A historiadora e escritora Raquel Varela apresentou esta quarta-feira, 28 de Outubro, no Fórum Actor Mário Viegas, em Santarém, o livro O Canto do Melro — A Vida do Padre José Martins Júnior, um romance biográfico dedicado ao sacerdote madeirense que enfrentou a ditadura, a hierarquia da Igreja Católica e o poder político regional. Numa intervenção marcada por episódios da vida do padre e reflexões sobre a sociedade portuguesa, a autora destacou o papel da cultura, da educação e da organização popular na transformação das comunidades.

“Ele trouxe a música.” Foi esta a resposta que Raquel Varela disse ter ouvido repetidamente dos habitantes da Ribeira Seca, na Madeira, quando procurou compreender a importância do padre José Martins Júnior nas suas vidas. Mais do que um sacerdote ou dirigente político, encontrou um homem que ensinou gerações a tocar instrumentos, escrever poesia, representar peças de teatro e participar nas decisões da comunidade.

A história foi partilhada esta quarta-feira, em Santarém, durante a apresentação de O Canto do Melro, publicado pela Bertrand Editora em 2024, resultado de um trabalho de investigação que se prolongou por cerca de uma década.

Para Raquel Varela, Martins Júnior, falecido em Junho de 2025, aos 86 anos, foi uma das figuras mais relevantes do cristianismo de libertação, pela forma como associou a prática religiosa à defesa dos trabalhadores e das populações mais desfavorecidas.

“Juntou-se o homem e a história”, afirmou a historiadora, referindo-se ao encontro entre a intervenção do sacerdote e o processo revolucionário português de 1974 e 1975. Na sua perspectiva, a experiência vivida em Machico constitui um dos exemplos mais expressivos de participação popular durante aquele período.

A autora recordou as origens humildes de Martins Júnior, filho de um pescador e de uma mulher que encontrou no seminário a possibilidade de proporcionar educação aos filhos. O sacerdote viria a destacar-se pelo percurso intelectual e pela intervenção junto das comunidades, primeiro em Porto Santo e, posteriormente, na Ribeira Seca.

Foi precisamente a dimensão cultural dessa intervenção que Raquel Varela mais valorizou. O padre organizou grupos de teatro e de música, incentivou a escrita e procurou transformar os habitantes em protagonistas das suas próprias actividades culturais.

“Ele não foi para lá tocar para eles. Ele foi para lá ensinar todos a tocar música”, sublinhou.

A morte de Rosa e a consciência da injustiça

Um dos episódios mais marcantes da apresentação foi o relato da morte de Rosa, uma mulher da Ribeira Seca que perdeu a vida durante o parto de gémeos, deixando vários filhos.

Segundo Raquel Varela, Martins Júnior foi chamado durante a madrugada, quando a situação já era desesperada. Ao chegar, encontrou a mulher sem vida, os recém-nascidos vivos e os restantes filhos à sua volta.

A historiadora explicou que este acontecimento, com o qual abre o romance, marcou profundamente o sacerdote e a sua compreensão das desigualdades sociais.

Martins Júnior procurou transmitir à comunidade que aquela morte não deveria ser entendida como uma inevitabilidade ou uma manifestação da vontade divina, mas como consequência da ausência de assistência médica e das condições de pobreza em que vivia a população.

Décadas depois, Raquel Varela conheceu descendentes de Rosa, que continuavam ligados à tradição musical criada na comunidade e preservavam uma canção dedicada à sua memória.

Uma revolução que se prolongou em Machico

A intervenção abordou também a participação de Martins Júnior no processo revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril.

Raquel Varela descreveu a criação do Centro de Informação Popular de Machico, estrutura que reunia representantes de diferentes profissões e sectores da população, incluindo bordadeiras, trabalhadores da construção civil e agricultores.

Segundo a autora, aquele organismo permitia discutir colectivamente problemas tão diversos como o abastecimento de água, as condições das escolas, as infra-estruturas locais e as dificuldades das famílias.

Na interpretação da historiadora, Machico tornou-se um dos territórios portugueses onde a dinâmica revolucionária mais se prolongou, mesmo depois do 25 de Novembro de 1975.

O confronto com a hierarquia católica e com o poder político madeirense constituiu outro dos momentos centrais da apresentação.

Suspenso do exercício sacerdotal em 1977, Martins Júnior manteve uma relação próxima com a população da Ribeira Seca. Em 1985, a intervenção policial na igreja desencadeou uma mobilização popular que, segundo o relato da autora, se prolongou durante 18 dias.

A população organizou-se em turnos, mantendo a resistência à presença policial e exigindo o regresso do sacerdote. A suspensão canónica de Martins Júnior acabaria por ser levantada apenas em 2019, mais de quatro décadas depois.

“Um livro é uma arma”

Na parte final da apresentação, Raquel Varela explicou que O Canto do Melro pretende preservar a memória de Martins Júnior, mas também recuperar uma experiência de organização colectiva que considera relevante para compreender os desafios da sociedade contemporânea.

“Um livro é uma arma”, afirmou, defendendo que a obra permite reunir a história do sacerdote e contrariar interpretações que considera injustas sobre o seu percurso.

A historiadora estabeleceu ainda paralelismos entre a experiência da Ribeira Seca e problemas actuais, nomeadamente as dificuldades de organização dos trabalhadores, o enfraquecimento dos laços comunitários e o afastamento entre a participação política e a vida cultural.

Para Raquel Varela, o legado de Martins Júnior não reside apenas nas lutas políticas em que participou, mas sobretudo na capacidade de proporcionar às pessoas instrumentos para pensarem e decidirem por si próprias.

“Estamos entre iguais”, afirmou, recordando a relação que ainda hoje mantém com os habitantes da Ribeira Seca e a ausência de formalismos ou deferências sociais que encontra naquela comunidade.

Na leitura da autora, essa foi uma das principais lições deixadas pelo padre José Martins Júnior: a transformação de uma comunidade não se faz apenas através da política, mas também pela possibilidade de cada pessoa desenvolver as suas capacidades e participar plenamente na vida colectiva.

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