Festival regressa às Portas do Sol a 25 e 26 de Setembro, com 18 chefes de cozinha, mais de 120 produtores, artesãos e agentes económicos e uma programação dedicada à gastronomia, agricultura, música e ofícios tradicionais. Entidade Regional de Turismo investe 100 mil euros numa iniciativa que pretende levar a outros pontos do Ribatejo.
O Festival Raízes Vivas regressa ao Jardim das Portas do Sol, em Santarém, nos dias 25 e 26 de Setembro, com uma edição alargada a dois dias e a ambição de se afirmar como uma marca de valorização da cultura ribatejana. A Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo investe 100 mil euros na iniciativa, apoiada por fundos europeus, e admite levar o conceito a outro concelho da região ainda antes do final do ano.
A segunda edição da Festa da Ruralidade, Costumes e Tradições foi apresentada na segunda-feira, 31 de Agosto, no Largo de Marvila, pelo presidente da Câmara de Santarém, João Teixeira Leite, pelo presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, José Manuel Santos, e pelo chefe Rodrigo Castelo, curador do festival.
Depois de uma primeira experiência realizada durante um único dia, em 2025, o Raízes Vivas ocupa agora dois dias e os mais de 13 mil metros quadrados do Jardim das Portas do Sol. A organização espera receber pelo menos quatro mil visitantes, embora Rodrigo Castelo admita que a afluência possa chegar aos seis mil.
O programa reúne 18 chefes de cozinha, mais de 120 produtores, artesãos e agentes económicos locais, mais de 22 actuações e momentos culturais, além de aulas, demonstrações e oficinas ligadas à gastronomia, agricultura e ofícios tradicionais.
Uma “reserva viva” com vista para o Tejo
Rodrigo Castelo apresentou o festival como uma tentativa de preservar a cultura ribatejana sem a reduzir a uma reprodução estática do passado. Gastronomia, agricultura, artesanato, música, sustentabilidade e transmissão de conhecimentos cruzam-se num recinto concebido como uma “reserva viva da cultura ribatejana”.
“Um povo sem memória é um povo sem futuro. É precisamente desse princípio que nasce o Raízes Vivas: para cultivar a cultura ribatejana, preservar a nossa memória e a nossa identidade, mas também para olhar em frente, para a sustentabilidade, para a valorização do território, para a economia local e para aquilo que queremos transmitir às próximas gerações”, afirmou.
Durante dois dias, o festival procura reunir nas Portas do Sol aquilo que se produz, cultiva, cozinha e trabalha no Ribatejo. Rodrigo Castelo resume o conceito como “7500 quilómetros quadrados de Ribatejo vividos num jardim com vista para o Tejo”.
A utilização da expressão “reserva viva” não é, segundo o chefe de cozinha, uma tentativa de colocar as tradições dentro de um museu. “Preservar não significa colocar a nossa cultura num museu. Significa dar-lhe condições para continuar a existir, evoluir, gerar economia e chegar às novas gerações”, explicou.
O recinto estará organizado em diferentes áreas. O ‘Jardim da Gastronomia’ recebe chefes convidados e associações ribatejanas, que vão cozinhar ao vivo com produtos da região. Na ‘Praça dos Produtores, Artesãos e Agricultores’ estarão representados produtores locais e pessoas que continuam a preservar saberes e profissões tradicionais.
As ‘Ruas dos Ofícios’ destinam-se à demonstração de técnicas e actividades que correm o risco de desaparecer, enquanto as ‘Hortas Regenerativas’ recebem aulas e experiências práticas sobre agricultura regenerativa, compostagem, conservação de sementes tradicionais e gestão sustentável dos recursos naturais.
A programação reparte-se ainda pelo ‘Palco Raízes’, dedicado à música, cultura e entretenimento, e pelo ‘Palco do Futuro’, onde serão debatidas matérias relacionadas com agricultura, alterações climáticas, sustentabilidade, inovação e desenvolvimento do território.
“Queremos que seja possível entrar nas Portas do Sol para assistir a um concerto, mas sair de lá conhecendo um produtor, descobrindo um ofício, aprendendo sobre agricultura regenerativa ou provando um produto que talvez nunca se tivesse experimentado”, sintetizou Rodrigo Castelo.
Gastronomia conta a história do território
A gastronomia permanece como um dos principais pilares do Raízes Vivas. O programa pretende dar destaque aos produtos regionais, às raças autóctones, aos produtores, à biodiversidade e a práticas de sustentabilidade e desperdício zero.
