A realização de feiras em Santarém é coisa de muitos séculos, pois já o rei D. Dinis, em 1302, tomava sob sua protecção “todos os que a ela concorressem quer para comprar quer para vender”. Durante séculos a antiga Princesa das nossas Vilas acolhia anualmente duas das mais importantes feiras e festas da região, as quais tinham uma duração de quinze dias e acolhiam todo o tipo de mercadorias e de visitantes. Eram a Feira do Milagre, que tinha o seu início em Domingo de Pascoela e complementava as festividades em honra do Santíssimo Milagre, e a Feira da Piedade, que começava no segundo Domingo do mês de Outubro e era uma das mais importantes feiras de ano, pois nesta época os proprietários já haviam vendido as suas colheitas e os camponeses, à jorna ou ajustados pelo S. Miguel, já tinham recebido a sua féria.

No século passado realizaram-se diversas feiras em Santarém, de entre as quais a Exposição-Feira Distrital de 1936 terá sido a mais relevante de todas, cumprindo-se com a sua organização o sonho de institucionalizar a Província do Ribatejo na reforma administrativa do país. Conta a imprensa da época de que não havia memória de um certame tão imponente, no qual se expunha com toda a grandiosidade a potencialidade da região a todos os níveis, nomeadamente o económico e o cultural.

Alimentado pela memória desses certames e constatando-se uma certa letargia em que vivia a capital ribatejana, o Vereador Caetano Marques dos Santos apresentou na reunião da Câmara Municipal de 4 de Fevereiro de 1953 a proposta de criação de uma feira anual em Maio ou Junho, dentro do espírito regionalista que se impunha exaltar. Depois de ouvidos os Grémios interessados e os serviços técnicos competentes, constituiu-se uma comissão para elaborar o respectivo regulamento e apostar na concretização deste certame-feira para o engrandecimento do nome de Santarém.

A sua proposta obteve aprovação unânime, embora tal viesse a concretizar-se apenas no ano seguinte, entre os dias 23 e 30 de Maio de 1954. A comissão organizadora era presidida pelo Capitão Joaquim Barros e Matos, vice-presidente da Câmara, e contava com a participação dos vereadores Caetano Marques dos Santos e Henrique Dias Vigário, do intendente da pecuária, Dr. Luís Hilário Barreiros Nunes, do director da Fonte Boa, Dr. Joaquim da Silva Portugal, do presidente do Grémio da Lavoura, José Infante da Câmara, do representante do Grémio do Comércio, Augusto Sobral Bastos, e de Celestino Graça, Joaquim Ferreira Campos, José de Sousa Rafael e Alfredo Ribeiro Noel de Oliveira.  

A era de Celestino Graça…

Celestino Graça assumiu a função de secretário-geral da Comissão Executiva da Feira do Ribatejo com tal devoção que cedo se destacou entre os restantes membros, quer pela ousadia das suas propostas quer, outrossim, pela capacidade empreendedora que permitiu levar por diante um projecto tão ambicioso, pelo menos nos seus propósitos, mas que apenas contou com um apoio anual de 120 contos, sendo 60 contos atribuídos pelo Município e os restantes pelo Governo Civil de Santarém.

O novo campo da Feira era um autêntico ermo, onde era necessário fazer tudo, desde a modelação dos terrenos à construção de alguns pavilhões, entre os quais a Casa do Campino, e infra-estruturas básicas. Como o dinheiro era muito escasso as edificações eram construídas com paus de eucalipto e esteiras, o que valeu o epíteto da “feira do pau caiado”, algo que era a oposição completa dos sumptuosos pavilhões da Exposição-Feira Distrital de 1936.

Mas o entusiasmo não esmorecia e foi possível agregar os agricultores e os criadores de gado para exporem os seus produtos, no que foram determinantes as diligências do Dr. Barreiros Nunes, do Dr. Portugal, do Sr. José Infante e de outros membros da Comissão Executiva mais envolvidos nestes sectores. Para a animação do certame realizaram-se as típicas corridas de campinos, as entradas e largadas de toiros e os espectáculos de fado e de folclore regional. Com as casas dos petiscos, algum comércio e a ambiência própria das gentes ribatejanas, o certame foi um tremendo sucesso. Estava garantido o seu futuro, apesar de algumas críticas malévolas de gente que não fazia nada, mas desenhava de tudo.

Celestino Graça era a alma da Feira, respeitado pelos representantes do Município que integravam a Comissão Executiva e foi ganhando o seu espaço de intervenção durante a realização do certame e na preparação da edição seguinte. Tudo mexia, tocado pelo ímpeto dinamizador de Celestino Graça.

Cedo que se concluiu que a Feira deveria ter uma duração de duas semanas, o que exigiu uma equipa maior, sendo criadas comissões e sub-comissões temáticas em quem Celestino Graça delegava as necessárias competências para elaborar e realizar a respectiva programação, após a sua aprovação. O número de expositores, entre os quais uma grande maioria das casas comerciais da região, crescia a olhos vistos e o número de visitantes também.

