A oitava edição do Festival de Órgão de Santarém (FÓS), que decorre de 20 a 29 de Novembro, assinala uma nova etapa na afirmação cultural do certame, com a internacionalização a assumir um lugar central na estratégia dos promotores. A estreia mundial de uma obra encomendada ao compositor João Santos, a participação de intérpretes estrangeiros e uma programação que cruza música antiga e contemporânea estão entre os principais destaques de uma edição que mantém a ligação às comunidades locais. O festival, de entrada gratuita, estende-se também a quatro freguesias do concelho, com concertos entre 13 e 15 de Novembro.

A ambição de colocar Santarém nos circuitos internacionais ligados à música de órgão e ao património histórico marcou a apresentação da oitava edição do Festival de Órgão de Santarém, realizada no passado dia 30 de Outubro, na Sala Cosmos do Museu Diocesano. Promovido pela Câmara Municipal, Diocese e Santa Casa da Misericórdia de Santarém, o certame prepara uma programação que procura conciliar a preservação dos instrumentos históricos com novas linguagens musicais, a formação de jovens intérpretes e o envolvimento das comunidades.

O vice-presidente da Câmara Municipal de Santarém, Emanuel Campos, responsável pelo pelouro da Cultura, considerou que o festival alcançou um grau de maturidade que permite perspectivar uma nova fase de desenvolvimento, orientada para a consolidação da sua projecção internacional.

“O FÓS conquistou o seu espaço, consolidou a sua qualidade e afirmou-se como uma referência. Entendemos agora que estão criadas condições para começarmos a construir uma nova etapa na vida deste Festival”, afirmou o autarca, durante a conferência de imprensa.

Essa evolução deverá traduzir-se no reforço da presença de artistas estrangeiros, no estabelecimento de parcerias com instituições internacionais e na criação de oportunidades para músicos portugueses, particularmente os mais jovens, entrarem em contacto com outros circuitos artísticos.

“Não se trata de internacionalizar apenas por internacionalizar”, esclareceu Emanuel Campos, defendendo que a singularidade do património organístico de Santarém deve servir de ponto de partida para estabelecer relações com outros territórios e instituições europeias que partilham a mesma herança musical.

“O nosso património deve ser considerado um passaporte para a projecção internacional de Santarém”, sintetizou.

O vice-presidente destacou ainda o trabalho desenvolvido pelo Conselho de Parceiros, que reúne o Município, a Diocese e a Santa Casa da Misericórdia, considerando que a recuperação dos instrumentos históricos e a sua utilização regular permitiram afirmar Santarém como Cidade de Órgãos Históricos.

Na sua perspectiva, a conservação patrimonial deve ser acompanhada por uma utilização cultural que mantenha os instrumentos vivos e acessíveis à população. Daí a importância atribuída a uma programação que estabelece pontes entre a tradição organística, a criação contemporânea e diferentes públicos.

 

Uma obra original para o órgão da Misericórdia

Uma das novidades da edição de 2026 é a primeira encomenda de uma composição original feita pelo festival. O desafio foi lançado ao compositor e organista João Santos, que concebeu Cantus Misericordiae – Itinerário artístico para luz e órgão, uma criação destinada ao órgão histórico da Igreja da Misericórdia de Santarém.

A estreia mundial está marcada para 21 de Novembro e propõe um diálogo entre a música, a iluminação e o património artístico do templo, tomando como referência uma selecção de obras de arte existentes naquele espaço.

Na apresentação da programação, o director artístico do FÓS, Rui Paulo Teixeira, explicou que a encomenda representa um primeiro passo na construção de um repertório próprio, concebido especificamente para os instrumentos históricos da cidade.

A intenção passa por dar continuidade a este modelo em futuras edições, criando progressivamente um conjunto de composições que possam ser interpretadas e divulgadas noutros contextos musicais, incluindo fora de Portugal.

A estreia será antecedida por uma mesa-redonda dedicada ao processo de criação, na qual serão abordadas as opções do compositor e os desafios colocados pela escrita musical para um instrumento histórico.

A iniciativa traduz uma das linhas orientadoras da direcção artística: demonstrar que os órgãos históricos, embora associados a repertórios de séculos anteriores, continuam a oferecer possibilidades de experimentação e criação contemporânea.

Rui Paulo Teixeira explicou que a programação assenta em dois eixos que se complementam: a tradição e a contemporaneidade. A música antiga mantém uma presença estruturante, mas o festival procura igualmente explorar novas combinações instrumentais, propostas multidisciplinares e formas de aproximação aos públicos.

 

João Barradas e Kit Downes abrem o festival

A abertura oficial está marcada para 20 de Novembro, às 21h30, na Catedral de Santarém, com um concerto que reúne o acordeonista português João Barradas e o organista e compositor britânico Kit Downes.

Concebido de raiz para o FÓS, o espectáculo cruza composição e improvisação, numa proposta que explora as possibilidades expressivas do órgão em diálogo com o acordeão.

A presença de Kit Downes, músico reconhecido pelo seu trabalho de exploração contemporânea do órgão de tubos, constitui um dos exemplos da dimensão internacional que a organização pretende reforçar.

Outro momento dessa aposta acontece a 27 de Novembro, na Igreja da Misericórdia, com a actuação do organista húngaro Marcell Tüzes. O músico orientará também a masterclass No Órgão Histórico, dirigida a organistas e outros interessados no conhecimento e interpretação destes instrumentos.

A programação reserva igualmente espaço à música antiga, com dois concertos na Capela Dourada. A 22 de Novembro, o violinista Félix Duarte e o organista José Davide Barros apresentam um programa dedicado ao repertório barroco. No dia 28, o agrupamento Bando de Surunyo recupera música devocional associada ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, dos séculos XVI e XVII.