“Poucas coisas contam tão bem a história de um território como aquilo que ele come”, sustentou Rodrigo Castelo, para quem a presença de chefes reconhecidos deve servir sobretudo para valorizar a matéria-prima e as pessoas que a produzem.
“Quando valorizamos o ingrediente local, estamos também a valorizar quem produz, quem trabalha a terra, quem preserva uma raça ou uma técnica e, em última análise, a própria economia do território”, acrescentou.
Mais do que apresentar pratos e produtos, o festival pretende relacionar a gastronomia com o funcionamento do território e com a continuidade de actividades económicas ligadas à agricultura e ao mundo rural. “Queremos mostrar que a cultura ribatejana pode ser simultaneamente património e futuro, tradição e inovação, identidade e economia, memória e sustentabilidade”, afirmou o curador.
O modelo de organização envolve a Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, como promotora, e a Câmara Municipal de Santarém, enquanto parceira principal. Participam igualmente a Associação Raízes Vivas, a Associação Académica de Santarém e a Sociedade Recreativa da Romeira, além de produtores, empresas, patrocinadores e outras entidades locais.
Turismo investe 100 mil euros
A Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo investe 100 mil euros nesta edição, apoiada pelos fundos europeus através do programa Alentejo 2030. José Manuel Santos considera que as características do festival permitiram enquadrá-lo nos objectivos europeus relacionados com a sustentabilidade, a coesão territorial e a denominada economia regenerativa.
“É uma economia que, a partir da identidade, da cultura e da gastronomia, consegue criar um factor de competitividade económica e de coesão territorial”, afirmou o presidente da Entidade Regional de Turismo.
José Manuel Santos considera que o Raízes Vivas pode contribuir para a criação de uma marca portuguesa assente na identidade do território. Apesar do reconhecimento internacional alcançado pela restauração, gastronomia e vinhos nacionais, entende que Portugal ainda não conseguiu afirmar suficientemente as suas próprias insígnias.
“Este conceito do Raízes Vivas é o conceito que Portugal anda à procura e que, acredito, foi descoberto no Ribatejo, em grande parte pelo Rodrigo”, declarou. “Falta-nos afirmar a nossa cultura e a nossa gastronomia através de uma insígnia própria, de uma insígnia nacional. O Raízes Vivas estabelece esse compromisso.”
O festival integra uma estratégia mais ampla destinada a aumentar a notoriedade turística do Ribatejo. A campanha promocional “O Ribatejo fica contigo”, que passou pela televisão, meios digitais e publicidade exterior, terá uma segunda fase a partir de Outubro, orientada para as escapadinhas e o lazer durante o Inverno.
A região começou também a integrar, desde Março, as campanhas realizadas em Espanha. A Entidade Regional de Turismo pretende ainda aproveitar a futura exibição da série dedicada à Marquesa de Alorna para promover internacionalmente o território.
Festival poderá chegar a outro concelho
A segunda edição ainda não se realizou, mas a Entidade Regional de Turismo já está a preparar o alargamento do conceito. José Manuel Santos revelou que o Raízes Vivas poderá chegar a outro concelho da região até ao final do ano, embora num formato mais reduzido e centrado na promoção gastronómica.
“Estamos a procurar que, até ao final do ano, o Raízes Vivas possa estar presente em, pelo menos, mais um concelho da região, num formato mais pequeno e com iniciativas essencialmente ligadas à gastronomia”, anunciou, sem identificar o município em causa.
Santarém deverá manter-se como o centro fundador e principal do projecto. “O próprio nome assim o exige: é um evento que terá de ganhar raízes e procurar implantar-se noutros concelhos da Lezíria do Tejo e do Ribatejo, tendo sempre como centro fundamental e fundador a cidade de Santarém”, disse.
De acordo com José Manuel Santos, Santarém concentra cerca de 60 por cento das dormidas registadas na Lezíria do Tejo. O objectivo passa agora por utilizar a procura gerada na cidade para atrair visitantes a outros pontos da região.
O responsável relaciona o crescimento do festival com o impacto económico esperado na cidade. “Este evento será importante para criar mais procura e mais consumo no retalho, na restauração, no comércio, no artesanato e no alojamento da cidade e da região”, afirmou.
Câmara cumpre promessa de alargar o evento
João Teixeira Leite recordou que, na apresentação da primeira edição, havia desafiado Rodrigo Castelo a transformar o Raízes Vivas num evento de dois dias. O presidente da Câmara apresentou o novo formato como o cumprimento desse compromisso e como exemplo de uma estratégia municipal baseada no crescimento gradual dos eventos.
