de identidade territorial. O objectivo deve ser aumentar a visibilidade do Ribatejo, atrair mais visitantes, prolongar a sua permanência e assegurar que o valor criado pelo turismo se distribui por todo o território.

A NERSANT defenderá uma estratégia turística que envolva os municípios, as comunidades intermunicipais, as empresas e as entidades do sector. O Ribatejo não precisa de se afirmar contra o Alentejo. Precisa de se afirmar pelo valor da sua própria identidade.

Que implicações poderá ter para as empresas da região a chegada da nova NUT II Oeste e Vale do Tejo? A região está preparada para ‘pensar a 34’ municípios?

A criação da nova NUT II Oeste e Vale do Tejo representa uma mudança estrutural muito relevante, porque reúne 34 municípios das regiões do Oeste, da Lezíria do Tejo e do Médio Tejo numa nova realidade territorial, estatística e, progressivamente, estratégica.

A NERSANT tem-se empenhado activamente na preparação deste processo, promovendo a reflexão e a articulação entre os principais agentes do território. A iniciativa “Reflexão OVT 2026 – Conhecimento, Qualificação e Inovação na nova NUT Oeste e Vale do Tejo” insere-se precisamente neste trabalho de antecipação, procurando identificar prioridades comuns e contribuir para a construção de uma visão integrada para a nova região.

Os efeitos mais visíveis desta alteração, nomeadamente ao nível da programação e distribuição dos fundos europeus, serão sentidos a médio prazo. No entanto, o momento de preparar estratégias, estabelecer parcerias e definir projectos conjuntos é agora. Se não existir previamente uma visão partilhada, corremos o risco de esta transformação se limitar a uma alteração administrativa ou estatística.

Pensar a 34 municípios não significa apagar a identidade e as especificidades de cada sub-região. Significa reconhecer os pontos fortes de cada território e ganhar escala em áreas como a qualificação, a inovação, a mobilidade, a atracção de investimento, a internacionalização e o desenvolvimento empresarial. O Oeste, a Lezíria do Tejo e o Médio Tejo têm características distintas, mas também desafios e oportunidades que podem ser trabalhados em conjunto.

A NERSANT quer ter um papel activo na construção desta nova realidade, contribuindo para aproximar empresas, municípios, comunidades intermunicipais, instituições de ensino e associações empresariais. As empresas não se limitam às fronteiras administrativas. Procuram territórios competitivos, com boas infra-estruturas, talento, conhecimento e capacidade de decisão. É essa competitividade conjunta que temos de começar a construir desde já. JPN

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