O artista belga, radicado em Santarém há 26 anos, ofereceu à Casa-Museu Passos Canavarro uma colecção de maquetes de alguns dos mais emblemáticos monumentos da cidade. O novo espaço de exposição permanente, inaugurado no final de Setembro, reúne trabalhos construídos inteiramente à mão, num processo que alia a observação, a memória e muitas horas de paciência.
Há uma Santarém em miniatura que encontrou morada definitiva na Casa-Museu Passos Canavarro. A Igreja da Graça, São João do Alporão, o Teatro Rosa Damasceno e outros edifícios emblemáticos da cidade estão agora reunidos num espaço dedicado ao trabalho de Willy Bya, artista belga que escolheu Santarém para viver e que, ao longo dos últimos anos, foi reproduzindo em papel e madeira alguns dos monumentos que mais o fascinam.
O novo núcleo, formalmente inaugurado no final de Setembro, nasceu de uma iniciativa do próprio artista, que propôs a Pedro Canavarro a entrega das suas maquetes à instituição. A amizade entre ambos e a existência de uma reprodução da própria Casa-Museu contribuíram para dar corpo ao projecto.
“Eu queria oferecer as maquetes ao museu e, como ele já tinha a casa, concordou logo com isso”, recorda Willy Bya, explicando que a reunião dos diferentes monumentos permite estabelecer uma ligação entre alguns dos espaços mais representativos do centro histórico de Santarém.
A decisão tem também um significado pessoal. “Para mim, é o melhor sítio onde elas podiam ficar. Aqui sei que são bem guardadas, bem cuidadas”, afirma.
Uma cidade construída à vista, sem plantas nem escalas
Nascido em 1938, na cidade belga de Liège, Willy Bya dedicou grande parte da sua vida profissional à podologia. O interesse pelas artes, porém, acompanhou-o desde a infância. Desenhava ainda nos tempos de escola e, mesmo durante os anos de actividade profissional, encontrava disponibilidade para pintar, fazer tapetes e experimentar diferentes formas de expressão artística.
Foi com a reforma que passou a dedicar praticamente todo o seu tempo a essa paixão. O gosto pelo modelismo, que já cultivava em jovem, ganhou novo impulso quando começou a construir pequenas casas destinadas a um circuito de comboios em miniatura de um conhecido.
“Fiz as casas para ele, para os comboios. E foi depois que pensei: se faço pequeninos, posso fazer maiores”, conta.
Vieram então as reproduções de edifícios de Santarém, realizadas com uma técnica que dispensa plantas arquitectónicas ou cálculos rigorosos de escala. Willy trabalha sobretudo com papel de 300 gramas e madeira de balsa, recorrendo à observação directa e à fotografia para reconstruir os pormenores de cada monumento.
Quando precisa de conhecer a configuração dos telhados ou de outras partes menos acessíveis, utiliza imagens do Google Maps. O resto depende do olhar, da experiência e de sucessivas tentativas.
São João do Alporão, por exemplo, obrigou-o a recomeçar o trabalho depois de perceber que as primeiras proporções não correspondiam ao edifício original. “Quando acabei a parte primária, olhei para aquilo e vi que estava errado. Deitei para o lixo e fiz novamente”, recorda.
A preocupação não é reproduzir cada construção com exactidão matemática, mas captar aquilo que a distingue. Na Igreja da Graça, optou por valorizar a entrada, a fachada e as janelas posteriores, prescindindo de outros elementos que considerou menos relevantes para a leitura do monumento.
“É por isso que eu digo que há imperfeições. Mas é feito com alma”, resume.
Cada peça representa vários meses de trabalho. A reprodução da Casa-Museu Passos Canavarro, a mais exigente que realizou, demorou cerca de seis meses a concluir. Outras maquetes requerem, em média, quatro a cinco meses de dedicação, frequentemente com jornadas próximas das oito horas diárias.
“Quando estou ocupado, tenho que avançar”, confessa.