Inicialmente a Feira tinha um cariz regional, mas a projecção atingida impôs que se alargassem os horizontes e os expositores já vinham de diversas regiões do país, valorizando o certame também na perspectiva comercial e industrial, de tal modo que, em 1964, a par da XI Feira do Ribatejo surgiu a I Feira Nacional de Agricultura, beneficiando do suporte do Ministério da Agricultura que aqui apresentava a sua estratégia anual para o sector, do mesmo modo que os industriais de maquinaria agrícola aqui apresentavam as últimas novidades tecnológicas.

O universo nacional tornou-se pequeno e abriram-se as fronteiras para acolher representações estrangeiras, que se instalaram com pavilhão próprio. Depois do Brasil, que data a sua primeira participação em 1963, seguiram-se os pavilhões da República Federal da Alemanha e dos Estados Unidos da América, em 1965, e nos anos seguintes Itália, Espanha, França, Bélgica, Holanda e Dinamarca.

Inicialmente a animação cultural e artística era dedicada aos diversos concelhos ribatejanos que estavam representados na Feira, no entanto, complementarmente, a programação foi valorizada com a participação de grupos folclóricos nacionais e estrangeiros, o que originou a organização do I Festival Internacional de Folclore de Santarém, em 1959, que preenchia a programação dos três últimos dias da Feira, com a realização de outros espectáculos musicais e, em posição de destaque as largadas de toiros, as corridas de campinos e os concursos e desfiles de gado.

O campo da Feira, a que foi muito justamente atribuído o nome de Campo Infante da Câmara, era já uma pequena cidade, dotado de modernas infra-estruturas de saneamento básico e de arruamentos exteriores. O espaço, que tinha como referência a emblemática Casa do Campino, tornava-se exíguo e até o Presidente da República constatava que ao contrário do que acontecia nas primeiras edições do certame, já necessitava de dois dias para visitar convenientemente toda a área exposicional. Assim crescesse a agricultura nacional, chegou a confidenciar num dos almoços que eram servidos em sua honra na Casa do Campino…

Em 1973 Celestino Graça promoveu a I edição da FATSA – Feira Agrícola Técnica de Santarém, com o objectivo de fomentar o mercado de maquinaria usada, enquanto optimizava a utilização do magnífico recinto da Feira. Entretanto, em Abril do ano seguinte ocorreu a mudança de regime político, o que levou muita gente despeitada pelo sucesso de Celestino Graça a persegui-lo, acusando-o de cúmplice do regime deposto, o que constituiu uma tremenda injustiça, como já tivemos a oportunidade de esclarecer noutras circunstâncias que não vêm agora ao caso.

A Comissão Executiva da Feira ainda realizou o certame de 1974, embora já muito condicionada, e tomou a decisão unânime de apresentar a sua demissão e entregar a organização da Feira à Comissão Administrativa da Câmara para que assumisse a futura realização da Feira, se fosse essa a sua intenção. Em 25 de Outubro de 1974, em sessão pública levada a efeito nos Paços do Concelho, onde compareceram centenas de pessoas que quiseram distinguir a acção de Celestino Graça e dos membros da Comissão Executiva e das diversas Comissões, Celestino Graça apresentou um detalhado relatório onde discriminava o inventário de todo o património da Feira, avaliado em cerca de 28 mil contos, e o património financeiro depositado em Banca, que ascendia a aproximadamente 3 mil contos.

Celestino Graça demonstrou uma vez mais a sua elevada competência e a honestidade com que a Comissão da Feira havia administrado os valores que tinha tido a capacidade de conquistar, quer de apoios oficiais, quer do aluguer de espaço de exposição.

A Feira nos pós-revolução

A partir desta altura, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Santarém, bem assim como os Executivos que lhe sucederam, chamaram a si a responsabilidade de organizar o certame, nomeando os membros das respectivas Comissões Organizadoras.

A edição de 1975 constituiu um verdadeiro atentado à memória da Feira do Ribatejo, demolindo-se o emblemático palco do recinto de espectáculos e a manga onde se realizavam as corridas de campinos e as largadas de toiros e hostilizando-se diversos expositores, conotando-os como representantes do capitalismo selvagem. Esta sede de vingança – perfeitamente gratuita e exagerada – contribuiu para a realização de um certame enfeudado às forças partidárias mais esquerdistas, o que afastou muita gente da Feira, tanto ao nível de expositores como de visitantes.

Em 1976, o recinto da Feira, nomeadamente o Pavilhão do Artesanato e a Casa do Campino, estava ocupado por cidadãos oriundos das antigas colónias ultramarinas, em consequência do atribulado processo de descolonização, o que por pouco não inviabilizou a realização da Feira do Ribatejo, que neste ano foi organizada pela Artisom, empresa especializada em organização de eventos, cumprindo-nos saudar a valiosa intervenção de Carlos Alberto da Silva Gomes, membro da Comissão de Municipal de Turismo, que com a sua lucidez e clarividência salvou a Feira de uma mais do que provável extinção. 