A diversidade de propostas estende-se a espectáculos que associam a música à literatura, ao teatro e à memória histórica.

É o caso de Sermão das Exéquias do Conde de Unhão, apresentado a 28 de Novembro, na Catedral de Santarém, pelo Veto Teatro Oficina do Círculo Cultural Scalabitano. A criação parte de um texto pregado pelo Padre António Vieira em Santarém, em 1651, recuperando um episódio da história da cidade através de uma abordagem artística contemporânea.

 

Seis órgãos históricos abertos à descoberta

A aproximação da população ao património organístico continua a ser uma das preocupações centrais do festival.

A 21 de Novembro realiza-se o Free Organ Day, uma iniciativa que convida o público a percorrer seis igrejas da cidade para conhecer os respectivos órgãos históricos.

O itinerário inclui a Catedral e as igrejas de Nossa Senhora de Marvila, Misericórdia, Santa Maria de Alcáçova, Nossa Senhora da Piedade e São Nicolau, contando com a participação de alunos e professores da Classe de Órgão do Conservatório de Música de Santarém.

Além de permitir ouvir os instrumentos em diferentes espaços, a iniciativa proporciona aos estudantes a oportunidade de participar num evento cultural com dimensão pública.

A aposta na nova geração de músicos prolonga-se através do ciclo Jovens Organistas, com recitais de David Penela, a 22 de Novembro, e Luísa Correia, a 29, na Igreja de Nossa Senhora da Piedade.

Durante a apresentação, Rui Paulo Teixeira destacou a importância de proporcionar experiências de palco a intérpretes que ainda se encontram em formação, mas que pretendem desenvolver um percurso profissional na área da música de órgão.

A vertente pedagógica inclui também uma sessão dedicada ao funcionamento e às particularidades técnicas dos instrumentos históricos. A 28 de Novembro, na Igreja de São Nicolau, João Santos orienta a conversa Óh! Tubos, Teclas e Música, seguida do recital Organalis, com repertório ibérico dos séculos XVII e XVIII.

O programa procura, desta forma, conjugar a apresentação musical com a transmissão de conhecimentos sobre a construção, funcionamento e interpretação dos órgãos.

 

Festival chega a quatro freguesias

A internacionalização não deverá comprometer, segundo Emanuel Campos, a ligação do festival ao território onde nasceu.

“Ao mesmo tempo, não queremos crescer para fora esquecendo aquilo que está próximo de nós”, afirmou, defendendo o reforço das relações com as freguesias, as escolas, os jovens e as instituições sociais.

O ciclo À Volta do FÓS – A Beleza do Canto constitui uma das expressões dessa orientação. Entre 13 e 15 de Novembro, quatro recitais de voz e órgão realizam-se nas freguesias de Gançaria, Abitureiras, Almoster e Arneiro das Milhariças, antecipando a programação principal na cidade.

A iniciativa procura descentralizar a oferta cultural e levar propostas musicais a comunidades que habitualmente não integram o circuito dos concertos realizados no centro histórico de Santarém.

Para o vice-presidente da Câmara, a dimensão internacional e a ligação local não são objectivos incompatíveis. “Podemos ter ambição internacional sem perder a nossa identidade e a nossa ligação ao território. Aliás, uma coisa deve reforçar a outra”, sustentou.

O autarca sublinhou igualmente a importância do trabalho educativo desenvolvido com o Conservatório de Música de Santarém, as crianças, os jovens organistas e os utentes de instituições sociais.

A programação contempla ainda propostas dirigidas às famílias e ao público infantil, entre as quais Para Onde me Leva o Caminho, um recital encenado do projecto Cardo, marcado para 29 de Novembro, na Igreja de Santa Maria de Alcáçova.

O espectáculo combina música, teatro e narração, permitindo dar a conhecer instrumentos como o órgão, a viola da gamba e a gaita de fole, numa abordagem que procura aproximar os mais novos da música antiga.

No mesmo dia, a Catedral acolhe, às 11h00, a Missa Dominical, com a participação da Schola Cantorum da Catedral de Santarém, dirigida por David Paccetti Correia.

 

Património histórico como ponto de partida

A dimensão patrimonial do festival esteve igualmente presente nas intervenções do padre Ganhão, da Diocese de Santarém, e de José Miguel Correia Noras, provedor da Santa Casa da Misericórdia.

José Miguel Noras destacou a importância histórica do órgão da Igreja da Misericórdia e a singularidade do património existente em Santarém, enquadrando o festival como uma oportunidade para divulgar instrumentos que integram a memória artística e religiosa da cidade.

A valorização desse legado tem sido um dos elementos estruturantes da iniciativa desde a sua criação, permitindo associar a recuperação dos órgãos históricos à sua utilização musical e à abertura de espaços patrimoniais à comunidade.

Emanuel Campos considera que o caminho percorrido criou condições para o festival ultrapassar a dimensão local e procurar uma presença mais regular nos circuitos internacionais ligados à música de órgão.

“O FÓS já nos ajudou a devolver voz aos nossos órgãos históricos. O próximo desafio é fazer com que essa voz seja ouvida cada vez mais longe”, afirmou.

A oitava edição apresenta-se, assim, como um ponto de continuidade e simultaneamente de mudança: preserva a ligação aos instrumentos e espaços históricos de Santarém, mas aposta na criação de novo repertório, no intercâmbio artístico internacional e na formação de públicos e intérpretes.

A programação decorre entre 20 e 29 de Novembro, com actividades antecipadas nas freguesias entre 13 e 15, sendo a participação gratuita em todos os concertos e iniciativas anunciados.

 

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