“Há exactamente um ano estávamos aqui e eu disse ao Rodrigo: “Este evento tem tudo para se realizar durante dois dias.” Aqui estamos, um ano depois, com um evento de dois dias, ao contrário da edição anterior”, afirmou.
Para o autarca, o festival representa a determinação de preservar os elementos distintivos do território. “Não desistirmos daquilo que temos de melhor, das nossas raízes, das nossas tradições e da nossa identidade: é aquilo que este evento representa.”
João Teixeira Leite enquadrou o Raízes Vivas na aposta municipal em iniciativas destinadas a atrair visitantes, aumentar as dormidas e dinamizar a restauração e o comércio. Apontou como exemplo a primeira Noite Branca de Santarém, que levou milhares de pessoas ao centro histórico.
“Quando decidimos mobilizar recursos públicos para a realização de grandes eventos, fazemos isso com um intuito claro: mostrar as nossas potencialidades, encher a hotelaria, encher as ruas e o comércio e dinamizar a economia local”, explicou.
A gastronomia ocupa um lugar central nessa estratégia. O presidente da Câmara recordou que Santarém detém o título de Capital Nacional da Gastronomia e recebe o mais antigo festival gastronómico do país, cuja 45.ª edição começa a 22 de Outubro.
“Ao longo do ano, as iniciativas que valorizam a gastronomia são essenciais para dar corpo e dimensão à nossa estratégia”, sustentou.
“Tempos diferentes” na relação com o Ribatejo
João Teixeira Leite aproveitou a apresentação para elogiar a actual direcção da Entidade Regional de Turismo, contrastando-a com a relação que, no seu entender, a instituição manteve anteriormente com o território.
“A Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo viveu demasiados anos de costas para o Ribatejo. Tenho de o dizer, porque foi assim que viveu e era assim que as pessoas de Santarém o sentiam. Hoje, com a presidência de José Santos e com a sua equipa, vivemos tempos diferentes”, declarou.
O autarca classificou como inédita a aplicação de verbas da entidade num evento desta natureza realizado na cidade. “É inédita a mobilização de recursos públicos da Entidade Regional de Turismo para um evento que acontece em Santarém, capital do Ribatejo. Esta situação nunca se tinha verificado até aqui”, afirmou.
A Câmara associa ainda a defesa da identidade ribatejana à realização da II Grande Corrida de Toiros Raízes Vivas. A corrida está marcada para 26 de Setembro, em São Bento, numa praça amovível com capacidade para cerca de 1800 espectadores.
“Em Santarém, capital do Ribatejo, celebramos com entusiasmo a festa brava, porque faz parte das nossas raízes, das nossas tradições, da nossa identidade e da nossa cultura”, afirmou João Teixeira Leite.
As receitas da corrida revertem a favor do Santíssimo Milagre. Os lucros do festival destinam-se às três associações parceiras: Associação Raízes Vivas, Associação Académica de Santarém e Sociedade Recreativa da Romeira.
Quatro novos pedidos para unidades hoteleiras em Santarém
João Teixeira Leite revelou, durante a apresentação do Raízes Vivas, que a Câmara Municipal de Santarém recebeu, nos últimos quatro meses, quatro novos pedidos de licenciamento para unidades hoteleiras. Estes projectos deverão juntar-se aos três hotéis que já se encontram previstos para o concelho.
“Só nos últimos quatro meses recebemos quatro novos pedidos de licenciamento de unidades hoteleiras no concelho de Santarém, a somar a estes três”, anunciou.
Entre os investimentos já conhecidos encontra-se a transformação do antigo presídio militar numa unidade de cinco estrelas. Está também previsto um hotel de quatro estrelas junto à rotunda Bernardo Santareno, conhecida como rotunda do Continente, e uma terceira unidade de três estrelas.
O presidente da Câmara não divulgou as localizações e características dos quatro novos projectos, remetendo mais informações para depois da conclusão dos procedimentos de licenciamento. Adiantou apenas que um deles já foi tornado público numa reunião do executivo e deverá localizar-se no Campo Infante da Câmara.
Para João Teixeira Leite, a procura de Santarém por novos investidores hoteleiros acompanha o crescimento da actividade turística e a estratégia municipal de captação de visitantes.
“Estamos a crescer e isso é aquilo que quem está à frente de uma entidade pública deseja que aconteça: crescer com qualidade e crescer com identidade”, concluiu.