Após a realização das primeiras eleições autárquicas, o Partido Socialista assumiu o poder na Câmara Municipal, sendo seu presidente Ladislau Teles Botas, que de uma forma respeitosa e bem-intencionada recuperou o espírito da antiga Feira e, através das Comissões por si nomeadas logrou retomar a programação mais adequada para um certame desta natureza, valorizando de igual modo, à imagem do que fizera Celestino Graça, entretanto falecido (24-10-1975), a dimensão tradicional da Feira do Ribatejo e a dimensão técnica e comercial da Feira Nacional de Agricultura.

A caminho da privatização…

Ao longo das sucessivas edições da Feira as respectivas Comissões Executivas foram acolhendo novos membros em representação de entidades de grande relevância no sector agro-pecuário e até do próprio Ministério da Agricultura, o que permitiu que em 1984 fosse criado um Conselho Geral da Feira que integrava representantes da Câmara Municipal de Santarém, do Ministério da Agricultura e das Confederações dos Agricultores de Portugal, do Comércio e da Indústria.

Esta alteração na estrutura organizativa da Feira ao invés de garantir um plano de equilíbrio e de estabilidade teve o efeito perverso de acicatar algumas ambições pessoais ou de sector, originando alguns conflitos institucionais, a que a Câmara Municipal de Santarém sempre tentou dar uma resposta positiva, mesmo abdicando de algumas das suas prerrogativas, dada a circunstância de ser a primeira responsável da organização da Feira desde 1954 e de ser a entidade proprietária do espaço onde o certame se realizava.

Na sequência destas situações fomentadoras de grande instabilidade, criou-se em 1988 a sociedade mista CNEMA – Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas, de cujo pacto social faziam parte o Ministério da Agricultura, com 17% do capital, o Município de Santarém, com 33%, a CAP, com 33%, e os restantes 17% dispersos por diversas entidades relacionadas com a Feira, com a Região ou com os sectores da agro-pecuária. 

Porém, ainda não foi esta solução que teve o condão de apaziguar os ânimos entre os membros da Sociedade, questionando-se o facto de a presidência do CNEMA estar por inerência afecta ao Presidente da Câmara Municipal, e também os terrenos da Quinta das Cegonhas, para onde deveria futuramente ser transferida a Feira. 

Como não foi possível dirimir estes diferendos em tempo útil, a CAP solicitou aos seus associados que não participassem na Feira do ano seguinte, 1989, pelo que o certame começou com a ausência de muitos expositores e, sobretudo, sem a presença dos campinos, o que, convenhamos, retirava toda a expressão de tipicismo da Feira do Ribatejo. Multiplicaram-se as reuniões entre as partes desavindas, intermediadas por figuras da política nacional e até membros do Governo, e nos últimos dias da Feira lá regressaram os campinos à sua Feira do Ribatejo. Porém, o mal estava feito…

Nos anos seguintes, com o CNEMA presidido pela CAP, encetaram-se e concluíram-se as obras de construção do magnífico Centro Nacional de Exposições, um projecto do Arq.º Carlos Guedes de Amorim, cuja estrutura expositiva constituía uma rotura total com o espaço do Campo Infante da Câmara, e o paradigma organizacional mudou radicalmente, penalizando-se a dimensão tradicional do certame, e apostando-se, sobretudo, na sua componente técnica e comercial.

Em 1994, sob a presidência de João Montoya, em representação da CAP, inaugura-se o Centro Nacional de Exposições e nasce uma nova era. Inicialmente a transferência para a Quinta das Cegonhas gerou uma grande polémica entre a população escalabitana e a nova organização da Feira, especialmente porque no novo recinto as entradas começaram a ser pagas, mas também porque a componente que mais atraía a população – a Feira do Ribatejo – já tinha começado a ser ofuscada no Campo Infante da Câmara, quer através da redução das manifestações com a participação dos campinos, quer igualmente pela extinção do Festival Internacional de Folclore.

Nos últimos trinta anos muitas têm sido as incidências políticas e judiciais entre o CNEMA e o Município de Santarém, muitas delas reflectidas, aliás, no próprio pacto social da empresa, onde a CAP é detentora da maioria do capital e o Município de Santarém reduziu a sua expressão accionista.

Tenho tido a oportunidade de manifestar em diversas ocasiões a minha opinião sobre as opções estratégicas do CNEMA, porém dada a circunstância de a empresa gestora do Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas ser maioritariamente detida por uma entidade privada retira-me a legitimidade para a criticar, pois a empresa apenas deve explicações aos seus accionistas, sem necessidade de conhecer ou de valorizar a opinião de simples cidadãos anónimos sem qualquer relação institucional com a empresa.

Nesta data tão significativa para a Feira do Ribatejo / Feira Nacional de Agricultura saúdo todos quantos ao longo destas sete décadas se devotaram tão generosamente à valorização destes certames, pelo que são credores de um gesto de reconhecimento público.

Ludgero Mendes

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