Uma casa que também se descobre por dentro
Entre as peças agora expostas, a reprodução da própria Casa-Museu assume particular destaque. Ao contrário de outras maquetes, centradas sobretudo nas fachadas e nos volumes exteriores, esta permite levantar os telhados e descobrir, em miniatura, a organização dos diferentes espaços interiores.
É precisamente essa particularidade que Pedro Canavarro salienta ao falar da integração da colecção no museu.
“É entrar na intimidade da casa e cada visitante analisa e pensa, na sua liberdade, o que entende”, observa.
Para o responsável, as maquetes estabelecem uma ligação com o conjunto patrimonial reunido na instituição, permitindo ao visitante uma aproximação diferente à arquitectura e à história da cidade. A representação de monumentos religiosos, a par de edifícios de natureza civil, acrescenta uma nova perspectiva ao percurso da Casa-Museu, cuja colecção integra peças de diferentes estilos e proveniências.
Pedro Canavarro destaca também a representação de São João do Alporão, nomeadamente a possibilidade de observar o claustro, um espaço que considera parte integrante da história religiosa e patrimonial de Santarém.
A reprodução da Casa-Museu, contudo, proporciona um dos momentos de maior surpresa entre os visitantes.
“Consegue, sobretudo na representação desta Casa-Museu, que os visitantes abram a boca, fiquem encantados, não acreditem quando se levantam os telhados e vêem, em minúcia, como estão descritos todos os interiores. Isso é fantástico”, afirma.
O novo núcleo passa, assim, a integrar o percurso de visita da instituição, constituindo, nas palavras de Pedro Canavarro, mais um espaço que enriquece o conjunto e introduz um elemento de descoberta na parte final da visita.
“Acho que conheci todas as pedras de Santarém”
A relação de Willy Bya com Santarém começou há 26 anos, quando uma oportunidade profissional o trouxe a Portugal. O que inicialmente seria uma etapa da sua vida acabou por se transformar numa ligação duradoura à cidade e à região.
“Já me sinto ribatejano há muito tempo”, assegura, recordando os primeiros anos em que percorria diariamente as ruas, fotografava edifícios e procurava descobrir o que se escondia para lá das fachadas.
“Fiquei apaixonado pela cidade. Acho que conheci todas as pedras de Santarém. Todos os buracos, sobretudo em 2000, havia muitos”, recorda, com humor.
A curiosidade levou-o a reunir milhares de fotografias da cidade e dos arredores. A Ribeira de Santarém é um dos lugares de que guarda particular afeição, tal como a Igreja de Santa Iria, cujo interior teve oportunidade de conhecer e cujos azulejos ainda hoje recorda.
Em Dezembro de 2018, numa entrevista ao Correio do Ribatejo, Willy Bya explicava que os trabalhos dedicados a Santarém constituíam, de certa forma, um agradecimento pelo acolhimento que aqui encontrara. Nessa altura, tinha exposta numa montra da Rua Serpa Pinto uma pequena cidade construída artesanalmente, com casas, ruas, automóveis e várias referências scalabitanas, incluindo o próprio edifício do jornal.
Oito anos depois, essa dedicação ao património local ganhou uma dimensão mais duradoura, com a instalação da colecção na Casa-Museu Passos Canavarro.
E o trabalho está longe de terminar. Willy admite avançar com novos projectos, entre os quais uma representação do interior do Convento de São Francisco, uma nova fachada da Sé de Santarém e a estação ferroviária, edifício que também gostaria de reproduzir.
A vontade de continuar a criar mantém-se, tal como o desejo de tornar o trabalho acessível aos outros. Não é a vertente comercial que o move, garante, mas o prazer da criação e da partilha.
“Fazer coisas e depois deixá-las na minha casa, onde ninguém vê, não vale a pena. O que eu gosto é partilhar. Mesmo que seja imperfeito, gosto de partilhar.”
Filipe Mendes






