A apresentação do livro “O Canto do Melro”, de Raquel Varela, reuniu no Centro Cultural Regional de Santarém a historiadora e o major de Abril Mário Tomé, que conheceu e trabalhou com o padre José Martins Júnior. Entre memórias pessoais, episódios da Revolução e reflexões sobre a Igreja, os dois recuperaram a história de um sacerdote madeirense que transformou a Ribeira Seca num espaço de participação popular, educação e cultura.
“Ele trouxe a música.” É esta a resposta que Raquel Varela continua a ouvir dos habitantes da Ribeira Seca, na Madeira, quando lhes pergunta o que representou o padre José Martins Júnior nas suas vidas. Não falam, em primeiro lugar, das disputas políticas, dos confrontos com a hierarquia católica ou da resistência à intervenção policial que marcou a história daquela comunidade. Recordam um homem que lhes ensinou a tocar instrumentos, escrever poesia, representar peças de teatro e, sobretudo, a pensar e decidir por si próprios.
A história foi contada pela historiadora e escritora durante a apresentação do seu livro O Canto do Melro — A Vida do Padre José Martins Júnior, realizada a 28 de Outubro, no Fórum Actor Mário Viegas, em Santarém, numa iniciativa do Centro Cultural Regional de Santarém (CCRS). A sessão contou com a participação do major Mário Tomé, antigo deputado da União Democrática Popular (UDP) e militar envolvido no 25 de Abril, que apresentou a autora e a obra, e com a presença do editor Jorge Garcia.
Publicado pela Bertrand Editora em Novembro de 2024, o romance biográfico recupera a vida de uma das figuras mais singulares da história política e religiosa da Madeira. José Martins Júnior, nascido em Machico em 1938 e falecido em Junho de 2025, foi sacerdote, dirigente político, deputado regional e presidente da Câmara Municipal de Machico. A sua intervenção junto das populações mais pobres e o envolvimento nas lutas sociais colocaram-no em confronto com o poder político regional e com a hierarquia da Igreja Católica.
Mas foi a dimensão humana dessa intervenção que dominou boa parte da conversa em Santarém.
Um livro para conservar uma voz
Raquel Varela explicou que a escrita da obra resultou de um longo processo de aproximação ao sacerdote e à comunidade onde viveu. Durante vários anos, recolheu testemunhos, gravou conversas e consultou jornais e documentos da época, procurando reconstruir os acontecimentos através da memória dos seus protagonistas.
“Eu fiz um trabalho de, ao longo de muitos anos, conversar com ele, gravar tudo o que havia para gravar”, contou, explicando que muitos dos diálogos reproduzidos no romance foram recuperados de publicações da época.
“É um romance biográfico, mas praticamente tudo o que está aqui é verdade”, afirmou, esclarecendo que a ficção lhe permitiu reconstruir diálogos que poderão não ter ocorrido exactamente nos termos apresentados, mas que procurou manter fiéis ao contexto e às pessoas retratadas.
Mário Tomé: um sacerdote que não obedecia às direcções partidárias
A intervenção de Mário Tomé acrescentou à apresentação o testemunho de quem conheceu pessoalmente Martins Júnior e acompanhou a sua actividade política.
Antigo deputado da UDP, Tomé recordou que o sacerdote participou na actividade daquele partido, embora mantivesse uma forma própria de entender a organização política e a relação com as populações.
“Eu cheguei a trabalhar com ele”, afirmou, admitindo que essa colaboração nem sempre foi isenta de divergências.
Segundo explicou, a UDP tinha uma direcção central e orientações políticas definidas, enquanto Martins Júnior privilegiava as decisões tomadas nas assembleias populares que se realizavam na igreja da Ribeira Seca.
“A direcção central dele era aquilo que o povo achava que era possível”, sintetizou.
“Ele ensinava o povo a decidir”, sublinhou.
A dimensão humana de uma revolução
Ao apresentar Raquel Varela, Mário Tomé destacou não apenas o seu trabalho académico, mas também a atenção que dedica às pessoas e às relações humanas na interpretação dos processos políticos.
Recordou que a conheceu quando era uma jovem mãe de gémeos, já profundamente envolvida na intervenção cívica, e descreveu-a como uma mulher cuja actividade intelectual e política procura compreender a sociedade a partir das suas raízes.
“A Raquel é uma mulher que não pára”, afirmou.
O major considerou que a historiadora encontrou em Martins Júnior uma figura particularmente próxima da sua própria forma de pensar a transformação social, pela importância atribuída à cultura, à solidariedade e à autonomia das pessoas.
Para Tomé, o sacerdote soube conjugar os ensinamentos religiosos com uma prática política que valorizava a participação popular.
Na resposta, Raquel Varela devolveu o elogio, apresentando o antigo militar como uma das figuras mais inspiradoras da sua vida. Destacou-lhe sobretudo a capacidade de conservar o sentido de humor, a confiança nas pessoas e a esperança na transformação da sociedade, apesar das derrotas políticas acumuladas ao longo de décadas.
A historiadora relacionou essa atitude com a experiência de Martins Júnior, defendendo que um verdadeiro dirigente não se limita a lamentar as derrotas, mas procura identificar novas possibilidades de transformação.
